Como o tempo passa! Há 10 anos atrás escrevi pela primeira vez neste blogue alguns apontamentos sobre o Banco Totta Standard de Angola, e hoje decidi que é tempo de voltar à carga nessa temática. Para quem como eu andava sempre a passar a vista pelos jornais é pois natural que se sempre encontre novidades e curiosidades. Há pouco tempo deparei-me com a apresentação do novo simbolo deste banco e pensei logo "olha! isto dava um "post" bem engraçado no meu blogue!". O problema é que esses anuncios foram retirados de microfilmes cuja imagem não estava no melhor estado pelo que tive de fazer o seu restauro o que ainda me levou algum tempo, mas podem crer que foi feito com muito gosto.
Angola - Baía de Luanda
Até meados dos anos 50, apesar das vastas possibilidades em multiplos sectores económicos, o sistema bancário angolano, contava apenas com o Banco de Angola criado em 1926 e que detinha também as funções de banco emissor. Esse paradigna só iria mudar com a lei nº 2061 de 9 de Maio de 1953 que veio reformar o sistema bancário no ultramar, estabelecendo bases mais adequadas à autorização e funcionamento de bancos no Ultramar. Refra-se que esta reforma, estava inserida nas novas linhas de planificação económica (Os chamados Planos de Fomento) adoptadas por forma a estimular os diversos sectores da vida nacional (industria, transportes, obras publicas, ultramar etc.). O banqueiro Cupertino de Miranda, criador do Banco Português do Atlântico foi o primeiro a perceber as inúmeras possibilidades que a então florescente economia angolana lhe poderia oferecer e assim em 1955 fundou o Banco Comercial de Angola. Nos anos 60 apesar do deflagrar da guerra, a economia Angola não esmoreceu, mostrando sinais de grande vitalidade e de expansão continuando a interessar os grupos económicos nacionais. Como consequência desse facto surge em 1965 o Banco de Crédito Comercial e Industrial (sob a égide do Banco Borges e Irmão). No ano seguinte foi a vez do Grupo CUF se interessar por este sector, o que levou o Banco Totta-Aliança a fazer uma joint-venture com o Standard Bank of South Africa surgindo assim o Banco Totta Standard de Angola e o Standard Totta de Moçambique. Seguidamente foram fundadas outras instutuições bancárias como o Banco Pinto & Sotto Mayor de Angola em 1967 ou o Banco Inter-unido fundado em 1973 cujos os capitais perticiam à familia Espirito Santo.
Após esta breve introdução ao sistema bancário angolano, foque-mo-nos no logótipo do Banco Totta Standard de Angola conforme se poderá ver nas digitalizaçoes e anuncios em anexo. O Simbolo em forma de escudo de côr castanha com as letras TS a branco e o nome do banco por extenso em letra preta. Este logótipo acompanhou o crescimento e a expansão do Banco tendo sido completamente reformulado em Janeiro de 1974.
Primeiro Logótipo do Banco Totta Standard de Angola
Anuncio de Agosto de 1966
Anuncio de 1973
Entre Janeiro e Fevereiro de 1974, o Banco Totta Standard de Angola, elabora uma intensa campanha publicitária (curiosamente elaborada por outra empresa pertencente ao Grupo CUF: a Penta Publicidade) nos meios de comunicação social do território nomeadamente na A Provincia de Angola no Diário de Luanda, Revista Noticia etc. Ao longo dos mês de Janeiro e em foi sendo desvendado o novo simbolo em forma de "teaser". Não sei se nesta época era já comum fazer-se anúncios deste género, mas de facto encontro neles alguma comparação aos anúncios do mesmo género que se fazem na actualidade. Até posso estar a dizer uma barbaridade e se de facto o estou, agradeço que me corrijam.
O novo logótipo detém um design e um letering moderno tipicamente anos 70. O símbolo passa a ser em forma de circulo com as letras TS a branco e fundo azul claro. Como é dito num dos anuncios o Banco "já não cabia no seu antigo simbolo e por isso criaram um simbolo novo mais voltado o futuro" que pretendia ser a sua imagem de marca para os próximos anos. Refira-se que à época a economia angolana estava numa fase de crescimento sem precedentes. No periodo de 1960 a 1973 apresentava taxas de crescimento anuais de 7% ao ano, sendo que no inicio da década de 70 a industria representava 41% do PIB. À epoca o Banco Totta Standard de Angola contava com 54 agencias espalhadas por todo o território (registe-se que só em 1973 tinham sido abertas novas 14 agencias bancarias) o que demonstrava a plena confiança que esta instituição tinha no futuro da economia angolana.
Em Abril de 1968, a Cidade Invicta organizou uma Exposição Distrital de filatelia que ficou conhecida como «Porto - 68». Aproveitando muito possivelmente os ecos dessa grande mostra, resolveu o Grupo Desportivo do Banco Totta-Alliança elaborar o seu 1º Salão de Divulgação Filatélica, que ocorreu na sua sede localizada no nº 41 - 5º andar da Avenida dos Aliados.
Medalha Comemorativa
Segundo o Jornal de Noticias de
30 de Abril de 1968 "trata-se de uma iniciativa que visa demonstrar pela
imagem os vários motivos e aspectos que enforma a filtelia desde a sua forma
clássica até à apresentação de uma temática própriamente dita, passando pelo
colecionismo de postais máximos, subescritos de primeiro dia e franquias
mecânicas."
Subscrito comemorativo da exposição
A exposição esteve patente ao público entre 3 e 8 de Maio de 1968, à qual acorreu grande número de filatelistas. Este certame contou com o apoio de diversas entidades: Ministério do Ultramar, C.T.T., F.N.A.T, S.N.I., Clube Internacional de Filatelia e o Sindicato dos Empregados Bancários. Para saber mais curiosidades sobre o certame basta ler as noticias em anexo.
Uma das obras sociais que nunca faltou na maioria das empresas do Grupo CUF foi a criação de bibliotecas para os seus empregados/operários, apostando num desenvolvimento pessoal cultural e recreativo do individuo.
Aqui vos deixo um interessante Catalogo da Biblioteca do Grupo Desportivo dos Empregados do Banco Totta-Aliança datado de 1964. O seu conteúdo foi batido à maquina, possuindo um total de 19 folhas nas quais de podem encontrar cerca de 900 títulos, que se encontram organizados por secções como: Obras Gerais, Religião, Sociologia, Ciências Puras, Ciências Aplicadas, Belas-Artes, Literatura Americana, Inglesa, Francesa, Portuguesa, etc.
