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sábado, 20 de fevereiro de 2010

Os Nomes de Alfredo da Silva e D. Manuel de Mello na toponimia de Cascais

Não é só em Lisboa e no Barreiro, que podemos ver os nomes de Alfredo da Silva e D. Manuel de Mello ligados á toponímia. Quem for para os lados de Cascais, mais concretamente ao Monte Estoril, verificará que existem duas ruas com os seus nomes. Não será deveras estranho se pensarmos que uma das 3 casas de Alfredo da Silva se situava precisamente nessa localidade, sobranceira à Estrada Marginal e com uma belíssima vista tanto para a Vila de Cascais, como para foz do Tejo.

Foi das primeira edificações modernas dos então chamado "Estoris". A Casa São Cristovão, do risco do arquitecto Tertuliano Marques, foi construída entre 1917 e 1920, com traços do barroco e do joanino, assume ainda hoje uma ideia de grandiosidade e imponência ao local. Esta residência iria ter um lugar primordial tanto na vida de Alfredo da Silva como para a família Mello.

Logo após ter sido terminada, os Mello fazem dela sua residência. Segundo Miguel Figueira de Faria "Manuel de Mello deslocava-se diariamente para o escritório da Rua do Comércio, usando sobretudo, o comboio como meio de transporte". Relembre-se que nesta casa irão nascer dois filhos do casal: Amélia de Mello (1922) e José Manuel de Mello (1927)

É pois natural que o Concelho de Cascais à época tivesse dedicado a tão ilustres e importantes personalidades da vida pública, nomes de rua em forma de homenagem.











Pormenor da Data da Conclusão do edifício na sua chaminé



sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Levantando Algumas questões sobre a CUF

Após a morte de José Manuel de Mello, li em diversos blogues, opiniões de muitas pessoas, e depreendi que há ainda hoje uma grande desinformação no que toca ao Grupo CUF. Sendo ainda hoje uma história que se encontra por escrever, este humilde blogue é apenas um pequeno contributo nesse sentido. Redigi pois um texto de forma a tentar esclarecer alguns desses pontos.

Uma questão central com a qual me deparei é precisamente a do "Monopolismo da CUF" e afirmações talvez feitas com alguma ingenuidade, de que "A CUF só foi aquilo que foi devido á politica industrial do Estado Novo". É preciso ter noção que quando a revolução de 28 de Maio de 1926 derrubou a Republica, dando anos depois lugar ao Estado Novo, a CUF era já a nível nacional, um grande grupo económico, presente em múltiplos sectores da vida económica: azeites, óleos alimentares, sabões, rações para animais, química (acido sulfúrico, acido clorídrico, sulfato de cobre, sulfato de sódio, etc), têxteis, navegação (Sociedade Geral de Comércio Industria e Transportes) a Banca (Casa bancária José Henriques Totta) e ainda negócios nas colónias (caso da Casa António da Silva Gouveia, criada em 1921, para a produção de oleaginosas, essenciais para o fabrico de óleos alimentares.).

Grupo tecnologicamente avançado para o País, bem como para as suas mentalidades quer fossem políticos, quer fossem industriais. O que quero eu dizer com isto? O projecto de Alfredo da Silva, não foi gizado apenas para o abastecimento e fornecimento ao país de produtos de que este carecia. Não terá sido pura coincidência que no seu périplo pelo estrangeiro, Alfredo da Silva se tivesse deparado com a figura de Auguste Lucien Stinville, um reputado Eng. Químico que ergueu pela Europa, complexos químicos. Após tornar-se amigo deste, o industrial, convida-o para erguer em terrenos recentemente comprados pela CUF no Barreiro, um moderno complexo químico, à semelhança dos que existiam um pouco pela Europa. Logo aqui nos apercebemos que a CUF não era uma empresa qualquer, pois se olharmos para 1908, observamos que o nosso tecido industrial é composto na sua grande maioria por pequenas fabricas, muitas desconhecendo modernos maquinismos e usando técnicas rudimentares. Contrastando com esta visão, aparecia a então União Fabril, (como era muitas vezes assim designada), quer fosse em termos tecnológicos (relembro que aquando da instalação das suas fábricas no Barreiro, estas já detinham tecnologia de ponta importada do estrangeiro) quer fosse já pelo admirável numero de trabalhadores, que nunca deixou de crescer até 1975.

