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sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Postal da Fábrica da Tinco nas Fábricas do Barreiro



A TINCO - Sociedade Fabril de Tintas de Construção é mais um bom exemplo de uma área nova para a qual o Grupo se expandiu, por necessidade própria. As palavras de Jorge de Mello ilustram bem, como essa ideia terá surgido:

 "... numa viagem que estava a fazer a Angola, vi chegar o Andulo, um navio da Sociedade Geral. Pelo seu aspecto, pareceu-me que precisava de pintura, mas o comandante do navio informou-me de que o navio tinha saído do estaleiro onde fora pintado. Era óbvio que alguma coisa de errado havia com as tintas. Mas partir para a decisão e construir uma fábrica de raiz não se justificaria se não houvesse um mercado suficiente para sustentar esse investimento, um mercado que tivesse a mesma necessidade de tintas especializadas como as que se aplicavam nos navios. O nosso problema era ter um produto de qualidade. Mas já que a decisão estava tomada, era natural que também se procurasse tornar a actividade lucrativa. A constituição da Tinco, que depois se designou por Sotinco, em associação tecnológica com a ICI, avançou com mais segurança quando se confirmou que outras empresas também estavam interessadas em tintas de maior qualidade do que as que existiam no mercado português, designadamente no caso da SACOR, que precisava de boas tintas para a pintura dos seus depósitos de combustível."  

Constituída em 1958, a sua fabrica ficaria situada dentro do Complexo das Fábricas do Barreiro da CUF a sul da Oficina de Metalomecânica e da Caldeiraria. A sua actividade principal era o fabrico de tintas e vernizes, tendo de imediato uma grande aceitação nos mercados industriais e de construção civil, possuindo crescimentos situados em média nos 10% ao ano ao longo da década de 60 e inícios de 70. O inicio desta nova década manteve-se promissora para a empresa que logo irá gizar um novo plano de investimentos entre os anos de 1972-76, de forma quer a aumentar o dobro de capacidade da sua linha fabril, quer na diversificação de produtos. No seguimento dessa politica é constituída a 8 de Outubro de 1973 uma trading company designada por Jotum-Tinco - Tintas Marítimas Lda. destinada a cobrir todas as actividades comerciais da Jotun-gruppen e da nova empresa, no mercado de tintas marítimas. Em 1974 a Tinco irá lançar com grande sucesso, um conjunto de primários da sua marca. Nos dias de hoje a Sotinco continua a ser uma referencia no mercado de tintas, estando de pedra e cal no nosso mercado nacional.

Quanto a este postal, tenho em primeiro lugar de agradecer ao meu grande amigo Norberto Santos que teve a gentileza de mo oferecer. A foto é da autoria de Horácio de Novais que em 1962 foi ate ás Fábricas do Barreiro tirar algumas fotos para efeitos publicitários da empresa que nesse ano editou um conjunto de postais ilustrativos da actividade fabril daquele local. Na foto ao fundo é visível a chaminé fumegante do Tratamento de Cinzas de Pirite.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Levantando Algumas questões sobre a CUF

Após a morte de José Manuel de Mello, li em diversos blogues, opiniões de muitas pessoas, e depreendi que há ainda hoje uma grande desinformação no que toca ao Grupo CUF. Sendo ainda hoje uma história que se encontra por escrever, este humilde blogue é apenas um pequeno contributo nesse sentido. Redigi pois um texto de forma a tentar esclarecer alguns desses pontos.

Uma questão central com a qual me deparei é precisamente a do "Monopolismo da CUF" e afirmações talvez feitas com alguma ingenuidade, de que "A CUF só foi aquilo que foi devido á politica industrial do Estado Novo". É preciso ter noção que quando a revolução de 28 de Maio de 1926 derrubou a Republica, dando anos depois lugar ao Estado Novo, a CUF era já a nível nacional, um grande grupo económico, presente em múltiplos sectores da vida económica: azeites, óleos alimentares, sabões, rações para animais, química (acido sulfúrico, acido clorídrico, sulfato de cobre, sulfato de sódio, etc), têxteis, navegação (Sociedade Geral de Comércio Industria e Transportes) a Banca (Casa bancária José Henriques Totta) e ainda negócios nas colónias (caso da Casa António da Silva Gouveia, criada em 1921, para a produção de oleaginosas, essenciais para o fabrico de óleos alimentares.).