O Banco Totta-Aliança surge da fusão da Casa Bancária José Henriques Totta (adquirida pela CUF em 1921) com o Banco Aliança do Porto em 1961, que por sua vez veio mais tarde veio a dar origem ao Banco Totta & Açores, mas a seu tempo escreverei sobre tal assunto no meu blogue. Hoje o meu propósito é apenas de mostrar um interessante cinzeiro do respectivo Banco, que como se pode observar é bastante original, sendo a imitação de um cheque, sendo uma belíssima peça da Vista Alegre.
Como é do conhecimento geral, Portugal, tem uma longa tradição na industria de conservas alimentares, especialmente no que se refere às conservas de peixe. País de vocação marítima, com uma larga costa, e possuindo uma larga frota pesqueira, teve como consequência natural, o investimento no sector conserveiro. As nossas conservas de peixe, eram reconhecidas a nível internacional, cujas exportações tinham grande impacto na nossa balança comercial.*
Numa nova óptica de industrialização, surgirá nos anos 30, as primeiras fábricas de processamento de conservas alimentares de frutos. O objectivo num pais como Portugal (até aí essencialmente agrícola), era o de promover uma interligação entre a agricultura e a industria, valorizando os recursos nacionais. Na sua maioria eram unidades industriais pequenas e pouco apetrechadas tecnologicamente. Talvez o facto mais curioso, terá sido o de que com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, e a consequente, reconversão ou destruição das industrias dos países envolvidos na Guerra, levaram os industriais portugueses a exportar o concentrado de tomate para diversos países, fazendo-o com grande sucesso, e ganhando bons dividendos. Esta nova realidade teve como consequência um "boom" deste tipo de unidades fabris, contudo a recuperação das unidades industriais por parte dos países tradicionalmente produtores deste tipo de produtos (casos da Itália, França e Hungria) bem como a exigência dos consumidores desses mercados ditou o fim da aventura exportadora e o desaparecimento de grande parte dessas unidades em finais dos anos 40, levando a uma reestruturação do sector.
Com a introdução de campos de ensaio, escolha e experimentação das variedades de tomate que melhor se adaptassem ao clima e solo português, a montagem de serviços de assistência e a introdução de métodos mecânicos na cultura do tomate, abriram-se novas perspectivas no sector. Deu-se então um ponto de viragem, com o aumento da produtividade e da qualidade deste fruto, assumindo contornos de cultura intensiva no Ribatejo, área que anos mais tarde seria beneficiada, com a criação da grande obra de rega do Vale do Sorraia.
Surge em 1952 a COMPAL - Companhia Produtora de Conservas Alimentares detendo um capital inicial de sete mil contos, dividido em acções unitárias de 1000$00, fruto de uma fusão de duas fábricas: a Sociedade de Fruta Liquida e a ENCA - Empresa Nacional de Conservas Alimentares. É considerada desde logo uma empresa inovadora, apostando nos métodos científicos, o que muito nos diz do tipo de accionistas (nomes sonantes da agronomia, técnicos superiores e até professores do ISA - Instituto Superior de Agronomia, complementado por proprietários rurais). O local escolhido para a implantação da fábrica é o Entroncamento, area forte de produção horto-frutícola. A estratégia comercial da COMPAL nesta primeira fase é especialmente dedicada ao concentrado de tomate, que estava em alta nos mercados internacionais. Por isso contacta com técnicos estrangeiros (alemães e italianos) numa óptica de transferência e aquisição de moderna tecnologia. Apesar dos normais problemas de funcionamento da nova unidade fabril, a COMPAL começa a ganhar nome, cresce, tanto no mercado interno como no externo para onde exporta parte da sua produção (Inglaterra e Noruega) em 1957 dando o mercado grandes sinais de vitalidade, aumenta a sua capacidade fabril. Mas desde cedo o projecto COMPAL revelou fragilidades em termos de capitais, fundamentais para uma industria deste tipo, que necessita de constante investimento na modernização das suas unidades, dinheiro esse que a empresa só consegue através de empréstimos bancários. O ano de 1958 e seguintes irão marcar um ponto de viragem, com um abrandamento das suas vendas, acumulação de stocks e problemas financeiros, em que os accionistas que poderiam ajudar a empresa, acabam por se desligar dela. A Administração procura soluções viáveis, passando uma delas por encontrar um novo accionista de referencia. Sabendo que a CUF se encontrava interessada em se expandir para sector alimentar começaram as negociações para a aquisição maioritária das acções da empresa em 1963 após uma visita do Dr. Jorge de Mello e de outros técnicos da CUF ás instalações da empresa.
Iniciava-se assim um novo ciclo da COMPAL, agora inserida no grande e diversificado grupo empresarial da CUF que a vai salvar da ruína e transforma-la numa marca de referencia no mercado nacional. A empresa passava a deter um maior acesso ao crédito (através do Banco Totta) chegam novos gestores e uma nova cultura empresarial. Logo de imediato é discutido um plano de expansão imediata pelo qual passava a construção de uma nova fábrica, que viria a construída em Almeirim sob a supervisão de outra empresa do Grupo: a Profabril. Esta fabrica arranca a todo o vapor no ano de 1964, com os mais modernos equipamentos que vieram de Itália. Asseguraram-se os destinos tradicionais do concentrado de tomate (Inglaterra, Canadá e Noruega) alargando também as exportações para países como R.F.A., Suíça e França. Diversificam-se as produções de sumos (laranja, alperce, pêra) e refrigerantes. No âmbito de uma nova e agressiva campanha de marketing (dirigida por outra empresa do grupo, a NORMA) surge em 1965 o slogan que gerações de portugueses conhecem: "COMPAL é mesmo Natural". Em 1967 a empresa começou a comercializar doces de fruta, bem como sopas enlatadas (segmento onde estava na vanguarda) latas de favas e ervilhas, puré de grão, puré de feijão etc. A distribuição da COMPAL é integrada na rede CUF/SONADEL o que significa chegar a zonas mais afastadas e menos rentáveis devido à enorme e eficaz cobertura que tal rede possuía, centra-se a produção na Fábrica de Almeirim. No final dos anos 60 verifica-se descidas consideráveis na venda do tradicional concentrado de tomate, e ganhos significativos, nas áreas dos sumos e conservas alimentares. Será devido a este declínio que a COMPAL vai procurar novas áreas diversificando-se ainda mais. Em 1971 entra em acordo com a Câmara Municipal de Cascais, e passa a ser a concessionária das Águas de Vale de Cavalos, firmando posição no negocio das águas de mesa. Por volta de 1973 e numa óptica crescente e internacionalização do Grupo CUF a COMPAL funda a COMBAL - Companhia Brasileira de Conservas Alimentares, de forma a penetrar no mercado brasileiro. Pouco antes da Revolução de Abril de 1974, a COMPAL, ira participar na constituição de uma empresa de dietética, a EURODIETÉTICA - Produtos Dietéticos e Alimentes, numa tentativa de entrar num mercado em crescimento e até então controlado pela DIESE, participa ainda na constituição da SUNEXPOR - Sociedade de Comercialização de Produtos Agrícolas, tendo como accionistas outras empresas do Grupo CUF e o Estado Português (veja-se um dos posts no meu blogue sobre a constituição desta empresa). Os tempos mudaram bem como as politicas e as conjunturas e essas empresas nunca chegaram a ver a luz do dia, tendo a COMPAL ficado a perder dinheiro. Com a nacionalização e desmembramento do Grupo CUF em 1975 a empresa voltaria a ficar de novo numa situação financeira difícil, passando para as mãos do IPE - Instituto de Participações do Estado, foi sobrevivendo às crises, à falta de capital e as indecisões dos poderes, foi reestruturada e privatizada em 1993 continua até hoje a ser uma marca de referencia.