Creio que ao longo dos tempos dirigentes políticos e governantes, nunca se tenham apercebido precisamente que a CUF, estava sempre um passo à frente quer em termos de mentalidades do país, quer em termos de realizações industriais. Fala-se muito na Lei do Condicionamento Industrial, surgida na década de 30, e afirma-se que a CUF viveu tranquila à sua sombra, mas não posso concordar com essa afirmação. Se é verdade que numa primeira fase a lei foi feita para reorganizar, alguns sectores industriais que se encontravam em grave crise (Caso do Sector Conserveiro, no qual nos anos 30 se assistiu a falências e ao fecho de várias unidades) esta mesma lei deixou de fazer todo o sentido no pós guerra, época na qual o país, deixa a sua politica de autarcia económica, e abre o país ao investimento estrangeiro. Em muitos sectores e em muito empresariado português assistimos a um imobilismo, que advém precisamente dessa Lei do Condicionamento Industrial. Porque é que sucedeu isso? A justificação é simples, nos sectores económicos sujeitos a esta lei, não era possível montar novos equipamentos ou a criação de novas empresas, sem a devida aprovação do Governo. Assim assistimos que em vários sectores, sem a existência de uma concorrência efectiva, não havia por parte do empresário, motivo para a renovação do seu parque industrial por outro mais moderno e tecnologicamente mais avançado. Sabendo que teria a suas vendas asseguradas sem novos investimentos, esse era o típico empresário que vivia à sombra da Lei do Condicionamento Industrial e do proteccionismo corporativo. O tecido industrial da CUF sempre contrastou com o que atrás foi dito, sendo constante a preocupação dos seus líderes, na implantação dos mais modernos maquinismos, e de novos processos de fabrico. Como se afirma num documentário feito a pouco tempo pela RTP sobre a CUF "causava impressão aos técnicos estrangeiros que nos anos 60 nos visitavam, o constrate da modernidade da empresa relativamente ao país". Não será por acaso que a empresa, exportava já parte da sua produção para inúmeros países do Mundo tais como: Coreia do Sul, Indonésia, Irão, Holanda, França, ou México, enquanto a maioria dos empresários se preocupava apenas com o mercado interno e respectivo ultramar. Aliás quando começam as guerras em África, serão os seus dirigentes dos primeiros a tentar convencer os governantes, que politica portuguesa tinha de evoluir. Através as publicações que assinavam, e das constantes visitas ao estrangeiros, rapidamente chegava a CUF o que de mais moderno havia lá por fora, e não só! Ainda hoje é pouco revelado que a empresa chegou a criar tecnologia 100% CUF (especialmente no que toca ao fabrico de ácido sulfúrico), é preciso frisar que tudo isto só foi possível, através de uma obra continuamente criada e apoiada pela empresa no sentido da constante formação dos seus quadros, surgindo aquilo que na época se chamou de uma "Escola da CUF". Desta escola, saíram economistas, engenheiros, e outros quadros técnicos de prestigio, alguns chegando mesmo a desempenhar funções governativas em sucessivos governos.
E será precisamente através desse "know-how" acumulado de décadas, que irá permitir a empresa, crescer, e expandir-se para os mais variados sectores da nossa economia.

A CUF foi das poucas empresas (se não a única em Portugal) a ter uma visão integrada da Industria. Quer isto dizer que a partir da casa mãe, foram surgindo empresas, conforme as necessidades do grupo, expandindo-se e diversificando-se para outros sub-sectores se assim o poderemos chamar. Quando a CUF se inicia na produção de adubos, Alfredo da Silva cedo se apercebe da necessidade de a empresa entrar na industria têxtil, dada a necessidade de sacaria em juta e linho para os adubos, comprando para isso em 1908 a Companhia de Tecidos Aliança e mais tarde a Fábrica do Rato em 1916, sendo os seus maquinismos sendo transferidos para o Barreiro, centro nevrálgico da companhia. Mas para se fazer o ácido sulfúrico, era necessária a pirite ou importar o fosfato do Norte de África, para tal surge em 1919 a Sociedade Geral de Comercio Industria e Transportes que se irá tornar numa das maiores companhias de navegação. Devido á necessidade de segurar os seus complexos industriais, e a sua companhia de navegação surge em 1942 a Companhia de Seguros Império. Como se pode ver no pensamento da empresa, para alem de valorizar e explorar as potencialidades de novas áreas para a empresa, esta criou de forma racional, negócios em cascata, que surgiram das necessidades de uma auto-suficiência da companhia. Para alem disso foi possivelmente a única empresa portuguesa, que tentou explorar ao máximo as riquezas do subsolo português, da qual possuímos uma das maiores reservas mundiais, falo da pirite. A chamada "Linha da Pirite" foi um projecto pensado por Alfredo da Silva e que se foi construindo ate ao fim da companhia. A partir da ustulação (queima) da pirite se fabricava o ácido sulfúrico, consequentemente desse processo resultavam cinzas, cinzas essas ricas em cobre, zinco, cobalto bem como o ouro e a prata, isto só para mencionar algumas. Mais uma vez numa óptica de integração surgiram no Barreiro unidades químicas de recuperação desses metais (Metalurgia do Cobre, Ouro e Prata, o TCP- Tratamento de Cinzas de Pirite, Fabrica de Oxido de Zinco etc). Inserindo-se nesta mesma politica, observe-se o interessante aproveitamento dos gases das suas unidades fabris, através de centrais a vapor, de forma a criar energia. E neste capitulo poderia-se ainda enumerar muito mais coisas.

