sábado, 15 de janeiro de 2011

Os Nomes das Ruas do Novo Bairro Operário da CUF e o seu significado

Hoje a nossa visita guiada, leva-nos até ao Bairro Operário da CUF, cuja sua parte mais recente (datando dos anos 30) ainda se encontra de pé, detendo actualmente poucos moradores, sendo que a maioria das casas estão hoje ocupadas por pequenos negócios e firmas.

Localizado dentro do Complexo Fabril da CUF, no antigo Alto de Santa Barbara no Barreiro, o Bairro Operário foi das primeiras preocupações da administração da Companhia, surgindo logo, aquando do arranque das primeiras fábricas em 1908. Destinado a parte do pessoal das instalações fabris, era composto maioritariamente de casas de piso térreo de formato igual, de grande simplicidade dando ao local um aspecto de continuidade e sequência arquitectónica. Continuidade apenas interrompida pelos "Chalets" do Director das Fábricas e para o pessoal superior, hoje já bastante alterados, da sua tipologia inicial. De forma a servir tal massa populacional, foram edificados vários serviços, tais como: balneário, dispensa, farmácia, posto médico, padaria, serviço de incêndios, escola primária, o Cinema Ginásio, e a sede da Liga de Instrução e Recreio CUF, mais tarde Grupo Desportivo da CUF.

Infelizmente a parcela mais antiga deste Bairro Operário (que se prolongava a sul para além da antiga sede do Grupo Desportivo da CUF) já desapareceu há muito, quer por exigência da modernização fabril, quer por exigências do tráfego rodoviário. Era nesse local, que se poderiam encontrar os nomes mais curiosos de ruas, ligadas aos produtos da CUF: Rua da Juta, Rua dos Óleos, Travessa da Pirite, Avenida dos Superfosfatos, e havia até, imagine-se uma Rua do Dinheiro, toponímia certamente já esquecida por muitos barreirenses. Apenas sobrou uma, a Rua do Ácido Sulfúrico que ainda persiste. Em jeito de homenagem a esses tempos idos, deixarei aqui a única foto que possuo dessa área já desaparecida do Bairro.

Mas voltemos ao nosso passeio. Quem andar por essas ruas, verificará, que a maioria dos nomes delas estão ligados a Homens da Química, por isso o que se, propõe neste post é um passeio por essas ruas e desvendar estas personalidades, que estiveram ligadas directa ou indirectamente à CUF. Esta visita é altamente fotográfica de forma a que todas as pessoas a possam acompanhar a par e passo todas as curiosidades e edifícios existentes no local.

De forma a uma melhor introdução do tema, a quem não conheça o local, fica aqui uma imagem do local visto do ar, juntamente com um mapa das ruas e os seus nomes. (Para aumentar basta clicar nas imagens)


Comecemos a nossa visita pela Rua da CUF, observe-se as pequenas casas rústicas de piso térreo, fachadas pintadas de cor amarela, e beirados de telha romana, esta é uma artéria bastante movimentada, fazendo a ligação entre a Rua Alfredo da Silva, e a Rua Nono de Abril no Bairro das Palmeiras. Facto curioso esta rua a meio do seu caminho desdobra-se noutra que segue para o interior do Bairro Operário da CUF. É por aí que vamos seguir. É nesta parte da Rua que se encontram alguns dos antigos edifícios sociais, tais como a padaria com as suas chaminés em tijolo burro, bem como a Moagem, que no seu telhado pode ser ainda hoje observada uma antiga estrutura em ferro, onde estava uma das várias sirenes das fábricas, que ecoavam por todo o Barreiro para chamar os empregados ao trabalho. Uns passos mais á frente, e olhando para o nosso lado esquerdo podemos apreciar a belíssima Torre do Relógio que é um dos marcos deste Bairro e da cidade do Barreiro, onde estava situada a central telefónica interna das fábricas da CUF. Data de 1928 a sua construção, o relógio é de origem francesa, a torre é completada com um magnifico registo de azulejo como poderão ver nas fotografias seguintes:



À esquerda em primeiro plano a padaria com as suas chaminés, mais abaixo a Moagem, e do lado direito a Torre do Relógio, observe-se o interessante pormenor da pequena placa em pedra a dizer: CUF

Pormenor da estrutura de uma das antigas sirenes das fábricas

Aqui está ela para quem a quiser ver mais de perto


Vista geral da Torre do Relógio do Bairro Operário


Pormenor do Relógio


Pormenor do registo de azulejo


Vamos continuar até ao final da Rua da CUF, deparamo-nos agora, com aquilo que hoje é o restaurante Palácio Alfredo da Silva, que nos tempos da CUF era a messe dos engenheiros e quadros superiores, logo de seguida podemos observar o antigo Cinema Ginásio da CUF, (hoje Casa da Cultura) e por fim o imponente Depósito de Água, que tinha a curiosidades de ter deposito de agua doce e agua salgada para as fábricas.

