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terça-feira, 19 de junho de 2018

Carta da CUF assinada por D. Manuel de Mello

No rescaldo da II Guerra Mundial, grande parte da Europa encontrava-se completamente devastada devido à violência do conflito armado, havendo inúmeras faltas de todo o tipo de produtos, mesmo no caso dos países neutros. É pois, com este cenário de fundo que uma casa suíça designada por Haaf´sche Apotheke & Drogerie (que presumo tenha sido uma firma ou uma casa comercial idêntica às nossas drogarias) se dirigiu à CUF em fins de Setembro de 1945, a perguntar se fabricavam velas de cera. A resposta foi enviada no dia 2 de Novembro desse ano pela mão do próprio D. Manuel de Mello cuja assinatura se reconhece no final da mesma. Com a maior parte dos centros industriais europeus destruídos pela guerra, acredito que à época, esta firma andasse a sondar empresas alternativas por forma a substituir os seus anteriores fornecedores que devem ter colapsado durante este período negro da história da humanidade. Porém não deixa de ser também curiosa a resposta de D. Manuel Mello que ao responder negativamente, fecha a porta a uma possivel entrada da CUF noutros mercados externos. Talvez porque à época a própria empresa estivesse tambem ela a sofrer com as restriçoes e faltas de matérias-primas que condicionavam as suas produções. Contudo esta simples carta não deixa de ser um interessante documento sobre a história desta empresa ainda mais estando assinada pelo punho do seu Administrador Gerente. 

Para uma melhor compreensão desta missiva aqui fica a sua tradução:

"Senhores 

Acabamos de receber a vossa carta do dia 23, pela qual agradecemos, mas lamentamos informar que não fabricamos as velas de cera que procuram, mas sim velas de estearina para iluminação. No entanto, devemos dizer que toda a nossa produção é destinada exclusivamente ao mercado interno, e que não estamos interessados em exportá-las.  

                                                          
                                                                Por favor aceitem os nossos melhores cumprimentos 

                                                                                          Manuel de Mello

                                                                                   ( Administrador Gerente )"


Carta assinada por D. Manuel de Mello


Envelope da Carta

sábado, 7 de abril de 2018

O lançamento à agua do navio «São Macário»

Enquanto meio mundo se digladiava num terrível conflito à escala mundial, Portugal felizmente via a guerra a passar-lhe ao lado. Porém os ecos da guerra faziam-se sentir na vida de todos, racionamento de bens alimentares, escassez de matérias-primas, o ambiente é tenso e surgem greves na cintura industrial de Lisboa. Porém nem tudo são nuvens negras no horizonte a comprová-lo estão as palavras que se seguem.


Cartão de Convite do Estaleiro Naval da CUF

O dia 26 de Janeiro de 1944 nasceu soalheiro, fazendo certamente esboçar sorrisos de contentamento por ente os responsáveis da CUF e da Sociedade Geral. No Estaleiro Naval da A.G.P.L. (arrendado à CUF desde Janeiro de 1937) fazem-se os últimos preparativos para a cerimónia de lançamento de mais um navio à água: o São Macário. Junto à sua proa foram erguidas duas tribunas, uma para os elementos oficiais e outra destinada aos convidados. 


Vista Aérea do Estaleiro da A.G.P.L.

Pouco depois das 15 horas, uma força de marinha com a respectiva banda de musica alinhou a um dos lados da porta leste do Estaleiro, junto à Central da Carris (onde hoje se encontra a Adega do Kais). Foram muitos os convidados que, pouco a pouco, iam chegando ao local da cerimónia: Ministros da Marinha, Economia e Colónias, sub-secretários de Estado das Obras Públicas e do Comércio, Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Major General da Armada, Governador Militar de Lisboa, Presidente da Junta Nacional da Marinha Mercante (que à época era presidida por Américo Thomaz), directores das Companhias Colonial e Nacional de Navegação, (Bernardino Correia e Jaime Thompson) Carregadores Açoreanos (eng. Gago Medeiros), Empresa Insulana de Navegação (Vasco Bensaúde) para além de uma lista mais extensa que seria de fastidiosa leitura. Os convidados foram recebidos por D. Manuel de Mello, Aulânio Lobo (gerente da Sociedade Geral), Vasco de Mello (Director do Estaleiro). eng. Sá Nogueira (Administrador do Porto de Lisboa) engs. Sousa Mendes, Américo Rodrigues, Almiro Martins e mestres Peres e Ramos que tomaram parte na direcção dos trabalhos de construção do «São Macário».
  ÀS 16 horas em ponto chegou o General Carmona acompanhado do general Amílcar Mota e do capitão Carvalho Nunes da casa militar da Presidência. Depois de passada a respectiva revista à guarda de honra, o Chefe de Estado subiu á tribuna onde a convite de D. Manuel de Mello, o General Carmona deu com um pequeno martelo a pancada no aparelho que impeliu a garrafa de champagne contra o navio, fazendo-o deslizar pela carreira de construção até à agua.


Carmona no momento de impelir a garrafa de champanhe contra o navio



Por entre salvas de palmas, o toque das sereias dos navios e «A Portuguesa» tocada pela banda da Armada, o «São Macário», desliza suavemente pelas calhas da carreira até às águas do Tejo. Os operários do estaleiro que se encontravam a bordo do navio agitavam os seus bonés em sinal de regozijo.