* Registe-se que no ano de 1965, era das nossas maiores exportações cifrando-se em cerca de 1 milhão e 400 mil contos (a preços da época).
Caros amigos, deixo-vos uma sugestão como prenda de natal, obviamente ligada ao tema deste blogue, um livro da Bertrand que segundo esta editora, saía hoje. Fui à procura do mesmo mas infelizmente ainda nao tinha chegado. Repasso por isso o texto de apresentação da obra, escrita pelo mesmo historiador que escreveu a biografia do Industrial.
Alfredo da Silva e Salazar – Retrato de uma Relação Sinuosa – Miguel Figueira de Faria Sobre o livro: «Das primeiras medidas da Ditadura, passando pela questão dos Tabacos e até ao auge da crise Totta, Alfredo da Silva e Salazar mais do que juntar as biografias do fundador da CUF e de Oliveira Salazar, revela o retrato detalhado de uma relação conturbada entre Alfredo da Silva e Salazar. Numa obra de profunda pesquisa e rigor, Miguel Figueira de Faria, doutor em História da Arte pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, professor do Departamento de História, Artes e Património do Instituto de Investigação Pluridisciplinar da Universidade Autónoma de Lisboa, apresenta e analisa a relação entre Alfredo da Silva, personalidade chave da economia portuguesa, destacado industrial e financeiro, e António de Oliveira Salazar. Segundo o autor, “a narrativa procurou deste modo estabelecer, numa primeira fase, um quadro de partida do exilado (prólogo) e do seu combate (I Capítulo), até à regeneração política (II). Segue-se uma segunda parte com a aproximação de Alfredo da Silva ao regime, em plena crise mundial (III-IV), onde descrevemos os primeiros encontros entre o industrial e o político, na luta pela sobrevivência da CUF, no contexto da Grande Depressão (V). Finalmente, reconhecemos o momento de maior atrito com a situação, ditado pelos interesses contraditórios no sector da Marinha Mercante (VI), para concluirmos numa derradeira etapa de conciliação da convergência de Salazar, no quadro dos grandes conflitos internacionais que eclodiram na segunda metade da década de Trinta.”»
Após a morte de José Manuel de Mello, li em diversos blogues, opiniões de muitas pessoas, e depreendi que há ainda hoje uma grande desinformação no que toca ao Grupo CUF. Sendo ainda hoje uma história que se encontra por escrever, este humilde blogue é apenas um pequeno contributo nesse sentido. Redigi pois um texto de forma a tentar esclarecer alguns desses pontos.
Uma questão central com a qual me deparei é precisamente a do "Monopolismo da CUF" e afirmações talvez feitas com alguma ingenuidade, de que "A CUF só foi aquilo que foi devido á politica industrial do Estado Novo". É preciso ter noção que quando a revolução de 28 de Maio de 1926 derrubou a Republica, dando anos depois lugar ao Estado Novo, a CUF era já a nível nacional, um grande grupo económico, presente em múltiplos sectores da vida económica: azeites, óleos alimentares, sabões, rações para animais, química (acido sulfúrico, acido clorídrico, sulfato de cobre, sulfato de sódio, etc), têxteis, navegação (Sociedade Geral de Comércio Industria e Transportes) a Banca (Casa bancária José Henriques Totta) e ainda negócios nas colónias (caso da Casa António da Silva Gouveia, criada em 1921, para a produção de oleaginosas, essenciais para o fabrico de óleos alimentares.).
Grupo tecnologicamente avançado para o País, bem como para as suas mentalidades quer fossem políticos, quer fossem industriais. O que quero eu dizer com isto? O projecto de Alfredo da Silva, não foi gizado apenas para o abastecimento e fornecimento ao país de produtos de que este carecia. Não terá sido pura coincidência que no seu périplo pelo estrangeiro, Alfredo da Silva se tivesse deparado com a figura de Auguste Lucien Stinville, um reputado Eng. Químico que ergueu pela Europa, complexos químicos. Após tornar-se amigo deste, o industrial, convida-o para erguer em terrenos recentemente comprados pela CUF no Barreiro, um moderno complexo químico, à semelhança dos que existiam um pouco pela Europa. Logo aqui nos apercebemos que a CUF não era uma empresa qualquer, pois se olharmos para 1908, observamos que o nosso tecido industrial é composto na sua grande maioria por pequenas fabricas, muitas desconhecendo modernos maquinismos e usando técnicas rudimentares. Contrastando com esta visão, aparecia a então União Fabril, (como era muitas vezes assim designada), quer fosse em termos tecnológicos (relembro que aquando da instalação das suas fábricas no Barreiro, estas já detinham tecnologia de ponta importada do estrangeiro) quer fosse já pelo admirável numero de trabalhadores, que nunca deixou de crescer até 1975.