Li ainda afirmações como esta de que "A CUF nunca poderia sobreviver ao 25 de Abril e a abertura económica do país". Achei de facto curiosa esta afirmação, sobre precisamente um dos poucos grupos económicos do país, que estava mais que preparado para a competição (tanto interna como internacionalmente) e se assim não fosse, tal como mencionei uns parágrafos acima, nos anos 50 e 60 já ela exportava em força para o estrangeiro. O seu binómio de qualidade/preço permitia-a colocar os seus adubos e outros produtos um pouco por todo o mundo a preços muito competitivos. Precisamente por ser tão tecnologicamente avançada no seu tempo, como uma BAYER, uma B.A.S.F., ou uma I.C.I., permitia-a rivalizar com reputadas marcas internacionais, com as quais alias chegou a constituir empresas, através de join-ventures.
Não nos podemos esquecer que será pela mão da CUF que a famosa consultor Mckinsey, veio ao nosso país, e esta tentou precisamente definir um programa de internacionalização da CUF por sectores. Será precisamente em plena época de internacionalização do Grupo, e que este mais necessitava de estabilidade económica, (até porque não podemos esquecer do choque petrolífero ocorrido em 1973 e que irá condicionar fortemente e economia e as actividades ligada ao ouro-negro.) surgiu a revolução de 25 de Abril de 1974, e o consequente processo das nacionalizações que puseram um travão e esse e aos vários projectos da empresa: A nova refinaria e o novo complexo químico-adubeiro de Sines, o estaleiro da Setenave, ou a FISIPE. Não tenho duvida de que se as coisas tivessem sido diferentes, e outra a transição para a democracia, hoje o Grupo CUF seria a primeira multinacional portuguesa. Em 1975 o Grupo CUF era um grupo económico tão complexo e evoluído que os governos de então tiveram de criar um decreto-lei exclusivo para a nacionalização da empresa, a partir da sua holding - a SOGEFI. Hoje em dia quando olho para empresas como a BAYER (Alemanha), a TATA (Índia), a Mitshubishi (Japão) ou a Hyunday (Coreia do Sul), enormes gigantes industriais, divididos em múltiplas divisões e empresas, olhamos precisamente para aquilo que foi no nosso país uma CUF. E se a titulo de exemplo a Huynday, contribuiu fortemente para a ascenção da Coreia a estatuto de economia desenvolvida, o mesmo se poderia ter passado em Portugal com a CUF.

P.S. - Haveria ainda muito para falar e relatar, mas para nao tornar o texto maçudo despeço-me por aqui.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