Foto do lançamento à água do «São Macário»


De seguida D. Manuel de Mello usou da palavra começando o seu discurso com estas interessantes palavras:


D. Manuel de Mello discursando

"Ao tomar a C.U.F., em 1 de Janeiro de 1937, posse da exploração dos estaleiros da Administração Geral do Porto de Lisboa, o sr. Alfredo da Silva, meu saudoso sogro, espirito da elite, ao qual devem todas as industrias do país e que à construção naval se dedicou com entusiasmo, tendo sido nos estaleiros do Barreiro o iniciador em Portugal da construção de navios em ferro..."


Deixem-me abrir aqui um parenteses para referir que de facto este estaleiro existiu, localizado no porto privativo do Complexo da CUF no Barreiro. Foi criado com o fito de dar apoio à emergente frota da Sociedade Geral, sendo ali fabricados rebocadores (como o Estoril em 1931) e navios (como o Costeiro II em 1933, sendo à época o maior navio mercante em ferro construído em Portugal). Em 1937 com a concessão do Estaleiro do Porto de Lisboa à CUF, as suas actividades cessam, sendo transferidas na totalidade para a Rocha Conde de Óbidos.

 Mais à frente no seu discurso D. Manuel de Mello irá afirmar que Portugal "...precisa na realidade de aumentar a sua frota mercante. Todas as províncias ultramarinas necessitam contacto directo e frequente com a Metrópole. É indispensável que a bandeira portuguesa volte a flutuar nos barcos que hão-de aproar à India, a Macau, Timor e também às nações onde temos colónias populacionais importantes, como o Brasil e os Estados Unidos da América do Norte. 
Alguma coisa têm feito já os armadores no que se refere ao aumento das frotas. É, porém pouco por enquanto, para o necessário. Mas mais não era possível fazer. 
Os recursos são poucos e a Marinha Mercante portuguesa não se tem aproveitado da guerra para amealhar fartos proventos. 
Permito-me em nome dos armadores...pedir a V. Exa., sr. Presidente e a V. Exas. srs. Ministros que olhem para a Marinha Mercante não só com o carinho posto em tudo quanto é de interesse nacional, mas que a tratem com desvêlo e os cuidados especiais que merece, a um pai, o filho doente.
Muito doente mesmo.
À insuficiente mas incansável Marinha Mercante nacional se deve, na hora difícil e atribulada que atravessamos, ter proporcionado ao país, numa faina esforçada e constante, parte do indispensável à nossa alimentação.
Já por essa demonstrada insuficiência, já pelo trabalho aniquilante que se lhe tem exigido, impõe-se a construção de mais barcos, construção que deve ser levada a efeito em Portugal, desde que tenhamos operários e engenheiros competentes. 
Terão de modificar-se os estaleiros, designadamente este da Administração do Porto de Lisboa, para que seja possível construírem-se navios de maior tonelagem do que até aqui, mas e desideratum nacional do desenvolvimento da frota mercante portuguesa só se conseguirá desde que se restabeleça, mas em condições interessantes, um subsídio à construção, aliviando-a também de encargos que sobre ela hoje pesam."

Estas satisfações seriam concedidas aos armadores no ano seguinte com o chamado Despacho 100 da autoria de Américo Thomaz então Ministro da Marinha. 

No final do seu discurso D. Manuel de Mello irá justificar o nome dado ao navio: "Tomou este novo barco o nome de «São Macário», santo patrono dos caldeireiros e, assim prestamos homenagem ao esforço e boa vontade demonstrada pelos operários nas construções que temos realizado neste estaleiro". 





Este navio esteve ao serviço da Sociedade Geral até 1972, ano em que transita para a CNN com a fusão destas duas companhias. Em 1974 será vendido à Componave sendo rebaptizado de «Silmar»

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

O Congresso da ISMA - 1954

Entre os dias 24 e 30 de maio de 1954 realizou-se em Lisboa um Congresso Internacional de Superfosfatos (I.S.M.A. - International Superphosphate and Compound Manufacturers Association) que contou com a presença de representantes das seguintes nações: Portugal, Espanha, França. Inglaterra, Irlanda, Suiça, Alemanha, Itália, Bélgica, Suécia, Noruega, Dinamarca, Finlandia, Holanda, Estados Unidos, Africa do Sul, Norte de África, India e Nova Zelândia.

Postal do Casino Estoril

O banquete inaugural reuniu cerca de 500 pessoas e decorreu no Casino Estoril, sendo presidido pelo secretário de Estado do Comércio e Industria. No fim do banquete o Dr. Jorge de Mello na qualidade de representante da Indústria Portuguesa a este congresso saudou todos os presentes. Depois de agradecer as facilidades concedidas pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros para a realização deste congresso referiu que a indústria portuguesa de superfosfatos não existiu entre nós até ao ano de 1908. Focando-se depois na actualidade referiu a existência de três empresas nacionais produtoras de Superfosfatos cujas suas fábricas foram totalmente modernizadas depois da última guerra. De seguida
Dr Jorge de Mello
frisou: "Fazemos face a todas as necessidades imediatas da Lavoura metropolitana e ultramarina e estamos preparados para os aumentos de consumo que derivarem da activa politica de fomento agrário do nosso Governo. Mas, enquanto o mercado interno não se desenvolver suficientemente sobram-nos largas disponibilidades para exportação, quer por possuirmos grandes fábricas modernas e bem apetrechadas; quer devido às existências de pirites no nosso País; quer ainda pela sua posição geográfica, relativamente aos jazigos de fosfatos do Norte de África, Portugal estaria hoje em condições de ocupar posição de maior destaque na exportação de superfosfatos se tivesse querido colaborar mais activamente na desordem internacional de preços." Falaram de seguida os Srs. Colbejornsen e Grandgeorge manifestando palavras de reconhecimento aos organizadores do Congresso. O Presidente do I.S.M.A. Sr. Biro agradeceu a festa e por ultimo o Subsecretário do Comércio referiu-se à necessidade da intensificação da lavoura nacional, por forma a dar resposta ao elevado ritmo de crescimento da população nacional.