Creio que ao longo dos tempos dirigentes políticos e governantes, nunca se tenham apercebido precisamente que a CUF, estava sempre um passo à frente quer em termos de mentalidades do país, quer em termos de realizações industriais. Fala-se muito na Lei do Condicionamento Industrial, surgida na década de 30, e afirma-se que a CUF viveu tranquila à sua sombra, mas não posso concordar com essa afirmação. Se é verdade que numa primeira fase a lei foi feita para reorganizar, alguns sectores industriais que se encontravam em grave crise (Caso do Sector Conserveiro, no qual nos anos 30 se assistiu a falências e ao fecho de várias unidades) esta mesma lei deixou de fazer todo o sentido no pós guerra, época na qual o país, deixa a sua politica de autarcia económica, e abre o país ao investimento estrangeiro. Em muitos sectores e em muito empresariado português assistimos a um imobilismo, que advém precisamente dessa Lei do Condicionamento Industrial. Porque é que sucedeu isso? A justificação é simples, nos sectores económicos sujeitos a esta lei, não era possível montar novos equipamentos ou a criação de novas empresas, sem a devida aprovação do Governo. Assim assistimos que em vários sectores, sem a existência de uma concorrência efectiva, não havia por parte do empresário, motivo para a renovação do seu parque industrial por outro mais moderno e tecnologicamente mais avançado. Sabendo que teria a suas vendas asseguradas sem novos investimentos, esse era o típico empresário que vivia à sombra da Lei do Condicionamento Industrial e do proteccionismo corporativo. O tecido industrial da CUF sempre contrastou com o que atrás foi dito, sendo constante a preocupação dos seus líderes, na implantação dos mais modernos maquinismos, e de novos processos de fabrico. Como se afirma num documentário feito a pouco tempo pela RTP sobre a CUF "causava impressão aos técnicos estrangeiros que nos anos 60 nos visitavam, o constrate da modernidade da empresa relativamente ao país". Não será por acaso que a empresa, exportava já parte da sua produção para inúmeros países do Mundo tais como: Coreia do Sul, Indonésia, Irão, Holanda, França, ou México, enquanto a maioria dos empresários se preocupava apenas com o mercado interno e respectivo ultramar. Aliás quando começam as guerras em África, serão os seus dirigentes dos primeiros a tentar convencer os governantes, que politica portuguesa tinha de evoluir. Através as publicações que assinavam, e das constantes visitas ao estrangeiros, rapidamente chegava a CUF o que de mais moderno havia lá por fora, e não só! Ainda hoje é pouco revelado que a empresa chegou a criar tecnologia 100% CUF (especialmente no que toca ao fabrico de ácido sulfúrico), é preciso frisar que tudo isto só foi possível, através de uma obra continuamente criada e apoiada pela empresa no sentido da constante formação dos seus quadros, surgindo aquilo que na época se chamou de uma "Escola da CUF". Desta escola, saíram economistas, engenheiros, e outros quadros técnicos de prestigio, alguns chegando mesmo a desempenhar funções governativas em sucessivos governos. E será precisamente através desse "know-how" acumulado de décadas, que irá permitir a empresa, crescer, e expandir-se para os mais variados sectores da nossa economia.
A CUF foi das poucas empresas (se não a única em Portugal) a ter uma visão integrada da Industria. Quer isto dizer que a partir da casa mãe, foram surgindo empresas, conforme as necessidades do grupo, expandindo-se e diversificando-se para outros sub-sectores se assim o poderemos chamar. Quando a CUF se inicia na produção de adubos, Alfredo da Silva cedo se apercebe da necessidade de a empresa entrar na industria têxtil, dada a necessidade de sacaria em juta e linho para os adubos, comprando para isso em 1908 a Companhia de Tecidos Aliança e mais tarde a Fábrica do Rato em 1916, sendo os seus maquinismos sendo transferidos para o Barreiro, centro nevrálgico da companhia. Mas para se fazer o ácido sulfúrico, era necessária a pirite ou importar o fosfato do Norte de África, para tal surge em 1919 a Sociedade Geral de Comercio Industria e Transportes que se irá tornar numa das maiores companhias de navegação. Devido á necessidade de segurar os seus complexos industriais, e a sua companhia de navegação surge em 1942 a Companhia de Seguros Império. Como se pode ver no pensamento da empresa, para alem de valorizar e explorar as potencialidades de novas áreas para a empresa, esta criou de forma racional, negócios em cascata, que surgiram das necessidades de uma auto-suficiência da companhia. Para alem disso foi possivelmente a única empresa portuguesa, que tentou explorar ao máximo as riquezas do subsolo português, da qual possuímos uma das maiores reservas mundiais, falo da pirite. A chamada "Linha da Pirite" foi um projecto pensado por Alfredo da Silva e que se foi construindo ate ao fim da companhia. A partir da ustulação (queima) da pirite se fabricava o ácido sulfúrico, consequentemente desse processo resultavam cinzas, cinzas essas ricas em cobre, zinco, cobalto bem como o ouro e a prata, isto só para mencionar algumas. Mais uma vez numa óptica de integração surgiram no Barreiro unidades químicas de recuperação desses metais (Metalurgia do Cobre, Ouro e Prata, o TCP- Tratamento de Cinzas de Pirite, Fabrica de Oxido de Zinco etc). Inserindo-se nesta mesma politica, observe-se o interessante aproveitamento dos gases das suas unidades fabris, através de centrais a vapor, de forma a criar energia. E neste capitulo poderia-se ainda enumerar muito mais coisas.
Li ainda afirmações como esta de que "A CUF nunca poderia sobreviver ao 25 de Abril e a abertura económica do país". Achei de facto curiosa esta afirmação, sobre precisamente um dos poucos grupos económicos do país, que estava mais que preparado para a competição (tanto interna como internacionalmente) e se assim não fosse, tal como mencionei uns parágrafos acima, nos anos 50 e 60 já ela exportava em força para o estrangeiro. O seu binómio de qualidade/preço permitia-a colocar os seus adubos e outros produtos um pouco por todo o mundo a preços muito competitivos. Precisamente por ser tão tecnologicamente avançada no seu tempo, como uma BAYER, uma B.A.S.F., ou uma I.C.I., permitia-a rivalizar com reputadas marcas internacionais, com as quais alias chegou a constituir empresas, através de join-ventures. Não nos podemos esquecer que será pela mão da CUF que a famosa consultor Mckinsey, veio ao nosso país, e esta tentou precisamente definir um programa de internacionalização da CUF por sectores. Será precisamente em plena época de internacionalização do Grupo, e que este mais necessitava de estabilidade económica, (até porque não podemos esquecer do choque petrolífero ocorrido em 1973 e que irá condicionar fortemente e economia e as actividades ligada ao ouro-negro.) surgiu a revolução de 25 de Abril de 1974, e o consequente processo das nacionalizações que puseram um travão e esse e aos vários projectos da empresa: A nova refinaria e o novo complexo químico-adubeiro de Sines, o estaleiro da Setenave, ou a FISIPE. Não tenho duvida de que se as coisas tivessem sido diferentes, e outra a transição para a democracia, hoje o Grupo CUF seria a primeira multinacional portuguesa. Em 1975 o Grupo CUF era um grupo económico tão complexo e evoluído que os governos de então tiveram de criar um decreto-lei exclusivo para a nacionalização da empresa, a partir da sua holding - a SOGEFI. Hoje em dia quando olho para empresas como a BAYER (Alemanha), a TATA (Índia), a Mitshubishi (Japão) ou a Hyunday (Coreia do Sul), enormes gigantes industriais, divididos em múltiplas divisões e empresas, olhamos precisamente para aquilo que foi no nosso país uma CUF. E se a titulo de exemplo a Huynday, contribuiu fortemente para a ascenção da Coreia a estatuto de economia desenvolvida, o mesmo se poderia ter passado em Portugal com a CUF.