Grupo tecnologicamente avançado para o País, bem como para as suas mentalidades quer fossem políticos, quer fossem industriais. O que quero eu dizer com isto? O projecto de Alfredo da Silva, não foi gizado apenas para o abastecimento e fornecimento ao país de produtos de que este carecia. Não terá sido pura coincidência que no seu périplo pelo estrangeiro, Alfredo da Silva se tivesse deparado com a figura de Auguste Lucien Stinville, um reputado Eng. Químico que ergueu pela Europa, complexos químicos. Após tornar-se amigo deste, o industrial, convida-o para erguer em terrenos recentemente comprados pela CUF no Barreiro, um moderno complexo químico, à semelhança dos que existiam um pouco pela Europa. Logo aqui nos apercebemos que a CUF não era uma empresa qualquer, pois se olharmos para 1908, observamos que o nosso tecido industrial é composto na sua grande maioria por pequenas fabricas, muitas desconhecendo modernos maquinismos e usando técnicas rudimentares. Contrastando com esta visão, aparecia a então União Fabril, (como era muitas vezes assim designada), quer fosse em termos tecnológicos (relembro que aquando da instalação das suas fábricas no Barreiro, estas já detinham tecnologia de ponta importada do estrangeiro) quer fosse já pelo admirável numero de trabalhadores, que nunca deixou de crescer até 1975.

Creio que ao longo dos tempos dirigentes políticos e governantes, nunca se tenham apercebido precisamente que a CUF, estava sempre um passo à frente quer em termos de mentalidades do país, quer em termos de realizações industriais. Fala-se muito na Lei do Condicionamento Industrial, surgida na década de 30, e afirma-se que a CUF viveu tranquila à sua sombra, mas não posso concordar com essa afirmação. Se é verdade que numa primeira fase a lei foi feita para reorganizar, alguns sectores industriais que se encontravam em grave crise (Caso do Sector Conserveiro, no qual nos anos 30 se assistiu a falências e ao fecho de várias unidades) esta mesma lei deixou de fazer todo o sentido no pós guerra, época na qual o país, deixa a sua politica de autarcia económica, e abre o país ao investimento estrangeiro. Em muitos sectores e em muito empresariado português assistimos a um imobilismo, que advém precisamente dessa Lei do Condicionamento Industrial. Porque é que sucedeu isso? A justificação é simples, nos sectores económicos sujeitos a esta lei, não era possível montar novos equipamentos ou a criação de novas empresas, sem a devida aprovação do Governo. Assim assistimos que em vários sectores, sem a existência de uma concorrência efectiva, não havia por parte do empresário, motivo para a renovação do seu parque industrial por outro mais moderno e tecnologicamente mais avançado. Sabendo que teria a suas vendas asseguradas sem novos investimentos, esse era o típico empresário que vivia à sombra da Lei do Condicionamento Industrial e do proteccionismo corporativo. O tecido industrial da CUF sempre contrastou com o que atrás foi dito, sendo constante a preocupação dos seus líderes, na implantação dos mais modernos maquinismos, e de novos processos de fabrico. Como se afirma num documentário feito a pouco tempo pela RTP sobre a CUF "causava impressão aos técnicos estrangeiros que nos anos 60 nos visitavam, o constrate da modernidade da empresa relativamente ao país". Não será por acaso que a empresa, exportava já parte da sua produção para inúmeros países do Mundo tais como: Coreia do Sul, Indonésia, Irão, Holanda, França, ou México, enquanto a maioria dos empresários se preocupava apenas com o mercado interno e respectivo ultramar. Aliás quando começam as guerras em África, serão os seus dirigentes dos primeiros a tentar convencer os governantes, que politica portuguesa tinha de evoluir. Através as publicações que assinavam, e das constantes visitas ao estrangeiros, rapidamente chegava a CUF o que de mais moderno havia lá por fora, e não só! Ainda hoje é pouco revelado que a empresa chegou a criar tecnologia 100% CUF (especialmente no que toca ao fabrico de ácido sulfúrico), é preciso frisar que tudo isto só foi possível, através de uma obra continuamente criada e apoiada pela empresa no sentido da constante formação dos seus quadros, surgindo aquilo que na época se chamou de uma "Escola da CUF". Desta escola, saíram economistas, engenheiros, e outros quadros técnicos de prestigio, alguns chegando mesmo a desempenhar funções governativas em sucessivos governos.
E será precisamente através desse "know-how" acumulado de décadas, que irá permitir a empresa, crescer, e expandir-se para os mais variados sectores da nossa economia.