Casa São Cristóvão no Estoril onde decorreu o Cocktail 
O local escolhido para a realização das reuniões deste Congresso, foi a sede da Associação Comercial de Lisboa. E como não poderia deixar de ser da praxe, entre estas reuniões, realizaram-se visitas turísticas e almoços de confraternização. No dia 26, os membros do Congresso visitaram os arredores de Lisboa tendo visitado o Palácio de Queluz, de seguida foi servido um almoço nos jardins do Palácio de Monserrate a convite da Câmara Municipal de Sintra. À tarde, D. Manuel de Mello ofereceu na sua casa do Estoril um cocktail aos congressistas.

No dia seguinte a comitiva rumou a Vila Franca de Xira, mais concretamente à Estalagem do Gado Bravo, local escolhido pelas empresas das minas de S. Domingos, Lousal e Aljustrel para oferecer o almoço aos congressistas. Durante o repasto os 400 congressistas poderam admirar danças e cantares caracteristicos da leziria ribatejana, tendo-se distinguido os seguintes solistas: Manuel Rabaça, Maria Paixão e Maria das Graça. Seguiu-se uma garraiada em que tomaram parte os cavaleiros Manuel Conde e Francisco Mascaranhas.


Capa do Menu


Menu do Almoço

Complexo da CUF no Barreiro

No dia 28 os delegrados do I.S.M.A. visitaram demoradamente as fábricas da CUF no Barreiro sendo acompanhados pelo Sr. D. Manuel de Mello, Nicolas Gregori, José Manuel de Mello e eng. Eduardo Madaíl administradores daquela empresa, bem como pelo Dr. Jorge de Mello, delegado a indústria portuguesa ao conselho da Associação Internacional de Fabricantes de Superfosfatos. Depois de terminada a visita foi oferecido pela administração da CUF um almoço, no meio do qual o Sr. D. Manuel de Mello usou da palavra, merecendo sem sombra de duvida serem lidos os seguintes excertos:

"Dirijo-me a homens de trabalho para quem o estudo, o espirito de decisão e a actividade valem mais do que a oratória. Tal como os congressistas, entendo que os ruídos de uma fábrica em laboração valem mais do que um discurso. Direi mesmo: para visitantes de alta categoria social e industrial de V. Exas. valem mais do que qualquer outra homenagem. Escutemos, então, o que esta fábrica nos está dizendo pelas voz de suas máquinas.

Ela quer contar-nos a sua história, as suas grandes dificuldades iniciais, o seu lento progresso , as lutas constantes, as desilusões e as vitórias. É, afinal, a história de quase todas as grandes fábricas que pelo Mundo têm sido geradas por esse inigualável factor de fomento que se chama iniciativa privada. Mas esta fábrica fala-vos, principalmente do homem, tantas vezes incompreendido, que a soube criar e fazer grande. Do homem que, mesmo no túmulo, permanece junto dela, como que a dirigi-la ainda com o seu espírito imortal e a extraordinária força de vontade que para nós, seus sucessores continua sempre viva. Muitos de V. Exas. o conheceram e com ele conviveram em reuniões e congressos internacionais.

Alfredo da Silva, com audácia, inteligência e tenacidade, com o mais são, mais útil e mais indiscutível patriotismo, foi o primeiro industrial português do seu tempo, em época em que as grandes iniciativas económicas não tinham ainda o devido acolhimento entre nós. Deu-nos exemplo magnifico, exemplo que frutificou. Apontou-nos o caminho do futuro. Soubemo-lo seguir. Antes de Alfredo da Silva se lançar no fabrico de superfosfatos, faltavam quase totalmente á lavoura nacional os adubos nacionais, motivo por que ela se encontrava á mercê das guerras e outras causas de dificuldades de abastecimento do estrangeiro.

Fabrica de Superfosfatos da C.I.P.

Hoje além desta fábrica que estão escutando, existem em Portugal mais duas outras, a da SAPEC de Setubal e a da Companhia Industrial Portuguesa na Póvoa de Santa Iria cuja soma de capacidade de produção atinge cerca de 650.000 toneladas a mais de superfosfatos, equiparadas portanto, para todas as necessidades actuais da lavoura metropolitana e ultramarina e para os aumentos de consumo previstos. Portugal, que soube conquistar o seu lugar como exportador de superfosfatos, deseja mantê-lo, para o que tem direito incontestável."

D. Manuel de Mello
O Sr. D. Manuel de Mello concluiu dizendo:

"Ao receber visitantes tão ilustres, esta fábrica inscreve os seus nomes, a letras de ouro, na memória dos seus dirigentes. Em meu nome pessoal e no conselho de administração da Companhia União Fabril, brindo por V. Exas. pela prosperidade das obras económicas e sociais que dirigem e faço votos  ardentes para que o congresso do I.S.M.A. contribua para a cooperação internacional cada vez mais forte e portanto, cada vez mais util para todas as nações nele representadas."

De seguida o Sr. Douglas Bird usou da palavra agradecendo em seu nome e dos delegados o prazer que a Companhia União Fabril lhes proporcinou de visitarem as suas fábricas do Barreiro. O representante da Holanda, Sr. J. D. Waler agradeceu a recepção dispensada e brindou a Portugal. Por ultimo o Subsecretário do Comércio e Industria, regozijou-se com o facto de o congresso ter sido realizado no nosso país, permitindo aos delegados conhecer a realidade do nosso desenvolvimento industial, bem como das gentes portuguesas.