P.S. - Haveria ainda muito para falar e relatar, mas para nao tornar o texto maçudo despeço-me por aqui.
O País ficou hoje mais pobre. José Manuel de Mello, homem integro, faleceu aos 81 anos. Fecha-se um Ciclo. Hoje em Portugal temos muitos empresários, mas Industriais, esses temos já muito poucos, e José de Mello foi um desses homens, que conheceu a Industria Portuguesa por dentro. Homem da geração dos grandes complexos industriais, da química pesada, dos estaleiros navais, á navegação, juntamente como o seu irmão (Jorge de Mello) continuaram a dinâmica, herdada dos seus antecessores no então Grupo CUF, dando-lhe grande impulso e vitalidade até 1975, ano derradeiro da nacionalização do grupo. Homem de desafios, começou cedo a sua vida industrial, aos 21 anos, já estava em Chipre, a tratar das exportações dos produtos da CUF para o Médio-Oriente. Desde cedo é um apaixonado pelo mar, tendo como sonho fazer uma volta ao Mundo num veleiro, quando nos anos 60 os irmãos são chamados a ocupar, cargos de administração na empresa, José de Mello, inclina-se de imediato para a área da navegação. Percebendo as potencialidades que Portugal poderia ter na Construção e Reparação Naval, lança-se no projecto da Lisnave, que foi verdadeiramente o primeiro empreendimento nacional totalmente virado para o estrangeiro, atraindo capitais de Suecos, Noruegueses e Dinamarqueses, surgindo a CUF como testa de ponte. Certo é que apenas passados 2 anos da sua fundação, em 1969 a Lisnave, detinha 30% da reparação mundial de navios até 300 mil toneladas, um feito histórico, tornando Almada na maior estação de serviço de navios a nível mundial. Rapidamente o projecto tornou-se pequeno, anos depois, é a vez de se pensar num gigantesco estaleiro no estuário do Sado (SETENAVE) vocacionado para a construção de navios, que viria a ser inaugurado já muito perto do 25 de Abril e que nunca produziu a 100% devido aos tempos conturbados do PREC das lutas internas e dos Choques Petrolíferos. Também a Lisnave se expande, de forma a controlar as rotas do petróleo, depois da Margueira, surge, Bahrein, Jeddah, ou Curaçau, mas também aqui a revolução cortou os pés ao seu futuro promissor, e amargurado com os sucessivos governos, abandona a empresa no ano 2000. Outra das suas paixões era a Banca, promove em 1961 a fusão do Banco Totta, com o Banco Aliança do Porto, dando origem ao Totta-Aliança, para anos mais tarde (1970) criar o Banco Totta & Açores, através da fusão do Totta-Aliança, com o Lisboa & Açores, no pós 25 de abril, voltará a banca, através da criação do Banco Mello, e depois através do BCP. Nas vésperas do 25 de Abril o Grupo CUF encontrava-se num amplo processo de internacionalização, e sendo ela o expoente máximo do capitalismo em Portugal, foi pois natural que os irmãos Mello fossem alvos de invejas e ódios, nas manifestações desses tempos conturbados chegaram a ouvir-se expressões como "Morram os Mellos". O seu irmão Jorge foi preso a 12 de Março de 1975 e levado para Caxias, onde passou uma semana, enquanto o império CUF era desmembrado a golpes de decreto-lei, através das nacionalizações. Nesse mesmo dia José de Mello dirigia-se ao aeroporto, para uma reunião da Lisnave a efectuar em Paris, não embarcou no avião, sendo retido pelos militares que o mandam para casa. Nesse período tenta ainda criar com mais alguns empresários o MDES (Movimento Dinamizador Empresa-Sociedade) que pretendia apresentar um programa de evolução económica em democracia. Na voragem das nacionalizações restou-lhe apenas 14% da Lisnave, com o apoio dos seus parceiros estrangeiros. Nos anos 80 com o fim das restrições á iniciativa privada José de Mello volta a reinvestir, compra a Sociedade Financeira Portuguesa, e transforma-a no Banco Mello, no inicio da década de 90 paga 25 milhões de contos por 50% da Seguradora Império. Uns anos depois, com o sucesso da OPA do BCP ao Banco Mello, passa a deter nesta instituição bancária uma participação de relevo. Entretanto o Grupo José de Mello expande-se para área como a Brisa, a Saúde (Hospitais e Clínicas CUF) EFACEC etc.
Termino com uma frase de José Manuel de Mello que diz muito do seu pensamento.
"Queremos marchar na senda do progresso e da constante elevação do nível de vida. Só assim os nossos filhos e as gerações futuras compreenderão a nossa acção, pois só assim seremos coerentes com o próprio desejo de trabalhar na dignificação da pessoa humana"
Hoje trago-vos por assim dizer um fac-simile daquela que se não for a primeira Circular da Sociedade Geral será certamente das primeiras. Não é uma novidade, existindo já referências a este documento em livros recentes sobre Alfredo da Silva e da CUF. Esta informa-nos da criação desta Sociedade com um capital inicial de 2 mil contos ouro, efectuada no dia 15 de Julho de 1919 no tabelião Tavares Carvalho.
Os Sócios que constituíam esta nova sociedade tinham á cabeça Alfredo da Silva, seguido do Marquês de Mendia, o Conde de Mendia, Alfredo Ribeiro da Silva (com um nome idêntico ao do grande industrial o que não deixa de ser curioso) , Maria Christina Rezende Dias de Oliveira da Silva (esposa de Alfredo da Silva) e Amélia Dias d´Oliveira da Silva de Mello (filha de Alfredo da Silva) e própria Companhia União Fabril.
Tal e qual como estava estabelecido nos seus estatutos, o objectivo desta nova sociedade, era o exercício de qualquer comércio exceptuando o bancário. Detinha ainda o objectivo especial de contribuir para o capital ou aumento de capital de quaisquer empresas industriais. Sendo este último ponto que pretendo desenvolver.
A Sociedade Geral, transformar-se-á após a sua constituição naquela que foi a primeira "Holding" do Grupo CUF. O que quero eu dizer com isto? Provavelmente a maioria das pessoas pensam que Alfredo da Silva criou a Sociedade Geral de Comércio Industria e Transportes, com o objectivo especifico de entrar no sector o da navegação. Em parte é verdade, mas a viragem da Sociedade Geral para o mundo marítimo, como empresa de navegação foi um facto acidental. Durante e no pós 1ª Guerra Mundial, a pressão britânica (feita através do Foreign Office) sobre os negócios de Alfredo da Silva*, resultou no fracasso da aquisição (através da SG) da Companhia Nacional de Navegação. Deste modo não restava outra solução ao industrial se não criar toda uma frota marítima de raiz através da Sociedade Geral. Se o negócio tivesse sido concretizado, possivelmente o futuro papel desta Sociedade, seria o de única e exclusivamente gerir e reforçar os capitais e participações dos novos empreendimentos do Grupo CUF.