A Morte de um Capitão da Indústria - José Manuel de Mello 1927-2009

O País ficou hoje mais pobre. José Manuel de Mello, homem integro, faleceu aos 81 anos. Fecha-se um Ciclo. Hoje em Portugal temos muitos empresários, mas Industriais, esses temos já muito poucos, e José de Mello foi um desses homens, que conheceu a Industria Portuguesa por dentro. Homem da geração dos grandes complexos industriais, da química pesada, dos estaleiros navais, á navegação, juntamente como o seu irmão (Jorge de Mello) continuaram a dinâmica, herdada dos seus antecessores no então Grupo CUF, dando-lhe grande impulso e vitalidade até 1975, ano derradeiro da nacionalização do grupo. Homem de desafios, começou cedo a sua vida industrial, aos 21 anos, já estava em Chipre, a tratar das exportações dos produtos da CUF para o Médio-Oriente. Desde cedo é um apaixonado pelo mar, tendo como sonho fazer uma volta ao Mundo num veleiro, quando nos anos 60 os irmãos são chamados a ocupar, cargos de administração na empresa, José de Mello, inclina-se de imediato para a área da navegação. Percebendo as potencialidades que Portugal poderia ter na Construção e Reparação Naval, lança-se no projecto da Lisnave, que foi verdadeiramente o primeiro empreendimento nacional totalmente virado para o estrangeiro, atraindo capitais de Suecos, Noruegueses e Dinamarqueses, surgindo a CUF como testa de ponte. Certo é que apenas passados 2 anos da sua fundação, em 1969 a Lisnave, detinha 30% da reparação mundial de navios até 300 mil toneladas, um feito histórico, tornando Almada na maior estação de serviço de navios a nível mundial. Rapidamente o projecto tornou-se pequeno, anos depois, é a vez de se pensar num gigantesco estaleiro no estuário do Sado (SETENAVE) vocacionado para a construção de navios, que viria a ser inaugurado já muito perto do 25 de Abril e que nunca produziu a 100% devido aos tempos conturbados do PREC das lutas internas e dos Choques Petrolíferos. Também a Lisnave se expande, de forma a controlar as rotas do petróleo, depois da Margueira, surge, Bahrein, Jeddah, ou Curaçau, mas também aqui a revolução cortou os pés ao seu futuro promissor, e amargurado com os sucessivos governos, abandona a empresa no ano 2000. Outra das suas paixões era a Banca, promove em 1961 a fusão do Banco Totta, com o Banco Aliança do Porto, dando origem ao Totta-Aliança, para anos mais tarde (1970) criar o Banco Totta & Açores, através da fusão do Totta-Aliança, com o Lisboa & Açores, no pós 25 de abril, voltará a banca, através da criação do Banco Mello, e depois através do BCP.
Nas vésperas do 25 de Abril o Grupo CUF encontrava-se num amplo processo de internacionalização, e sendo ela o expoente máximo do capitalismo em Portugal, foi pois natural que os irmãos Mello fossem alvos de invejas e ódios, nas manifestações desses tempos conturbados chegaram a ouvir-se expressões como "Morram os Mellos". O seu irmão Jorge foi preso a 12 de Março de 1975 e levado para Caxias, onde passou uma semana, enquanto o império CUF era desmembrado a golpes de decreto-lei, através das nacionalizações. Nesse mesmo dia José de Mello dirigia-se ao aeroporto, para uma reunião da Lisnave a efectuar em Paris, não embarcou no avião, sendo retido pelos militares que o mandam para casa. Nesse período tenta ainda criar com mais alguns empresários o MDES (Movimento Dinamizador Empresa-Sociedade) que pretendia apresentar um programa de evolução económica em democracia. Na voragem das nacionalizações restou-lhe apenas 14% da Lisnave, com o apoio dos seus parceiros estrangeiros. Nos anos 80 com o fim das restrições á iniciativa privada José de Mello volta a reinvestir, compra a Sociedade Financeira Portuguesa, e transforma-a no Banco Mello, no inicio da década de 90 paga 25 milhões de contos por 50% da Seguradora Império. Uns anos depois, com o sucesso da OPA do BCP ao Banco Mello, passa a deter nesta instituição bancária uma participação de relevo. Entretanto o Grupo José de Mello expande-se para área como a Brisa, a Saúde (Hospitais e Clínicas CUF) EFACEC etc.

Termino com uma frase de José Manuel de Mello que diz muito do seu pensamento.

"Queremos marchar na senda do progresso e da constante elevação do nível de vida. Só assim os nossos filhos e as gerações futuras compreenderão a nossa acção, pois só assim seremos coerentes com o próprio desejo de trabalhar na dignificação da pessoa humana"