Após o almoço os congressistas dirigiram-se para Belém, para ali visitar o Museu dos Coches, seguindo depois para o Castelo de S. Jorge.

Fontes consultadas:

- O Século, Diário de Noticias, Diário Popular

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Alfredo da Silva faleceu há 75 anos



Para o espírito inquieto de Alfredo da Silva nada melhor do que celebrar os 75 anos do seu desaparecimento, com o legado da sua obra muitas vezes multiplicada e alargada pelos seus sucessores, nas pessoas de D. Manuel de Mello, e Jorge e José Manuel de Mello. 

Em 1971, quando passavam respectivamente 100 anos do seu nascimento e 29 anos da morte do seu criador e patrono, a CUF decidiu dedicar-lhe um filme documentário intitulado "Um Homem, uma Obra" 

É um filme de 17 minutos, a cores, com realização de Alfredo Tropa e Eduardo Elyseu, produção de Fernando Almeida, Direcção de Produção de Baptista Rosa, Fotografia de Elso Roque, Sonoplastia de Raul Ferrão e com a locução de uma voz inesquecivel da rádio e da televisão da época: Pedro Moutinho.

Na parte inicial deste documentário é feita uma sintese da revolução social e industrial  bem como da introdução de novas tecnologias até à primeira guerra mundial, feito através de figuras e fotografias. Daí por diante centraliza-se na figura de Alfredo da Silva recorrendo a fotografias da época do grande industrial, versus a moderna realidade apartir de vistas aéreas do que era o complexo em 1971, tratamento de cinzas de pirite, UFA, Metalurgia do Cobre, Caldeiraria, etc.

Para além da CUF são ainda apresentadas imagens da Lisnave, Sociedade Geral, Compal, Tabaqueira, Tinco, Teledata.

Refira-se ainda os interessantes testemunhos de Carlos Rei, Luis Almeida Guerreiro, José Rodrigues dos Santos, sobre a figura de Alfredo da Silva

Mas detenhamo-nos por algums momentos nas duas primeiras figuras, que referi pois têm a sua importância para a CUF, apesar de pouco conhecidas pela maioria das pessoas.

Carlos Rei - o homem que salvou a vida a Alfredo da Silva em Leiria em 1921. Portugal vivia por essa época um periodo bastante conturbado, quer a nivel social, politico e economico, face aos reflexos ainda latentes do grande conflito mundial. A 19 de Outubro desse ano eclodiu em Lisboa um movimento que ficou conhecido pela "Noite Sangrenta", no qual forças radicais de esquerda afectas à GNR e à Marinha, desencadearam uma tentativa de golpe de estado, tendo sido assassinados António Granjo, Machado dos Santos, José Carlos da Maia, entre outras figuras, na ainda hoje misteriosa "camioneta fantasma"  que andou a deambular pelas ruas de Lisboa nessa madrugada. Avisado que o seu nome constava nas listas de pessoas a abater, Alfredo da Silva decide apanhar o comboio rumo ao exílio em Espanha, voltando a viver em Portugal somente apatir de 1927 após a instauração da Ditadura Militar. 

Mas sobre este episódio nada melhor que transcrever o depoimento que este senhor deu à Revista Flama a 25 de Junho de 1971:  «Estávamos em Outubro de 1921. Alguns dias depois do "19 de Outubro". Eu era segundo-sargento de Infantaria 7. Tinha vindo de França. Da Guerra.», começa a contar o septuagenário de cabeça já branca, mas voz ainda forte, relembrando, amiúde, que já lá vão cinquenta anos. Cinquenta anos que, agora, lhe confundem um tanto as ideias. Todavia, vai dizendo com orgulho: «Naquela altura havia duas facções. Era a democratica e a outra, a contrária, a anti democrática. Eu pertencia a esta, a do Governo. Residia em Leiria, e fora nomeado um novo governador civil. O povo, por seu lado nomeara um administrador de concelho (ainda existia o cargo nesse tempo) ilegalmente porque tal competia ao governador. Era um tal tenente Lopes que a facção democrática queria para administrador. Ele estava colocado fora de Leiria, e mandaram-lhe um telegrama para se apresentar na cidade. Convergiu tudo para a estação dos caminhos-de-ferro. Também fui com os do meu grupo, para impedirmos que o tenente Lopes tomasse posse.
  Acontece que Alfredo da Silva viajava no mesmo comboio a caminho de Espanha, do exílio, soube mais tarde. O tenente Lopes, apercebendo-se que ele estava no comboio, começou a denunciá-lo àquela multidão. Alfredo da Silva, então assomou a uma das portas e disse: "Alfredo da Silva sou eu. Que me querem?". Estabeleceu-se a confusão, e daquela turba partiu um tiro que o atingiu. Agarram-no e meteram-no numa camioneta para o levar para o hospital. Fui nela com mais outros rapazes e, numa praça da cidade (a de Rodrigues Lobo) fomos assaltados pela multidão. Pegaram em Alfredo da Silva e atiraram-no para o chão. Desci da camioneta, era novo , e opus-me a que o agredissem de maneira bárbara. Ainda levou alguns pontapés. Acabavam de o matar se não tenho sido eu e mais alguns rapazes. Ainda surgiu um sapateiro com uma caçadeira carregada com zagalotes. Só tive tempo de levantar a espingarda e o tiro partiu para o ar. A multidão enfureceu-se mais, atiraram-se a mim e, no meio daquilo tudo, apareceu o comandante de Infantaria 7, coronel Oliveira - era boa pessoa - que me defendeu e ordenou o transporte do senhor para o hospital.
 Três dias depois Alfredo da Silva chamou-me ao hospital e, diante do coronel Oliveira, agradeceu-me o que eu lhe tinha feito e disse-me para lhe pedir o que quisesse. Respondi-lhe que nada queria, porque o que tinha feito a ele, tê-lo-ia feito a qualquer outra pessoa. Nem mesmo sabia quem era o senhor. Mais duas vezes me chamou para agradecer e para eu lhe dizer o que queria que fizesse por mim. Da última indagou das possibilidades de eu sair da vida militar e se queria ir para a CUF. Nessa altura, mandei perguntar para uns familiares em Lisboa quem era Alfredo da Silva e o que era a CUF. Disseram-me que a CUF era uma empresa grande e ele um grande industrial, etc. Então agradeci-lhe o oferecimento e aceitei. No dia um de Novembro apresentava-me ao trabalho no Barreiro, como encarregado do Cais. Reformei-me há doze anos como tesoureiro do estaleiro naval. Ao senhor Alfredo da Silva vi-o algumas vezes na sede, mas de vez em quando visitava as secções. Está claro que nunca mais falámos sobre esse assunto. Ele era uma pessoa muito especial.»