A criação da SG tem primeiramente a haver, com um objectivo muito concreto de Alfredo da Silva, o aproveitamento e penetração do seu grupo nos mercados ultramarinos, de forma a poder ter acesso a matérias-primas. Assistimos assim a aquisição de interesses em Sociedades ultramarinas, casos da Companhia do Congo Português, e a Empresa António da Silva Gouveia na Guiné, de extrema importância para a sua futura indústria de óleos alimentares (mendobim, gergelim, e palma). Em 1921 participa na aquisição da Casa Bancária José Henriques Totta, que se torna o centro financeiro do Grupo. Em cada novo negócio em que a CUF se lançava lá estava a presença discreta da SG, do empreendimento da TAP á Lisnave, Soponata, passando pela nova Refinaria da Petrosul em Sines, aos Fundos da FIDES, ou á SOGESTIL, a SG geria uma enorme carteira de acções. A partir de 1972 com a venda do seu sector de navegação á CNN, a empresa irá dedicar-se até ao seu desaparecimento da administração e gestão das participações que detinha nas múltiplas empresas do Grupo
* refira-se que durante a 1ª Guerra Mundial, a CUF estará na lista negra de companhias industriais por parte dos ingleses, devido á existência de capitais alemaes na empresa, por parte de Benno Weinstein
Nem só de factos e de números vive a história de uma empresa. O seu quotidiano, os seus objectos, os seus papeis etc são também uma parte importante da sua vida. Por isso mesmo neste post pretendo dar uma mostra de como eram alguns modelos de envelopes de empresas do Grupo CUF. Todos os dias nos atarefados escritórios, das sedes e delegações, onde ainda se pode imaginar o constante bater das maquinas de escrever, eram enviadas cartas sobre múltiplos assuntos para os mais variados destinatários e lugares.
Envelope do Banco Totta & Açores
Banco Totta Standard de Angola
HOTAL - Sociedade de Indústria Hoteleira do Sul de Portugal
Comp. de Seguros Império
Sociedade Geral - envelope normal
Sociedade Geral - envelope de avião
Companhia Nacional de Navegação
Companhia Nacional de Navegação - Sucursal da Beira (Moçambique)
TRANSMINEIRA
NAVANG - Comp. de Navegação de Angola
C.M.N. - Companhia Moçambicana de Navegação
Guinémar - Sociedade de agências e transportes da guiné
Suprema Compañia Naviera - com sede no Panamá, foi fundada em 1962 por interesses do Grupo CUF
Numa óptica de crescimento e expansão por parte do Grupo CUF, de cada vez maior necessidade de um fortalecimento de capitais, para os seus novos e vultuosos projectos, adquire o Banco Lisboa & Açores (instituição bancária fundada em 1875). Assim a partir de 1 de Janeiro de 1970 e devido á fusão deste banco, com o Banco Totta-Aliança (fundado em 1961) o seu nome passa a Banco Totta & Açores. Com esta fusão este Banco passa á categoria dos 5 maiores bancos do sistema financeiro português. Analisando a Revista Tempo Economico, poderiamos dizer que:
O Banco Totta & Açores era em 1974:
O 6º maior banco a nível de Capital (900*) e de Reservas (335*)
O 6º maior em Fundos Próprios ( 1.592*)
O 3º maior em Depósitos (24.442*)
* valores em milhares de contos.
Esta é uma belíssima medalha da autoria do escultor Charters de Almeida, um prestigiado escultor português ainda vivo. Natural de Lisboa, onde nasce no ano de 1935, cedo revela aptidão para as artes. Em 1956 inicia o Curso Superior de Escultura na Escola Superior de Belas-Artes do Porto, tendo como mestre Barata Feyo. Em 1962, ano em que termina o curso com média final de 20 valores, obtém o Prémio de Escultura Mestre Manuel Pereira. Tendo explorado essencialmente o barro, começa a sentir necessidade de um outro tipo de síntese no seu trabalho - o que o leva a explorar as potencialidades do metal, mais tarde da pedra, e por último do betão.
O Governo de Marcello Caetano liderado por tecnocratas, cedo se apercebeu que devido ao seu avultado custo, não poderia ser o Estado a construir a futura rede de auto-estradas. Desta forma opta por lançar em 1971 um concurso público para a construção e exploração das novas auto-estradas, criando-se para esse efeito uma concessionária juntamente com a respectiva duração da concessão.
Bases do Concurso
- Menor tarifa de portagem - Menor montante de empréstimos estrangeiros - Maior montante de capital social - Maior participação portuguesa na concessionária a ser fundada - Menor prazo de duração da concessão - Menor prazo de execução dos trabalhos de construção - Melhor nível de estudos de carácter técnico e financeiro - Negociação sobre a melhor quantia oferecida pelo lanço Lisboa - Vila Franca de Xira (construído em 1961)
Plano das Construções
- Conclusão da Auto-Estrada do Norte (Vila Franca de Xira – Carvalhos), numa extensão de 273 quilómetros
- Auto-Estrada do Sul, construção do acesso ao Futuro Aeroporto de Lisboa (Rio Frio) e o lanço entre o Fogueteiro e Setúbal numa extensão de 35 quilómetros
- Auto-Estrada da Costa do Sol compreendendo uma extensão de 20 quilómetros (Estádio Nacional – Cascais)
- Auto-Estrada Lisboa – Sintra, 20 quilómetros
- Auto-Estrada do Oeste entre Lisboa e Malveira, numa extensão de 20 quilómetros
- Auto-Estrada do Porto a Braga e Guimarães, numa extensão de 57 quilómetros
- Auto-Estrada do Porto à Povoa de Varzim, numa extensão de 23 quilómetros
- Auto-Estrada do Porto a Penafiel, numa extensão de 32 quilómetros.
O projecto resulta assim numa rede de 480 quilómetros de Auto-estradas, onde seria também integrada os lanços anteriormente construídos. Estimava-se, segundo este plano a entrada ao serviço desta rede entre os anos de 1973 e 1982. Para o efeito o Governo criou uma comissão de técnicos para analisar as várias propostas levadas a concurso. A comissão era presidida pelo Eng. Manuel Duarte Gaspar, presidente da J.A.E. Dr. Luís Pires Cabral da Procuradoria Geral da Republica, Eng. Fernando Barbosa Perdigão e Eng. Manuel Pinto Serrão direcções do Serviço de Construção e do Gabinete de Estudos e Planeamento da J.A.E.