sábado, 22 de agosto de 2009

67º Aniversário da Morte de Alfredo da Silva

Faz exactamente no dia de hoje 67 anos que Alfredo da Silva deixou o mundo dos vivos. Homem como poucos existiram em Portugal, infelizmente é hoje uma figura desconhecida da maioria. Ha 67 anos atrás o país vivia a sombra da IIª Guerra Mundial, das longas filas dos racionamentos, problemas de abastecimentos aos quais a CUF também não escapou.
Contudo Alfredo da Silva, foi sempre um lutador e um vencedor, acreditou nas potencialidades da indústria portuguesa, e com a CUF tentou explorar ao máximo todas essas vertentes (lema que aliás se manteve com os seus sucessores até 1975). Homem enérgico, empreendedor e de pouca paciência, diziam que tentava andar mais depressa que o país, entrava dentro dos gabinetes dos Ministros, falava directamente com eles, tentando vencer com a maior celeridade a enorme máquina burocrática do país (ontem, tal como hoje...). Quando fechou os seus olhos não quis que as suas fábricas parassem, e não pararam, as suas buzinas e apitos ecoaram em uníssono, como ultima homenagem, ao homem criador do Barreiro Moderno. Quis repousar junto da sua obra que já não existe, e que foi o seu projecto de vida.
Alfredo da Silva tinha desaparecido, mas contudo a sua obra foi continuada, pelo génio do seu genro Manuel de Mello, e pelos seus netos Jorge e José de Mello. Continuaram a criar novas fontes de trabalho, a introduzir modernidade, nos maquinismos das fabricas, novas mentalidades, maior diversificação de negócios, tornando a CUF num motor de desenvolvimento tecnológico e económico único em Portugal.
Infelizmente o ser humano é capaz de destruir coisas maravilhosas e foi isso que aconteceu com a CUF, precisamente numa época em que esta se estava a afirmar perante o Mundo, a politica quando mal executada e pensada leva a erros estratégicos fatais e este foi um deles. Hoje o panorama português é bem diferente a braços com uma crise profunda, típica de um país que não sabe para onde vai e que já pouco produz. Hoje tal como no passado, governantes e industriais, deveriam saber qual a linha de rumo a seguir, e trabalharem de perto precisamente, para que se voltassem a criar novas fontes de trabalho e de riqueza nacional.
Num passado bem recente Portugal demonstrou ao Mundo, do que era capaz no campo industrial, em varias áreas (algumas ligadas ao universo CUF) chegou-se mesmo a criar tecnologia nacional. Não é só com os livros e com os outros países que podemos aprender, com a Historia podemos e devemos aprender, para podermos construir um futuro melhor.
Andam por aí uns senhores nos dias de hoje empenhados em criar choques tecnológicos, pois se calhar essas e muitas outras pessoas deste país desconhece que o Grupo CUF foi por si só um verdadeiro choque tecnológico, ao longo de toda a sua existência . Pena é que em Portugal a maioria das pessoas tenham memória curta.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Curiosidade: Convite da Lisnave para a Inauguração da Doca Alfredo da Silva

No dia 23 de Junho de 1971 era inaugurada com pompa e circunstância a Doca Alfredo da Silva, que era na época a maior Doca Seca do Mundo, com uma capacidade de docagem para navios até 1 milhão de toneladas. Na cerimonia estiveram presentes individualidades nacionais e estrangeiras ligadas ao mundo marítimo, o Chefe do Estado, sendo o anfitrião deste evento o Presidente da Lisnave, o Sr. José Manuel de Mello. Aqui vos deixo o convite, juntamente com o programa e também o cartão a quem este mesmo convite teria sido endereçado.



Capa do Convite






Programa




sábado, 6 de setembro de 2008

A CUF e o Barreiro, parte 2

Venho-vos apresentar a segunda parte de um estudo que ando a fazer e que é da máxima importância para se perceber o sentido de responsabilidade social que nessa época a CUF já detinha. Ao longo de décadas a empresa em muito auxiliou o Barreiro, fosse na criação de escolas, verbas para o novo Hospital ou ainda restauro de locais de culto ou ajudas diversas a colectividades (das quais eu já falei num post anterior). Pois bem vou agora apresentar mais 3 exemplos dos auxílios prestado pela CUF às gentes do Barreiro.


Externato Diocesano D. Manuel de Mello


Em 1957 por iniciativa de alguns chefes de família trabalhadores na CUF, e devido ao aumento muito significativo do número de educandos que pretendiam continuar o seus estudos liceais, decidiram deste modo criar um colégio-liceu. Ideia que logo de imediato foi acarinhada pela Administração da CUF sendo esta de imediato estudada. Após conseguida a autorização oficial, a CUF entra em contacto com o Patriarcado de Lisboa para o encargo e direcção deste estabelecimento, recebendo resposta positiva a esse pedido. A empresa cede para o efeito um terreno que detinha na Quinta dos Casquilhos (Alto de Paiva) para a realização da obra, orçada em cerca de 4000 contos. O autor do projecto foi o arquitecto Formosinho Sanches, sendo iniciada em 1961 a cargo da construtora A. Silva & Silva do Seixal, ficando ainda nesse ano concluídas as instalações mais essenciais. Este colégio tinha a capacidade inicial para 600 alunos. No ano lectivo de 1964/65 criou este estabelecimento de ensino uma secção de instrução primária. Em 1972 a CUF põe à disposição do Ensino Oficial as instalações do Externato para nelas funcionar no novo Ano Lectivo de 1973/74 parte do Liceu Nacional do Barreiro. Devido a estas mudanças ainda no ano de 1973 o Externato D. Manuel de Mello é transferido para a Praça Paulo VI com Jardim-de-infância e Ensino Primário onde ainda hoje permanece. Quanto ao antigo local na Quinta dos Casquilhos foi definitivamente ocupado pelo Liceu do Barreiro, tendo hoje a designação de Escola Secundária do Barreiro.