Luis de Almeida Guerreiro - um dos pioneiros da empresa, admitido a 1 de Dezembro de 1908, serviu-a com extrema dedicação durante 55 anos! Iniciou a sua carreira na Fábrica Sol, porém passados apenas 3 anos, Alfredo da Silva chamou-o para ir dirigir a nova fábrica de extracção de azeite de bagaço no Barreiro para onde se mudou definitivamente. O seu primeiro vencimento foi de 35 escudos mensais na Fábrica Sol, e quando foi transferido para a outra margem do Tejo passou a receber 50 escudos, casa, água, luz e lenha. Em Janeiro de 1915 assumiu as chefias das Construções onde se manteve durante 44 anos! Teve também a seu cargo durante largos períodos a direcção de algumas actividades relacionadas com a obra social da Empresa, como a Dispensa, a Padaria e os Refeitórios sendo ainda Chefe dos Serviços de Incêndios. Desempenhou cargos directivos no Grupo Desportivo da CUF, tendo sido Presidente da Assembleia-Geral durante 8 anos e de Presidente da Direcção do Clube em 1948. 

     
E resta-me terminar com a frase que remata este filme, que de facto sintetizava tudo aquilo que era o pensamento da Empresa nos inicios da década de 70:

"Está ali um embrião de novas técnicas e de maior riqueza. Está ali um Futuro melhor. Hoje, prepara e convive com o Amanhã"

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

In Memoriam - Jorge de Mello 1921-2013

Esta semana fica marcada pelo desaparecimento daquele que para muitos foi considerado o ultimo industrial português (quando me refiro ao termo "industrial" é de facto na acepçao pura e dura de criaçao de industria seja ela pesada ou ligeira). Por isso venho até vós para prestar o meu ultimo tributo a esta personalidade para a qual sempre olhei com grande admiraçao. Se uns têm por idolos jogadores de futebol, cantores, actores, há tambem aquele que olham para homens os industriais e empresarios, cujas suas visoes empresarios contribuiram para o progresso do pais nas mais diversas areas. É esse o meu ultimo caso.

 De seu nome completo Jorge Augusto Caetano da Silva José de Mello, nasceu em Sintra em 1921 no seio de uma familia aristocrática com elevado peso no tecido produtivo da nação.  Desde cedo lhe fizeram compreender a importancia de ser um Mello e de ter por avô Alfredo da Silva. Vivendo uma infancia repartida entre Sintra e Estoril, Jorge de Mello fez os primeiros estudos na Escola Primaria de Cascais, ingressando depois no Colégio Infante de Sagres. No seu livro de memórias Jorge de Mello refere que:

"nunca senti nenhum previlégio especial, nem os meus pais alguma vez alimentaram essa ideia, quer comigo, quer com as minhas irmãs e o meu irmão. Ia para a escola a pé. Quando chovia, lembrava-me que havia automoveis na garagem, que estavam parados mas nunca tive a ousadia de falar nisso à minha mãe. É verdade que tinha gabardina e os meus colegas de escola, que apanhavam a mesma chuva, talvez não tivessem sapatos com solas tao grossas como os meus. Mas essa diferença não era sentida por mim, não era importante não me sentia diferente deles."

Efectuou depois os estudos superiores (muito a contra gosto) no Instituto Superior Técnico (ali se manteve ate ao 2 ano do Curso, tendo interrompido o mesmo para cumprir o serviço militar  entre 1942 e 1945) onde Jorge se deveria formar em Engenharia Quimica, como era vontade expressa do seu avô. Porém Jorge sempre manifestou grande interesse pelo universo da gestao economica, assim e apos a morte do seu avô decide inscrever-se no ISCEF, passando a ter uma vida bastante preenchida. Nestes primeiros anos, os estudos e as responsabilidades que lhe sao atribuidas na CUF ocupam-lhe muito do seu tempo.