Pormenor da Rua da CUF


Antiga Messe dos Engenheiros


Cinema Ginásio (Casa da Cultura)


Depósito de Agua


Vista Geral da Rua da CUF


Em seguida viramos para a Rua Liebig um grande químico do séc. XIX cujas suas experiências permitiram o desenvolvimento dos fertilizantes, sabões, explosivos e alimentos desidratados. Professor foi também um impulsionador dos modernos laboratórios de Química. Rua essencialmente composta por casas da habitação, sendo que no seu final se encontra uma casa verde, que se encontra em estado de abandono, onde funcionou a Creche da CUF. Em tempos idos era ver de manhã cedo as crianças a chegar, e a dar alegria e cor aquela casa e ao bairro.


Placa Toponímica


Vista Geral da Rua Liebig


Antiga Creche da CUF 1


Antiga Creche da CUF 2


Antiga Creche da CUF 3


Continuamos agora pela Rua Lavoisier, o Pai da Química Moderna, nesta rua situavam-se as Moradias dos quadros superiores das Fábricas, estando hoje ocupadas maioritariamente por negócios ou pequenas empresas.

Placa Toponímica


Vista Geral da Rua Lavoisier


Outro Aspecto da mesma Rua


Ao fundo desta Rua, virando à nossa esquerda, entramos na Rua Gay-Lussac, químico francês que foi dos primeiros a formular a Lei dos Gases como poderão ler na sua mini-biografia. Ao fundo desta rua encontrava-se a antiga dispensa da CUF, hoje ocupada pela Papelaria Universal, esta rua vai ter a Rua da CUF.

Placa Toponímica


Vista Geral da Rua Gay-Lussac


Ao fundo a Papelaria Universal (antiga dispensa da CUF)


No local desta ultima fotografia viremos então á nossa esquerda, e entremos no coração do bairro, seguindo pela Rua Berthelot um dos mestres da Química Orgânica do sec. XIX. Como se pode ver todo o bairro tem uma continuidade arquitectónica típica deste género de construção.

Placa Toponímica

Vista Geral da Rua Berthelot

Um Aspecto 1

Um Aspecto 2


Percorramos agora a Rua Stinville, o Engenheiro Químico Francês escolhido por Alfredo da Silva, para construir de raíz no Barreiro, um complexo químico de dimensão europeia e com a mais moderna tecnologia da sua época. Nesta rua situavam-se do nosso lado direito a Escola Primária, actualmente ocupada por serviços camarários, e o Laboratório de Controle Analítico da CUF.

Placa Toponímica

Vista Geral da Rua Stinville

Outro Aspecto


A meio se virarmos á nossa esquerda, vamos dar á Rua Dalton, Químico e Físico Inglês, conhecido pela seus trabalhos na área atómica, bem como pelo daltonismo, mal do qual padecia e que estudou profundamente. Para quem não sai o daltonismo é a incapacidade de distinguir cores.

Placa Toponímica

Vista Geral da Rua Dalton

Terminamos a nossa visita mesmo no coração do Bairro, na Rua Lawes. Sir John Bennet Lawes (1814-1900) foi o criador dos Superfosfatos. Graças à sua parceria com o químico J. H. Gilbert fundaram uma quinta experimental em Rothamsted, as suas sucessivas experiências deram origem aos Superfosfatos e ao inicio desta industria. Por volta de 1889 ele irá fundar a "Lawes Agricultural Trust".

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

PORTUGAL # C.U.F. COMPANY 100 YEARS .wmv



Aqui vos deixo este interessante vídeo achado no Youtube, feito creio por António Rocha, a quem dou os parabéns pela iniciativa, sendo uma "rápida visita" fotográfica à historia e património da CUF. O vídeo foi baseado em imagens neste blogue e tem uma belíssima escolha em termos de banda sonora de uma banda alemã de seu nome Rammstein. Espero que gostem.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Peças decorativas da CNN

Nada melhor do que começar este novo ano, com um objecto de deveras original. Este interessante objecto decorativo da Companhia Nacional de Navegação, deve datar dos anos 60, e tem por medidas 13 cm de altura por 9 cm de largura. Neste belíssimo símbolo podem observar do vosso lado esquerdo a bandeira nacional, e do lado oposto a bandeira da CNN, bem como uma ancora e uma roda do leme sobreposta, este símbolo pode também ser visível a cores nos porta-chaves da empresa.