O Novo Hospital


Desde 1935 que se estudava a implantação de um hospital no Barreiro de forma a corresponder com o aumento populacional de um centro urbano que ganhava cada vez maior importância. Mas será só pela Lei nº 2011 de 2 de Abril de 1946 que promulgava as bases da Organização Hospitalar do País que se designou para o Barreiro um Hospital Sub-Regional que seria equipado com um total de 77 camas, das quais 13 ficariam reservados para os serviços infecto-contagiosos. Entre 1947 e 1951 foram elaborados pelos serviços camarários vários estudos de localização deste novo Hospital, escolhendo-se um terreno de 6000 metros quadrados, junto à Rua D. Manuel I no local conhecido por Baixa do Convento. Durante a sua construção, chegam á Misericórdia do Barreiro donativos de várias entidades entre os quais os oferecidos pela CUF pela mão de D. Manuel de Mello e de seus filhos Jorge e José Manuel de Mello. Por volta de 1955 o Hospital sofre uma importante reconstrução do projecto inicial, sendo assim introduzidos novos serviços, o Laboratório de Análises Clínicas, importando um custo de 63 mil escudos, assim como a Sala de Raio X cujo o custo se elevou a mais de 400 contos, só sendo possível a sua realização devido á importante dádiva de D. Manuel de Mello á Misericórdia desta localidade. O Hospital é inaugurado em 1959 com o nome da Padroeira do Barreiro (Nossa Senhora do Rosário). Em Fevereiro desse ano é inaugurado solenemente junto ao Hospital o Busto de D. Manuel de Mello, um dos seus grandes beneméritos, na cerimónia esteve presente a sua filha D. Maria Cristina da Silva José de Mello Champalimaud, bem como o então Ministro da Saúde Dr. Henrique Martins de Carvalho.




A Capela de Santo António da Santa Casa da Misericórdia


Em 1955 resolveu-se reconstruir este antigo lugar de culto, para tal o edifício foi reduzido as suas quatro paredes. Seguindo um rigoroso plano de reconstrução e restauro, rebocaram-se as suas paredes, foram-lhe colocados azulejos também eles restaurados. Mais uma vez a CUF não ficou de fora, sendo o tecto, portas e bancos desta renovada capela (madeira bem como a mão-de-obra, trabalho estimado em 200 contos) uma oferta da empresa á Santa Casa da Misericórdia. A reabertura deste local de culto sob a invocação de Santo António, levou á necessidade de adquirir uma imagem do Santo que se crê ser do séc. XVIII e que depois de devidamente restaurada foi oferecida por D. Manuel de Mello a esta capela.





Fontes:

  • "O Barreiro Contemporâneo - A grande e progressiva Vila Industrial" Armando da Silva Pais, Vol. 1º, 1965
  • Foto do Busto de D. Manuel de Mello tirada por Marco Valente



segunda-feira, 21 de abril de 2008

O Secretário de Estado da Indústria visita a SETENAVE


Como já foi dito noutros posts em 1972 o Grupo CUF começou a planear um novo e grandioso empreendimento na sector da Construção Naval, falamos dos Estaleiros Navais de Setúbal - SETENAVE. Nesta foto podemos ver o Eng. Rogério Martins (Secretário de Estado da Indústria desde 27 de Março de 1969) com o ponteiro na mão apontando para a fotografia. Aliás Rogério Martins não era estranho ao Grupo CUF sendo um antigo colaborador do mesmo, desempenhando um cargo directivo na Sociedade Geral de Comércio Indústria e Transportes, de 1966 a 1969. Saltando um senhor ao lado do Secretário de Estado, com o seu cabelo esbranquiçado e esboçando um sorriso no rosto, deparamo-nos com um alto quadro da Lisnave, Eng. João Farrajota Rocheta, um dos criadores e impulsionadores da Lisnave, sendo seu Director Técnico. Em seguida e virado para o Eng Rogério Martins, vemos Dr. José Manuel de Mello, Presidente do Conselho de Administração da SETENAVE que com certeza estaria a dar explicações sobre o projecto. Ao seu lado um pouco mais alto encontra-se o Eng. Perestrello de Vasconcellos sendo na época o Administrador- Delegado da Lisnave.