Jorge entra para a empresa em 1945, nunca epoca na qual a empresa estava a passar por grandes transformaçoes e modernizaçoes, que foram fulcrais para o crescimento e consolidação da CUF em novos sectores economicos do pós-guerra. É restruturado e fortalecido o seu quadro de pessoal tecnico, aumentado o seu nivel cientifico, com o recrutamento gradual e selecionado de dezenas de engenheiros, economistas, médicos, e outros especialistas para o desenvolvimento ou criação de novos serviços.  É feita uma aposta muito signficativa na area tecnica e na area de investigação de forma a criar condições para se atingirem niveis de produtivade e eficiencia paralelos aos observados em países estrangeiros mais desenvolvidos. Neste periodo é descoberto a seu pai (D. Manuel de Mello) a doença de parkinson, o que leva Jorge e o seu irmão José a assumirem responsabilidades e cargos de cada vez maior importãncia nos destinos da companhia. Durante este perido para alem dos negocios estará intimamente ligado à criaçao da Colonia de Férias da CUF, localizada em Almoçageme e inaugurada em 1950, destinada aos filhos dos trabalhadores. Amante do Desporto, praticava, ténis, futebol, hoquei e tiro, chegando mesmo a ser campeao nacional desta modalidade. Sempre demonstrou grande carinho pelo Grupo Desportivo da CUF (apesar de ser um fervoroso adepto do Sporting) e sempre o tentou dinamizar o mais possível. Deslocava-se frequentemente ao Barreiro para ir assistir aos jogos de futebol do Clube. Como grandes iniciativas deste periodo pode-se destacar a criação da UFA em Alferrarede que produzia amoniaco electrolitico, a construção no Barreiro da primeia fábrica nacional de granulação de adubos (1951), e a criação da fabrica de tintas Tinco (em associação com a multinacional inglesa I.C.I). Ou ainda a participaçao da empresa através do seu sector melato-mecanico, nas mais variadas obras publicas (construção de condutas forçadas, pontes rolantes, equipamentos para barragens, fabricas etc.) do esforço de modernizaçao nacional do pós-guerra.



Se a década de 60 foi a época de ouro da economia nacional com crescimentos superiores aos da média europeia à procura de uma rápida aceleração/transformação do tecido produtivo e das actividades economicas, nao o foi menos para a CUF. A empresa abre novos horizontes, exporta para paises que até então nenhuma empresa portuguesa sonhara fazê-lo: Japão, Australia, Egipto, Alemanha, Estados Unidos, Europa do Norte, Bulgária etc, comprovando a qualidade dos seus produtos, bem como a capacidade concorrencial da empresa. Abarca novas áreas de negócio como a Hotelaria/Turismo, Alimentar, Estudos de Mercado, Bioquimica etc. Manuel de Mello era já um homem muito doente, e quem geria verdadeiramente o Grupo empresarial era Jorge e o seu irmão, José, a quem coube o merito da criação dos Estaleiros da Lisnave, o primeiro empreendimento português vocacionado a 100% para o Estrangeiro.

Em 1963, Jorge de Mello é um dos mentores da C.I.E. - Comissão Interna da Empresa, que pertendia ser um elo de ligação entre os trabalhadores e a administração. Reunindo uma vez por mes na sede da CUF (Av. Infante Santo)  membros da administração e representantes dos varios sectores industriais da empresa debatiam desde, assunto relativos às fabricas, segurança no trabalho, escola da cuf, colonia de férias, dispensa operaria, etc. Segundo se diz à época o próprio governo do Estado Novo ficou alarmando com tal coisa, achando que poderia trazer grandes maleficios para a empresa e para o trabalho nacional, mas tal não aconteceu. O empresario limitou-se a aplicar um modelo já existente em paises mais desenvolvidos, onde as relações inter-laborais, eram vistas com outra preocupação social.


Em Outubro de 1966 com a morte D. Manuel de Mello, Jorge irá naturalmente ascender à presidencia da empresa, cargo que irá ocupar até 1975. No inicio dos anos 70, quando o Grupo CUF ja se preparava para assumir projecção internacional havia uma especie de cantilena que dizia assim: "Oh meu Portugal tão lindo,/ oh, meu Portugal tão belo,/ metade é Jorge de Brito, / metade é Jorge de Mello. Durante este periodo o Grupo para alem de uma constante aposta na modernizaçao das suas fábricas, procura novos processos de fabrico, estende de novo a sua actividade a outros sectores da vida económica, (Frio Industrial, Decoraçao de Interiores, Marmores, Casinos, Cargas e Descargas Martitimas, Montagens Industriais, Super e Hipermercados, Restaurantes e Refeitorios etc.). São efectuadas joint-ventures com reputadas empresas internacionais, caso da Mitsubishi nas fibras sintécticas, a Billerud no fabrico da Pasta de Papel, ou da Kawasaki nos estaleiros navais etc. Juntamente com esta medidas o Grupo CUF aposta na sua internacionalização sendo criadas as primeiras empresas no estrangeiro, casos da Interacid (Suiça), da Intercuf (Brasil), ou da Navelink (Suiça). A partir de 1973 essa mesma estratégia de internacionalização passa por um sério investimento no Brasil, onde a CUF pretende ganhar posiçao na industria adubeira, fabrico de tabaco, alimentação e construção/reparação naval. Ao mesmo tempo a Companhia continuava a participar nos maiores projectos de desenvolvimento económico nacional, caso no novo Estaleiro Naval de Setubal (Setenave) e do Complexo Industrial de Sines, na qual a CUF juntamente com a Sonap, começaram a construir a partir de 1973 uma refinaria de petroleos com uma produçao anual de 10 milhão de toneladas/ano. (que nos pós 25 de Abril passará para as maos a Petrogal). Esta é tambem a fase em que o industrial manda chamar a prestigiada consultora Mckinsey por forma a reestruturar um Grupo cada vez mais complexo, em que alguns dos seus sectores atingiram já a saturaçao de vendas no mercado interno, sendo necessario prescutar novos mercados, sectores a investir, e reconversao dos existentes.