Foram três as propostas apresentadas a concurso:
- Grupo Internacional Brisa - Grupo CUF - Consórcio Luso-Hispano-Italiano
Vejamos pois a formação dos três grupos concorrentes:
Grupo Internacional Brisa
Sociedade de Empreendimentos e Infra-estruturas Interbrisa S.A.R.L.
Consorcio Financeiro:
• Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa • Banco Fonsecas & Burnay • Credito Predial Português • Crédit Franco-Portugais
Empresas Nacionais:
• Sociedade de Empreitadas Somague S.A.R.L. • SEOP – Soecidade de Empreitadas e Obras Públicas S.A.R.L. • EMPEC – Empresa de Estudos e Construções Lda.
Empresas Estrangeiras
• Sir Alfred McAlpine and Son Ltd. (Inglaterra) • S.A. Conrad Zschokke (Suiça) • Societé Française de Travaux Publics Fougeroulle S.A. (França) • Societé Général d´Entreprises S.A. (França) • Societé Routière Colas S.A. (França) • Bec Frères S.A. (França) • Finanzas y Projectos S.A. (Espanha) • Técnica y Obras S.A. (Espanha) • Ginez Navarro e Hijos Construciones S.A. (Espanha)
Grupo CUF
• Companhia União Fabril S.A.R.L. • Lindsay Parkinson e Co. Ltd. (Inglaterra) • W. e C. French Ltd. (Inglaterra)
Consorcio Financeiro
• Banco Totta & Açores S.A.R.L. • Kleinwort Benson Ltd. • (possibilidade de criação de um segundo grupo tanto de bancos nacionais como estrangeiros para assegurar os investimentos a realizar)
Consultoras técnicas:
• Owen Williams and Partners • Profabril - Centro de Porjectos Industriais S.A.R.L.
Consorcio Luso-Hispano-Italiano
• Banco Pinto & Sotto Mayor • Banco Português do Atlântico • Liga Financeira S.A. (Espanha) • Union Industrial Bancária S.A. – Bankunion • Impresit-Impresa Italiana all Estero S.A.
Apresenta-se seguidamente as propostas das três empresas:
Grupo Brisa
• 65% de capitais nacionais sendo 35% de origem estrangeira • 522,2 Km de extensão de percursos • Execução da Rede em 12 anos • 27 anos de concessão • Participação do Estado em 10% • Compra do troço da Auto-estrada Lisboa – Vila Franca de Xira ao Estado (500.000 em 4 prestações) • Tarifas médias ($40 e $60 para veículos ligeiros e pesados)
Grupo CUF
• Valor do capital desconhecido (sendo que 24% seria do Grupo CUF e associadas, 20% Estado Português, Lindsay Parkinson e W. e C. French ambas com 23% e 10% para outra comparticipações internas)) • 446 Km de extensão (tendo apresentado 6 projectos diferentes) • Execução da Rede em 12 anos • 88 anos de concessão • Participação do Estado até 20% • Compra do troço da Auto-estrada Lisboa – Vila Franca de Xira ao Estado (400.000 contos em 10 prestações) • Tarifas médias ($50 por veiculo)
Consorcio Luso-Hispano-Italiano
• Capital inicial de 500.000 contos • 480 Km de extensão • Execução da rede em 12 anos • 35 anos de concessão • Participação do Estado (desconhecida) • Compra do troço da Auto-estrada Lisboa – Vila Franca de Xira ao Estado (400.000 contos em 10 prestaçoes) • Tarifas médias ($45 por unidade movimentada)
Como se sabe quem veio a ganhar este concurso foi a BRISA que até hoje é a concessionária de parte da rede de Auto-Estradas de Portugal. Este foi um dos projectos do Grupo CUF que não tiveram sucesso como aconteceu no passado com o arrendamento da Linha Sul e Sueste nos anos 20, ou a tentativa de controlo da Companhia Portuguesa de Rádio Marconi em 1926.
O projecto do Grupo CUF para as auto-estradas se o analisarmos bem tem os seus prós e os seus contras:
- A favor poderemos enunciar a capacidade de auto-financiamento e de concretização, pois como se sabe o Banco Totta e a Profabril eram empresas do Grupo, o que tornaria o projecto menos dispendioso, apesar da necessidade natural de recurso a capitais estrangeiros.
- Contra temos de enunciar a extensão da rede de Auto-Estradas, foi o grupo que apresentou a menor extensão de quilómetros, já para não falar no prazo de Concessão onde muito se alargou perante os seus concorrentes, o concurso dizia explicitamente “menor prazo da duração de concessão”, tornando-se inviável.
O facto mais curioso é que hoje em dia o maior accionista nacional da BRISA é o Grupo José de Mello com 30% do seu capital e que detém também a CUF.
Banco Totta & Açores (1970)
Banco Totta – Standart de Angola (1966)
Banco Standart Totta de Moçambique (1966)
SOGESTIL – Sociedade de Gestão de Títulos (Fundo FIDES)
SOGEFI – Sociedade de Gestão e Financiamento (1964)
Sociedade Geral
International Factors Portugal (1965)
COBRIMPE – Cobranças, Organização e Assistência a Empresas (1972)
Indústria de Construção
EMACO – Empresa de Gestão e Construções (1964)
REALIMO – Estudos e Realizações Imobiliárias (1969)
FUNDUS – Administração e Participações Financeiras
SAEMA – Empreendimentos Financeiros e Comerciais (1964)
IMOBUR
Seguros e Resseguros
Companhias de Seguros Império – Sagres – Universal
Engenharia, Organização e Consulta
ENI – Electricidade Naval e Industrial (1969)
FRINIL – Frio Naval e Industrial (1971)
Empresa Geral de Fomento, planeamento e coordenação de empresas (1947)
NORMA – Sociedade de Estudos para o Desenvolvimento de Empresas (1963)
PENTA – Publicidade (1970)
PROFABRIL – Centro de Projectos (ex. centro de projectos C.U.F.)