Toda a concepção deste grande projecto foi entregue a outra empresa do grupo, a Profabril, que nesta época ganhava cada vez mais fama a nível internacional. A foto que se vê por detrás deste grupo de pessoas é esta que coloco aqui, é um ante-projecto que demonstra a enormidade de tal projecto com base na planta da cidade de Lisboa.


Foto da Revista da Lisnave, 1972

sábado, 12 de abril de 2008

A CUF, o Algarve e o Turismo

Nos idos anos 60 portugueses e estrangeiros descobriam o Algarve, e o novo turismo de sol e mar. Contudo nos primeiros anos, foi parco o investimento no sector hoteleiro, relevando uma grande insuficiência, para um turismo em crescimento. O Grupo CUF atento a estes factores e procurando sempre novas oportunidades de negócio e novos sectores, aceita o desafio e cria em 1963 a SALVOR – Sociedade de Investimento Hoteleiro S.A.R.L. O seu objectivo era a construção de uma unidade hoteleira na Praia dos Três Irmãos situada no Alvor. Esta nova empresa, detinha um capital era 50 mil contos em 1966 passando para 100 mil contos no ano de 1969. Analisando o Relatório e Contas da SALVOR datado de 1966, pode-se observar que o custo estimado do novo Hotel Alvor Praia seria na ordem dos 120 mil contos, mas segundo uma publicação de 1969, o custo total do investimento teria mesmo chegado aos 200 mil contos. Este Hotel é oficialmente inaugurado em Janeiro de 1968


Este Hotel dispunha de 215 quartos e suites com ar condicionado, rádio, telefone e isolamento acústico, 2 restaurantes para 400 pessoas, bar, lojas, uma “boîte”, sauna, piscina com agua do mar aquecida, um mini campo de golfe amplos salões para conferências e congressos. O final do Relatório fecha com a seguinte afirmação “O Hotel Alvor Praia está preparado para garantir o mais alto grau de conforto e servir de modo adequado os interesses de uma corrente turística em expansão”. Ainda no ano de 1966 a SALVOR compra duas parcelas de terreno confinantes com o hotel num total de 9 hectares. Nesse ano tinha ainda sido feito o pedido de admissão dos títulos da SALVOR na Bolsa de Valores. Segundo a Revista Vida Mundial de Novembro de 1971 "A capacidade de planeamento e de gestão da SALVOR tornou possível que este hotel registasse índices de ocupação em constante e progressivo aumento de tal maneira que o da estação alta deste ano foi de 87,6%", mais a frente pode ler-se ainda "o Alvor-Praia adquiriu um prestígio que transpôs fronteiras e despertou as atenções das grandes empresas turísticas, tendo duas delas manifestado já interesse em inclui-lo nas cadeias de hotéis que exploram"

Conselho de Administração da SALVOR em 1966

- Francisco José Anjos Ribeiro Ferreira

- José Osório da Rocha e Mello

-Sérgio Casqueiro Geraldes Barba

- José Manuel da Silva José de Mello

- Hotal*



* HOTAL - Sociedade de Indústria Hoteleira do Sul de Portugal, também ela fundada em 1962 pelo Grupo CUF


Fontes:

  • SALVOR - Relatório e Contas de 1966
  • The CUF Group (CUF - Publicity Dept. 1969)
  • Revista Vida Mundial, nº 1692, 12-11-71

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

A Inauguração do Estaleiro da Margueira, 23 de Junho de 1967


Gostaria neste post de vos apresentar uma reportagem feita pela Revista de Informação Interna da Lisnave aquando da inauguração solene do seu novo Estaleiro da Margueira a 23 de Junho de 1967. Mais outro grande empreendimento do Grupo C.U.F., sendo também o primeiro grande investimento industrial nacional praticamente virado para o mercado externo. Este rapidamente obteve sucesso imediato, pois em 1969 a Lisnave reparava cerca de 30% da frota mundial de petroleiros. Contribuía fortemente para a economia do país com a sua fonte de divisas. E como a meu ver, não há nada melhor que ler uma reportagem feita por quem esteve presente e assistiu a cerimónia deste acontecimento, pois aqui vai ela.