Curiosamente já detinha um pisa-papeis com a mesma decoração que aqui vos deixo, certamente faria conjunto com a peça anterior.



E este mesmo símbolo pode ser visto a cores, num interessante porta-chaves da CNN que retrata a longevidades da Companhia, quando esta ainda se chamava E.N.N. (Empresa Nacional de Navegação) ainda na época monárquica, e a sua passagem a CNN já na era republicana.


terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Votos de um Feliz Natal, e de um Prospero Ano Novo 2011

Aproxima-se mais uma época festiva, como tal, não poderia deixar de desejar a todos os meus leitores e amigos, votos de um Bom Natal e um Próspero Ano Novo, apesar das perspectivas não serem das melhores... É preciso olhar-se em frente, e continuar com determinação rumo ao Futuro.

E nada melhor para acompanhar estes meus votos do que um interessante cartão de Boas Festas da Biblioteca dos Operários e Empregados da Sociedade Geral:



Acompanhado de um pequeno envelope, ainda por escrever:


Esta Biblioteca foi fundada em 1947, fruto de uma ideia dos empregados e operários do Armazém B, interessados em constituir uma associação com fins culturais e educativos. Contudo será só em 1949 que esta associação é provida de Estatutos, de forma a poder integrar oficialmente, o então esquema corporativo, exigido pelo Estado. A sua sede ficava na Rua das Janelas Verdes.

São-nos ainda apresentados interessantes dados do funcionamento desta obra, no "Manual do Pessoal e da Empresa da Sociedade Geral" cuja publicação deve datar de 1967/68, podendo ler-se:

"A biblioteca da colectividade compõe-se actualmente de 3456 livros, abarcando os mais variados temas de literatura pura ou ciência.
Segundo dados colhidos, o seu movimento mensal anda à volta de 180 livros requisitados.
Todos os anos se valoriza o património com a compra de livros , cabendo à Direcção decidir a sua escolha; a esta preside um critério de equilíbrio tendo em conta os níveis intelectuais e as já conhecidas preferencias dos interessados.
A Biblioteca vive, no seu aspecto de receitas, da quotização obrigatória da massa associativa , actualmente de 478 sócios, e dos donativos ou outros rendimentos eventuais, que pelo seu carácter incerto não podem ser considerados no orçamento financeiro."

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Envelopes da CUF com franquias mecânicas

Aqui estão dois interessantes envelopes da Sede da CUF com as respectivas franquias mecânicas. De notar que no primeiro a Sede da empresa ainda se encontrava na Rua do Comércio, estando datado no carimbo a data de 17 de Junho de 1960. Como já aqui referi em post anterior a CUF vai mudar a sua sede para o nº 2 da Avenida Infante Santo em 1961, mudando também o visual dos seus envelopes estando este datado de 7 de Novembro de 1962.




quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A C.T.A. - Companhia de Transportes Aereos

Esta, é provavelmente uma das companhias menos conhecidas e faladas, que integrou o Grupo CUF, até pela sua singularidade. Quem é que afinal sabia que a CUF teve uma companhia de aviação? Arrisco a dizer que certamente serão poucas pessoas as que sabem tal facto, provando mais uma vez o pioneirismo da CUF em muitos sectores, até mesmo o da aviação. Pois bem, essa é a interessante e curiosa história que hoje aqui vos trago.

A 19 de Julho de 1945, a Sociedade Continental de Transportes Aéreos, é transformada na C.T.A. com o objectivo de explorar linhas aéreas no território nacional ou fora dele. Aquando da sua fundação o capital desta sociedade era de 5.000 contos, subscrito e divido pelos seguintes accionistas:

- Daun & Bleck, Limitada, 500.000$
- Carlos Eduardo Bleck, 250.000$
- D. José de Saldanha, 250.000$
- Manuel Augusto José de Mello, 300.000$
- Sociedade Geral de Comércio, Industria e Transportes Limitada, 2.000.000$
- José Inácio Castel-Branco, 100.000$
- Dr. Luiz Albuquerque de Sousa Lara, 300.000$
- Sousa Lara & Filhos Limitada, 500.000$
- Fernando Enes Ulrich, 100.000$
- Dr. António Garcês, 100.000$
- António de Sommer Champalimaud, 200.000$
- Dr. José de Sousa e Melo, 200.000$
- João Maria José de Mello, 100.000$
- Dr. Alvaro Belo Pereira, 100.000$