Com o 25 de Abril de 1974 e as mudanças radicais ocorridas na politica e economia nacional, ditam no ano seguite a nacionalizaçao do Grupo CUF. Para se perceber a sua dimensao e importancia no tecido economico nacional refira-se apenas que nele trabalhavam mais de 110 mil pessoas, em mais de 150 empresas diferentes, que produziam mais de 1000 produtos diferentes, sendo responsavel por 5% de toda a nossa economia. Meses depois do 25 de Abril, o seu irmão José Manuel de Mello, encontra-se com Alvaro Cunhal na sede do partido, numa tentativa de chamar a atenção para o facto de que a destruição não levava a nada. Cunhal ouviu e concordou em parte. Segundo José de Mello "na altura as pessoas ouviam mas nao acontecia nada" Juntamente com o seu irmão, Ricardo Espirito Santo, Antonio Champalimaud, Jorge de Brito, Mario Vinhas e outros empresarios criar a MDE/S (Movimento Dinamizador Empresa/Sociedade) numa tentativa de lançar as bases de uma moderna economia liberal de tipo ocidental. Mas os tempos não estavam para essas coisas.

Após o 11 de Março de 1975 as condições politicas e sociais do pais agudizam-se e Jorge de Mello bem como os restantes empresarios nao ficam imunes aos novos ventos que se fizeram sentir. Assim a 12 de Março de 1975 o COPCON cerca pelas 18 horas a sede da CUF levando o empresario para Caxias onde ficaria detido durante uma semana. E so lá esteve esse curto perido graças à pressão exercida por várias personalidades nacional e estrangeiras, de onde sobressai a figura do Presidente da Republica françês Valérie Giscard d´Estang.

Em pleno PREC o dia a dia nas empresas era feito pelas comissoes de trabalhadores, que ontrolavam tudo e todos, efecuando longos plenarios onde era tudo era discutido e debatido. Perante tal cenario, Jorge de Mello sabia que naquele momento permanecer no pais, era perda de tempo. Preferiu não assistir ao golpe final desflorado em Setembro através do Decreto-Lei 457/75 na qual o governo nacionaliza por fim  CUF. Partirá para Suiça ali permanecendo três anos, seguindo depois para o Brasil para um exilio, que so acabará em 1980 ano que regressará definitivamente a Portugal. Fico  também dedicido pelos irmãos que dali para a frente, os negocios seriam repartidos. Numa entrevista o empresário explicou:

"Tem sido muito explorado o facto de sermos dois irmãos e de cada um ter o seu pequeno grupo. É que a nós foi-nos tirado tudo. Cada um de nós, o meu irmão, eu e as minhas irmãs recebemos como indemnizações aquelas titulos da divida pública, a 2,5% por 28 anos. Aquilo não dava para fazer muito: por isso, combinei com o meu irmão que cada um ia recomeçar tratando da sua vocação."

 Assim em 1980 Jorge de Mello, decide reinvestir em Portugal, para tal arranja um escritorio onde contava com uma equipa de 10 pessoas. Em 1982 adquire ao IPE - Instituto de Participações do Estado (organismo criado para gerir as empresaas intervencionadas pelo Estado aquando das nacionalizações de 1975) a Alco, empresa de transformaçao de sementes oleaginosas. Para tal teve de vender grande parte do seu património: Quinta de Ribafria, a Herdade do Peral, A Casa do Monte Estorl (que era do seu avó Alfredo da Silva) etc.

Nos anos seguintes o empresario construiu um grupo empresarial vocacionado para industria alimentar, adquirindo antigas empresas pertencentes à CUF, casos da Sovena e da Compal. Em finais dos anos 80 é constituida a Nutrinveste. Esta empresa tornar-se-á a holding do grupo Jorge de Mello para o sector dos oleos alimentares. Será sob a sua égide que em finais dos anos 80 principios de 90 serão adquiridas empresas como a Lusol, Tagol,  ou Fábrica Torrejana de Azeites, que irão catapultar a sua dimensao e volume de vendas. Apesar de ter dito "um empresário nunca se reforma. Não por uma questão de conquista, mas antes de continuidade" em inicios dos anos 2000 entregou os negocios da familia ao seu filho mais velho Manuel Alfredo de Mello.

Nos ultimos anos de vida, o empresário levava uma vida calma, dividida entre os jogos de tenis, cartas, e alguma batidas de caça. Porém em 2005 Jorge de Mello sofreu uma queda na sua casa do Estoril enquanto brincava com os seus labradores. Partiu o colo do femúr e teve de se sujeitar a um periodo de fisioterapia. Infelizmente no fim do perido de recuperaçao sofreu um AVC e entrou em coma. Só recuperou a consciência  meses mais tarde, ficando incapacitado de andar e de falar. Aos 92 anos partiu para sempre deste mundo deixando o seu legado. Fechou-se para sempre o derradeiro ciclo da história da CUF. A sua ultima morada é o Cemitério de S. Marçal onde foi sepultado no jazigo de familia.

Até sempre meu idolo!!!

Para rematar esta minha sentida homenagem deixo aqui um pensamento que se encontra no seu livro de memorias. Apenas akguem com inteligencia superior e dotada de um grande sentido de visão poderia escrever isto:

"E quanto à riqueza, conheci muitas pessoas em Portugal, de quem nunca se falou, que eram e são muito mais ricas do que eu. E é claro que bastava passar a fronteira para encontrar pessoas muito mais ricas e poderosas do que eu alguma vez poderia ser em Portugal. A ideia de riqueza é muito mais um produto da imaginação dos que não se sentem ricos. Um dia alguem me falou do homem mais rico de Potugal, ao que respondi que também já tinha sido disso, com a ironia de quem me conhece a relatividade desses atributos e desses titulos."


domingo, 28 de outubro de 2012

Convite do Almoço de Encerramento das Comemorações do Centenário da CUF




Mais uma vez o meu amigo Norberto Santos surpreendeu-me ao oferecer-me este interessante documento que desconhecia. Trata-se do convite do Almoço de encerramento do centenário da empresa, oferecido pela Administraçao. Este evento ocorreu no dia 8 de Janeiro de 1966, tendo como palco a Nave Central da FIL em Lisboa. Como poderão verificar, a capa encontra-se decorada com o símbolo elaborado para as comemorações dos 100 anos da empresa.

