
Neste novo Post, gostaria de apresentar uma notícia publicada no Jornal “A Bola” de 1 de Agosto de 2007 da autoria de Miguel Cardoso Pereira, ao qual dou os meus sinceros parabéns. Creio que este artigo, que publico na íntegra, demonstra muito bem, que o Grupo C.U.F. não apostava só na indústria, como também se promovia a nível desportivo e que também nessa área ela trouxe as suas inovações. Ainda hoje há um clube com certas semelhanças ao que foi o Grupo Desportivo da C.U.F., falo do Bayer Leverkusen, curiosamente também ela um gigante da indústria química. Serão meras coincidências? Espero que gostem.
"A Primeira Indústria do Futebol"
“No Barreiro diz-se que a CUF nunca foi campeã nacional porque muitos dirigentes da fábrica eram do Sporting e não queria importunar os leões. Diz-se também que a CUF chegou a ser a maior empresa da Europa e que tinha capital para alimentar qualquer ideal desportivo. A revolução de Abril de 1974, mudou os negócios de mãos, mudou até os nomes das coisas. De CUF passou a Quimigal e depois a Desportivo Fabril. Antes do que hoje é a indústria do futebol, houve o chamado futebol industrial.
Saia um fumo amarelado das chaminés das fábricas dos óleos, dos sabões, dos adubos, do que mais havia, que hoje já não sai. Era um fumo que se unia e nuvens igualmente amarelas e chegava a impedir que os treinos decorressem ali ao lado, de tão nauseabundo odor no Campo de Santa Bárbara, o começo de tudo no centro do complexo industrial gigantesco onde trabalhavam onze mil pessoas.
O Barreiro dos anos cinquenta era o pólo económico do País, a CUF era a principal empresa da cidade, espalhada também pelo Portugal Continental, insular e ultramarino.
Hoje o Campo de Santa Bárbara é um depósito de entulhos e materiais de construção. Mesmo ao lado está o mausoléu de Alfredo da Silva, industrial dinâmico que ergueu o império. A estrutura do túmulo é maior do que a de Lenine, em Moscovo.

O ecletismo e os resultados alcançados levaram a que os donos da fábrica alargassem interesses desportivos. Ainda que a população do Barreiro sem ligações à CUF empurrasse o seu Barreirense para a frente, como símbolo da cidade, os milhares de trabalhadores e seus familiares criaram uma cultura própria. Troféus atrás de troféus durante anos e anos: no remo, no hóquei em patins, com os internacionais Vítor Domingos e Leonel Fernandes; no atletismo, no ciclismo – o clube venceu uma Volta a Portugal, por Joaquim Fernandes – no basquetebol. Claro, no futebol: Conhé, Fernando Oliveira, Capitão-Mor, Vítor Pereira, Mário João – bicampeão europeu pelo Benfica que se juntou à CUF devido à segurança de um emprego estável – José Palma, Vieira Dias, Arnaldo José Maria e Manuel Fernandes., que mais tarde brilharia no Sporting. A dupla oferta proporcionada pela CUF, futebol e emprego era, na altura, um privilégio irrecusável.
É, ainda hoje, o único emblema português com um prémio da FIFA e da UEFA para Melhor Público Desportivo, que engrandecia o audaz Complexo Desportivo Alfredo da Silva, no Lavradio, para onde a CUF alargou fronteiras em 1965. Ainda hoje é um dos maiores e mais completos espaços desportivos portugueses. Dos mais graciosos. De arrojada arquitectura.
"22 Anos seguidos e nunca mais"
Acontece que , nos dias que correm, ao lado do Tejo, o Barreiro já não é o maior pólo industrial do País, antes um dos concelhos com maior taxa de desemprego, ainda a braços com a poluição atmosférica, uma cidade à beira do rio, mas que o usa só como caminho para Lisboa.
A revolução de Abril esvaziou o poder da empresa , retirou-lhe privilégios e o desinvestimento foi imediato. As 22 épocas consecutivas na I Divisão terminaram em 1975/1976. Jamais.
Em 1976 a CUF passou a Quimigal e em 2000 rebaptizou-se Desportivo Fabril. Mudou de mãos, de nome e enquanto clube de futebol. Já nem pode bem dizer-se que é um histórico pobre ou azarado, como há outros; é sobretudo uma referência em crise de identidade.
Um nome que fabricou sonhos e que até nas estratégias do futebol foi precursor. A 15 de Fevereiro de 1965 a CUF usou pela primeira vez em Portugal um sistema de 4x4x2, ainda no Campo de Santa Bárbara. Ganhou 2-0 ao Benfica e a inovação foi elogiada por treinadores e jornalistas, conta Manuel de Oliveira, que na altura era treinador da CUF, depois de ter sido jogador.
Junto ao destruído Campo de Santa Bárbara, ainda cheira a óleo alimentar, ainda lá se produz. Mas à volta fecharam mais de metade das fábricas.
Do mal, o menos: os níveis de poluição atmosférica descem no Barreiro. Não se respiram nuvens amarelas e as poucas que há até o vento as empurra para Lisboa, uma capital da indústria do futebol. Aquela que fez do futebol industrial um conceito hoje tão estranho, tão cufista"
Reportagem, autoria de Miguel Cardoso Pereira
Publicada no jornal desportivo "A Bola", 1 de Agosto de 2007