Como se pode ver pela lista atrás apresentada, vamos nela encontrar nomes sonantes da economia nacional, como António Champalimaud, a família Sousa Lara que detinha grandes investimentos no Ultramar, ou os Ulrich ligados a diversos interesses económicos. A maioria do Capital accionista (2.300.000$)é detida pela Sociedade Geral e Manuel de Mello, colocando assim esta Holding da CUF no comando desta nova empresa. Será no dia 2 de Dezembro de 1945 (4 meses após a constituição desta sociedade) era oficialmente inaugurada pelo Presidente da República Óscar Carmona e demais membros do Governo a carreira Lisboa-Porto-Lisboa. Apresenta nesse mesmo ano a filiação na I.A.T.A. (International Air Transport Association, que ainda hoje é a mais alta autoridade internacional do transporte aéreo) sendo esta aceite.

A sua frota era constituída por um Percival Proctor, e por três bimotores DeHavilland DH-89 cujas matriculas eram as seguintes: CS-ADI, CS-ADJ e CS-ADK, todos adquiridos na Inglaterra. Posteriormente um destes bimotores foi adquirido pela Aeronáutica Militar em 1950, podendo ser vista hoje no Museu do Ar em Sintra. Mais tarde são ainda adquiridos à Força Área dos Estados Unidos dois Douglas C-47A (CS-TDX e CS-TDZ) sendo a sua adaptação aviação civil sido feita por pessoal das Oficinas Metalomecânicas da CUF. A C.T.A. vai construir toda uma infra-estrutura de apoio as suas rotas aéreas, para isso constrói hangares privativos nos Aeroportos de Lisboa e Porto, com oficinas , armazéns, operações de voo, equipamento de rádio, salas de pessoal navegante, cantinas etc. Por essa altura o pessoal ao serviço da C.T.A. deveria de rondar o numero de 70 pessoas, numero que teria tendências a subir com a expansão da Companhia. Havia já planos de expansão delineados por fases, em 1946 o objectivo seria inaugurar uma carreira Lisboa-Madrid com um serviço diário, pedindo autorização para tal ao Governo, sendo esta recusada, ficando outros projectos na gaveta, como as Linhas Internacionais no Continente Europeu, e obviamente aquilo que então se designava pelas Linhas Imperiais de modo de ligar a Metrópole com as principais cidades do seu Ultramar. Para essa expansão tinha já a C.T.A. pensado adquirir 4 Douglas DC-4 "Skymaster" e também Douglas DC-6 aviões já de grande capacidade e com maior alcance aéreo.

Podemos dizer que à C.T.A. de certa maneira foram cortadas as pernas. Devido à politica do Governo, e de homens como o sobejamente conhecido Secretário da Aeronáutica Civil Humberto Delgado, preferiu-se reorganizar o Transporte Aéreo em Portugal, chamando as Autoridades tais responsabilidades, preferindo deixar cair a C.T.A. (talvez por esta estar nas mãos de privados) e criar assim os Transportes Aéreos Portugueses (T.A.P.) cuja metade do capital accionista estava nas mãos do Estado sendo o restante subscrito por privados. A linha Lisboa-Porto-Lisboa é suspensa em 1947, e a C.T.A. seria liquidada definitivamente em 1949.

E desta efémera e interessante história falta apresentar um interessante e raro lote de documentos respeitantes a esta empresa, isto porque uma tal Madame Silva (que é como está escrito no bilhete) que na epoca tinha 23 anos, guardou tais documentos, talvez como recordação, e assim chegaram ás minhas mãos, sendo um testemunho da breve história da C.T.A. Para ver em detalhe basta clicar nas imagens para ver em tamanho ampliado.


A Capa do Mapa com a Viagem a ser efectuada pelo avião

Contracapa do Mapa

Mapa da Viagem

Capa do Bilhete

Talões do Bilhete

Custo do Bilhete (303 escudos em 1946)

Talão de Bagagem (frente)

Talão de Bagagem (verso)

Esta senhora que viajou para o Porto, fez um Seguro Pessoal de Transportes Aéreos, e qual seria a companhia? Só podia ser a Império claro! Sendo também ela pioneira neste tipo de seguros, o custo do mesmo já com todas as despesas incluídas era de 20 escudos. Aqui fica o envelope enviado pela C.T.A. com a respectiva apólice e o cartão de cumprimentos da seguradora



Apólice (frente)

Apólice (verso)

Cartão de Cumprimentos

Bibliografia:

- Estatutos da C.T.A.
- Relatórios de Contas da C.T.A.
- Boletim da C.T.A. (1946)
- Historia da Aviação Civil em Portugal