A CUF foi das poucas empresas (se não a única em Portugal) a ter uma visão integrada da Industria. Quer isto dizer que a partir da casa mãe, foram surgindo empresas, conforme as necessidades do grupo, expandindo-se e diversificando-se para outros sub-sectores se assim o poderemos chamar. Quando a CUF se inicia na produção de adubos, Alfredo da Silva cedo se apercebe da necessidade de a empresa entrar na industria têxtil, dada a necessidade de sacaria em juta e linho para os adubos, comprando para isso em 1908 a Companhia de Tecidos Aliança e mais tarde a Fábrica do Rato em 1916, sendo os seus maquinismos sendo transferidos para o Barreiro, centro nevrálgico da companhia. Mas para se fazer o ácido sulfúrico, era necessária a pirite ou importar o fosfato do Norte de África, para tal surge em 1919 a Sociedade Geral de Comercio Industria e Transportes que se irá tornar numa das maiores companhias de navegação. Devido á necessidade de segurar os seus complexos industriais, e a sua companhia de navegação surge em 1942 a Companhia de Seguros Império. Como se pode ver no pensamento da empresa, para alem de valorizar e explorar as potencialidades de novas áreas para a empresa, esta criou de forma racional, negócios em cascata, que surgiram das necessidades de uma auto-suficiência da companhia. Para alem disso foi possivelmente a única empresa portuguesa, que tentou explorar ao máximo as riquezas do subsolo português, da qual possuímos uma das maiores reservas mundiais, falo da pirite. A chamada "Linha da Pirite" foi um projecto pensado por Alfredo da Silva e que se foi construindo ate ao fim da companhia. A partir da ustulação (queima) da pirite se fabricava o ácido sulfúrico, consequentemente desse processo resultavam cinzas, cinzas essas ricas em cobre, zinco, cobalto bem como o ouro e a prata, isto só para mencionar algumas. Mais uma vez numa óptica de integração surgiram no Barreiro unidades químicas de recuperação desses metais (Metalurgia do Cobre, Ouro e Prata, o TCP- Tratamento de Cinzas de Pirite, Fabrica de Oxido de Zinco etc). Inserindo-se nesta mesma politica, observe-se o interessante aproveitamento dos gases das suas unidades fabris, através de centrais a vapor, de forma a criar energia. E neste capitulo poderia-se ainda enumerar muito mais coisas.