“«… A construção de um novo estaleiro naval no estuário do Tejo, convenientemente dimensionado e equipado para poder reparar e construir navios de grande porte, nacionais e estrangeiros, tem constituído desejo permanente das entidades ligadas ao nosso meio marítimo e, de modo geral, aos responsáveis pelo desenvolvimento económico do País. Efectivamente, a necessidade do novo estaleiro de Lisboa encontra plena justificação não só em razões de ordem histórica, mas também, e de sobrado valor, em motivos de ordem económica».

Estas foram algumas das palavras proferidas, no dia 6 de Abril de 1964, pelo Presidente do Conselho de Administração da Lisnave, José Manuel de Mello, aquando do acto do início da construção no novo estaleiro da Margueira.

Por volta das 14 horas, já o vasto recinto – onde as bandeiras, as flâmulas e os pendões ondulavam suavemente, beijadas por um sol quente e aberto – apresentava o ambiente alegre e colorido das ocasiões festivas.
Começava chegando o caudal imenso das 7500 pessoas que se esperavam assistissem à cerimónia.
Na doca nº 12, o “Príncipe Perfeito”, enquadrava-se na panorâmica da festividade.

Cerca das 15:45 horas, quando tudo se encontrava a postos para o momento da inauguração oficial, deu entrada no recinto do estaleiro o Chefe do Estado que, junto do “Príncipe Perfeito”, recebeu os cumprimentos do Presidente do Conselho de Administração da Lisnave, José Manuel de Mello, Administrador Dr. Jorge de Mello e directores-gerais João Rocheta e Thorsten Andresson.
Dirigindo-se para a tribuna central e adiantando-se até junto do parapeito da doca principal, o Chefe do Estado descerrou uma lápida comemorativa da inauguração, na qual se lia o seguinte:

AOS 23 DE JUNHO DE 1967, SUA EXCELÊNCIA O SENHOR ALMIRANTE AMÉRICO DEUS RODRIGUES THOMAZ, PRESIDENTE DA RÉPUBLICA PORTUGUESA, INAUGUROU ESTE ESTALEIRO NAVAL, EMPREENDIMENTO NO QUAL SE CONGREGARAM HOMENS E CAPITAIS PORTUGUESES, HOLANDESES E SUECOS E CUJA COLABORAÇÃO E ESFORÇO SE DEVEM O PROJECTO E CONSTRUÇÃO DESTE ESTALEIRO, A PREVISÃO DO SEU FUTURO DESENVOLVIMENTO E A FORMAÇÃO DO SEU PESSOAL.

Nas tribunas que se alongavam a um lado e outro da doca nº 11 – a maior da Europa e uma das maiores do mundo – encontravam-se já o Cardeal Patriarca de Lisboa, Ministros, membros do Corpo Diplomático e outras altas individualidades, representantes de grandes companhias de Espanha, França, Bélgica, Holanda, Inglaterra, Dinamarca, Suécia, Noruega, Alemanha, Suiça, Mónaco, Malta, Japão e Estados Unidos e cerca de 5000 empregados e seus familiares.

Então premindo o comando automático a distancia, o Chefe do Estado fez funcionar as válvulas de enchimento da doca principal tendo sido, em seguida, pelo Cardeal Patriarca de Lisboa, lançada a bênção às novas instalações.

De seguida discursou o Presidente do Conselho de Administração da Lisnave, onde referiu aspectos históricos da obra, assim como aspectos técnicos. Final do seu discurso deixou um sincero agradecimento a todo o pessoal da Lisnave.

Discursou em seguida o titular da pasta de economia Dr. Correia de Oliveira, após o seu discurso o Chefe do Estado coadjuvado pelo Dr. Correia de Oliveira e José Manuel de Mello impôs, a várias individualidades suecas e holandesas ligadas à Lisnave e ainda a técnicos e operários que colaboraram no projecto e execução do novo estaleiro, as insígnias das condecorações com que decidiu agraciá-los.

Na cerimónia estiveram presentes à inauguração dos novos estaleiros, 19 jornalistas estrangeiros: - sete ingleses, três suecos, dois noruegueses, dois americanos, dois holandeses, um francês, um alemão e um grego.

Associando-se à inauguração do novo Estaleiro da Lisnave, os C.T.T. puseram em circulação, no passado dia 23 de Junho, uma série especial de quinze milhões de selos comemorativos do acontecimento.”

Fonte: Revista Interna da Lisnave, Junho de 1967