PROMARINHA – Gabinete de Estudos e Projectos (1969)
Sector Químico
Companhia Portuguesa do Cobre (1943)
U.F.A. – União Fabril do Azoto (1948)
Lusofane (1962)
PREVINIL – Empresa Preparadora de Compostos Vinílicos (1969)
Microfabril – Sociedade Industrial de Bioquímica (1961)
VECOM – Sociedade de Limpezas Químicas e Protecções Especiais (1969)
Sector Têxtil
PROTEXTIL – promoção da indústria têxtil (1963)
SITENOR – Sociedade de Indústrias Têxteis do Norte (1962)
IPETEX – Sociedade de Indústrias Pesadas Têxteis (1965)
CICOMO – Companhia Industrial de Cordoarias de Moçambique (1966)
Companhia Têxtil do Punguè (1959)
SIGA – Sociedade Industrial de Grossarias de Angola (1951)
FISIPE – Fibras Sintéticas de Portugal (1973)
Sector de Higiene e Alimentação
COMPAL – Companhia de Conservas Alimentares (adquirida em 1963)
UNICLAR – Internacional de Cosmética (1971)
UNISOL – Sociedade de Distribuição e Exportação (1967)
SONADEL – Sociedade Nacional de Detergentes (1956)
FLORAL – Sociedade de Perfumaria e Produtos Químicos (1937)
INDUVE – Industrias Angolanas de Óleos Vegetais (1957)
PROALIMENTAR – Companhia de Produtos Alimentares do Centro (1968)
SICEL – Sociedade Industrial de Cereais (1963)
SOVENA – Sociedade Vendedora de Glicerinas (1956)
SOVENCOR – Sociedade Distribuidora de Óleos e Sabões nos Açores (1964)
SAPOMAR – Sociedade Madeirense de Sabões (1966)
SUPA – Companhia Portuguesa de Supermercados: Pão de Açúcar (1969)
GERTAL – Companhia Geral de Restaurantes e Alimentação (1973)
RESTAUBAR - Bares e Restaurantes (1969)
Restaurantes: Alvalade, Varanda do Chanceler, e Alfredo´s (Alvor)
Sector Metalo-Mecânico
MOMPOR – Companhia Portuguesa de Montagens Industriais (1972)
EQUIMETAL – Empresa Fabril de Equipamentos Metálicos (1973)
FERUNI – Sociedade de Fundição (1969)
Sector Eléctrico
JOMAR – cabos eléctricos e telefónicos (adquirida em 1972)
EFACEC – Empresa Fabril de Máquinas Eléctricas (1948)
Petroquímica
PETROSUL – Sociedade Portuguesa de Refinação de Petróleos (em associação com a SONAP) 1972
Companhia Nacional de Petroquímica (1972)
Sociedade Portuguesa de Petroquímica (em associação com a SACOR) 1957
Minas
Sociedade Mineira de Santiago (1966)
ECA – Empresa do Cobre de Angola (1944)
Pirites Alentejanas (1973)
Celuloses
Celuloses do Guadiana (1956)
CELBI – Celulose Beira Industrial (em associação com a Billerud) 1967
Tabaco
A TABAQUEIRA (1927)
Estaleiros Navais
LISNAVE – Estaleiros Navais de Lisboa (1961)
NAVALIS – Sociedade de Construção e Reparação Naval (1957)
REPROPEL – Sociedade de Reparação de Hélices Lda. (1971)
GASLIMPO – Sociedade de Gasgasificação de Navios (1967)
SETENAVE – Estaleiros Navais de Setúbal (1971)
Estaleiros Navais de Viana do Castelo (1945)
H. Parry & Son (adquirido em 1972)
Navegação
Companhia Nacional de Navegação (1956)
Companhia Moçambicana de Navegação (1971)
Empresa Africana de Cargas e Descargas (1970)
NAVANG – Companhia de Navegação Angola (1970)
NAVETUR – Agências de Turismo e Transportes de Angola (1971)
NAVETUR – Agências de Turismo e Transportes de Moçambique (1969)
NAVEMAR – Agência de Navegação Marítima e Aérea (1970)
NORTEMAR - Agência Maritima do Norte Lda. (1971)
GUINÉMAR – Sociedade de Agências e Transportes da Guiné, Lda.
PORTUFRETE - Fretamentos Marítimos e Aéreos, Lda.
SAMAR – Sociedade de Agências Maritimas (1970)
SOCARMAR – Sociedade de Cargas e Descargas Marítimas (1969)
SONATRA – Sociedade Nacional de Tráfego (1953)
SOPONATA – Sociedade Portuguesa de Navios-Tanques (1947)
Suprema Compañia Naviera S.A. (Panamá)
TRANSFRIO – Sociedade Marítima de Transportes Frigoríficos (1964)
TRANSNAVI – Sociedade Portuguesa de Navios Cisternas (1967)
TRANSMINEIRA (1970)
Hotelaria e Turismo
HOTAL – Sociedade de Indústria Hoteleira do Sul de Portugal (1962)
SALVOR – Sociedade de Investimento Hoteleiro (1963)
Concessão de Jogo (Algarve) SOINTAL - Sociedade de Iniciativas Turísticas Algarvias (1971)
Aluguer de Veículos
EUROCAR – Companhia Nacional de Aluguer de Automóveis (1965)
SARMENTAUTO - Automóveis de Turismo, Lda. (adquirida em 1973)
Mercado Externo
INTERACID inc. ( Sede na Suiça 1971)
INTERCUF - Comércio e Representações de Produtos Quimicos Lda. (Sede no Brasil 1973)
FERTISUL (Brasil 1973) *
ICISA (Brasil 1973) *
Leal Santos (Brasil 1973) *
AGROFERTIL (Brasil 1973) *
D.C.I. - Desenvolvimento e Comércio Internacional (1974)
SUNEXPORT - Sociedade de Comercialização de Produtos Agricolas (1974)
NAVELINK S.A. - (Sede na Suiça, Janeiro de 1975)
Empresas Diversas
Companhia Animatógrafica dos Restauradores, (Cinema Éden) 1941
ISU – Estabelecimentos de Saúde e Assistência (1971)
UNIFA – União Fabril Farmacêutica (1951)
TINCO – Sociedade Fabril de Tintas de Construção (em associação com a ICI) 1958
Editora Arcádia, publicação de livro (1957)
Blanchard Portuguesa (1974)
Companhia da Ilha do Príncipe
Empresa António Silva Gouvêa
SOCAJÚ
COMFABRIL – Companhia Fabril e Comercial do Ultramar
CPIN – Companhia Portuguesa de Industrias Nucleares (parceria com várias empresas)
* empresas em que a CUF toma uma importante posição accionista
Fontes
"The CUF Group", CUF - Publicity Dep. July 1969
"O Grupo CUF", Departamento de Publicidade CUF, 1974
Maria Belmira Martins, "Sociedades e Grupos em Portugal", Editorial Estampa, 1973
Miguel Figueira de Faria "Manuel de Mello", Edições Inapa, 2007
Jornal República (1974)
Nota Bem: Esta lista não é definitiva, com o decorrer de estudos podem aparecer novas empresas que serão devidamente acrescentadas neste local.