Li ainda afirmações como esta de que "A CUF nunca poderia sobreviver ao 25 de Abril e a abertura económica do país". Achei de facto curiosa esta afirmação, sobre precisamente um dos poucos grupos económicos do país, que estava mais que preparado para a competição (tanto interna como internacionalmente) e se assim não fosse, tal como mencionei uns parágrafos acima, nos anos 50 e 60 já ela exportava em força para o estrangeiro. O seu binómio de qualidade/preço permitia-a colocar os seus adubos e outros produtos um pouco por todo o mundo a preços muito competitivos. Precisamente por ser tão tecnologicamente avançada no seu tempo, como uma BAYER, uma B.A.S.F., ou uma I.C.I., permitia-a rivalizar com reputadas marcas internacionais, com as quais alias chegou a constituir empresas, através de join-ventures.
Não nos podemos esquecer que será pela mão da CUF que a famosa consultor Mckinsey, veio ao nosso país, e esta tentou precisamente definir um programa de internacionalização da CUF por sectores. Será precisamente em plena época de internacionalização do Grupo, e que este mais necessitava de estabilidade económica, (até porque não podemos esquecer do choque petrolífero ocorrido em 1973 e que irá condicionar fortemente e economia e as actividades ligada ao ouro-negro.) surgiu a revolução de 25 de Abril de 1974, e o consequente processo das nacionalizações que puseram um travão e esse e aos vários projectos da empresa: A nova refinaria e o novo complexo químico-adubeiro de Sines, o estaleiro da Setenave, ou a FISIPE. Não tenho duvida de que se as coisas tivessem sido diferentes, e outra a transição para a democracia, hoje o Grupo CUF seria a primeira multinacional portuguesa. Em 1975 o Grupo CUF era um grupo económico tão complexo e evoluído que os governos de então tiveram de criar um decreto-lei exclusivo para a nacionalização da empresa, a partir da sua holding - a SOGEFI. Hoje em dia quando olho para empresas como a BAYER (Alemanha), a TATA (Índia), a Mitshubishi (Japão) ou a Hyunday (Coreia do Sul), enormes gigantes industriais, divididos em múltiplas divisões e empresas, olhamos precisamente para aquilo que foi no nosso país uma CUF. E se a titulo de exemplo a Huynday, contribuiu fortemente para a ascenção da Coreia a estatuto de economia desenvolvida, o mesmo se poderia ter passado em Portugal com a CUF.

P.S. - Haveria ainda muito para falar e relatar, mas para nao tornar o texto maçudo despeço-me por aqui.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

A C.U.F. e a Siderurgia Nacional

A Siderurgia Nacional foi inaugurada a 24 de Agosto de 1961, grandioso projecto integrado numa política governamental de Substituição de Importações, foi motivo de orgulho á época. Esta grandiosa obra com o cunho de António Champalimaud, homem dos cimentos e da banca ao qual se juntou o Aço, permitia uma produção em 1961 de 230.000 toneladas de gusa, 140.000 de escória, usadas em aplicações como balastro de estradas, construção civil, fabrico de “clinker” (cimentos). Na área da Aciaria, a produção anual era de 300.000 de aço bruto, e na Laminagem, onde era transformado o aço, produzia-se 150.000 toneladas de aço para betão, chapas de aço para várias utilizações e perfis de carris para a CP.

Também o Grupo C.U.F. contribuiu para este novo empreendimento, foi a Navalis (sociedade de construção e reparação naval S.A.R.L.) que procedeu á construção da chaminé da central térmica da Siderurgia. Também devido ao novo empreendimento a Direcção Técnica da C.U.F. nas Fábricas do Barreiro decidiram dar uso as cinzas de pirite, sendo estas um subproduto do fabrico de ácido sulfúrico. Estas acumulavam-se em grandes quantidades no complexo industrial, não havendo até a data uso possível para as mesmas. Com o surgimento da Siderurgia Nacional, e num esquema determinado por uma politica governamental para a utilização de matérias primas nacionais, a C.U.F. instalou no Barreiro, uma Unidade de Tratamento de Cinzas de Pirite, onde depois de tratadas essas mesmas Cinzas eram depois vendidas á Siderurgia Nacional. Eram transportadas por barcaças do Barreiro até ao cais privativo da Siderurgia Nacional em Paio Pires, sendo depois usadas como matéria-prima. A C.U.F. vendia cerca de 170.000 toneladas anuais deste produto à Siderurgia, contribuindo mais uma vez para a indústria nacional.