Estiveram presentes neste evento mais de 3000 pessoas. Da parte da administração estiveram presentes no almoço, D. Manuel de Mello, os filhos Jorge e José de Mello, bem como os restantes administradores da Companhia, Eng. Rocha e Mello, Vasco de Mello, Conde de Alcáçovas, Dr. João Salgueiro, D. Diogo de Mello e Dr. Fracisco Castro Caldas.

O Boletim de Informação Interna da CUF descreve da seguinte forma o acontecimento: "Esta reunião proporcionou, e era esse o seu objectivo principal, algumas horas de franco convívio entre alguns dos que constituem  a grande Família CUF. Estiveram presentes representações do Pessoal de todo o País onde a Companhia exerce a sua actividade, tal como, do Barreiro, Lisboa, Porto, Alferrarede, Ansião, Canas de Senhorim, Mirandela e Soure, Beja, Faro, Coimbra, Castelo Branco, Évora, Estremoz, Santarém, Viseu, Vila Real, Bombarral, Caldas da Rainha, Lourinhã, Torres Vedras, Coina, Moita, Sabugo, Malveira, Cascais, Braga, Famalicão, Barcelos, Viana do Castelo, Aveiro, Chaves, Régua, Bragança, Setúbal, Lagos, Cacém, Ponte de Sôr, Portalegre, Vale do Peso, Benavente, Tomar, Torres Novas, Sabugal, Guarda, Duas Igrejas, Mogadouro, Castelo Branco, Covilhã, Fundão, Cantanhede, Oliveira do Bairro, Pombal, Pampilhosa do Botão, Quintas e Amorim."

 Um aspecto do Almoço


Observe-se ainda que juntamente com este convite, vinha ainda em parte destacável, o respectivo titulo de transporte assegurado pela empresa:



quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A C.T.A. - Companhia de Transportes Aereos

Esta, é provavelmente uma das companhias menos conhecidas e faladas, que integrou o Grupo CUF, até pela sua singularidade. Quem é que afinal sabia que a CUF teve uma companhia de aviação? Arrisco a dizer que certamente serão poucas pessoas as que sabem tal facto, provando mais uma vez o pioneirismo da CUF em muitos sectores, até mesmo o da aviação. Pois bem, essa é a interessante e curiosa história que hoje aqui vos trago.

A 19 de Julho de 1945, a Sociedade Continental de Transportes Aéreos, é transformada na C.T.A. com o objectivo de explorar linhas aéreas no território nacional ou fora dele. Aquando da sua fundação o capital desta sociedade era de 5.000 contos, subscrito e divido pelos seguintes accionistas:

- Daun & Bleck, Limitada, 500.000$
- Carlos Eduardo Bleck, 250.000$
- D. José de Saldanha, 250.000$
- Manuel Augusto José de Mello, 300.000$
- Sociedade Geral de Comércio, Industria e Transportes Limitada, 2.000.000$
- José Inácio Castel-Branco, 100.000$
- Dr. Luiz Albuquerque de Sousa Lara, 300.000$
- Sousa Lara & Filhos Limitada, 500.000$
- Fernando Enes Ulrich, 100.000$
- Dr. António Garcês, 100.000$
- António de Sommer Champalimaud, 200.000$
- Dr. José de Sousa e Melo, 200.000$
- João Maria José de Mello, 100.000$
- Dr. Alvaro Belo Pereira, 100.000$

Como se pode ver pela lista atrás apresentada, vamos nela encontrar nomes sonantes da economia nacional, como António Champalimaud, a família Sousa Lara que detinha grandes investimentos no Ultramar, ou os Ulrich ligados a diversos interesses económicos. A maioria do Capital accionista (2.300.000$)é detida pela Sociedade Geral e Manuel de Mello, colocando assim esta Holding da CUF no comando desta nova empresa. Será no dia 2 de Dezembro de 1945 (4 meses após a constituição desta sociedade) era oficialmente inaugurada pelo Presidente da República Óscar Carmona e demais membros do Governo a carreira Lisboa-Porto-Lisboa. Apresenta nesse mesmo ano a filiação na I.A.T.A. (International Air Transport Association, que ainda hoje é a mais alta autoridade internacional do transporte aéreo) sendo esta aceite.

A sua frota era constituída por um Percival Proctor, e por três bimotores DeHavilland DH-89 cujas matriculas eram as seguintes: CS-ADI, CS-ADJ e CS-ADK, todos adquiridos na Inglaterra. Posteriormente um destes bimotores foi adquirido pela Aeronáutica Militar em 1950, podendo ser vista hoje no Museu do Ar em Sintra. Mais tarde são ainda adquiridos à Força Área dos Estados Unidos dois Douglas C-47A (CS-TDX e CS-TDZ) sendo a sua adaptação aviação civil sido feita por pessoal das Oficinas Metalomecânicas da CUF. A C.T.A. vai construir toda uma infra-estrutura de apoio as suas rotas aéreas, para isso constrói hangares privativos nos Aeroportos de Lisboa e Porto, com oficinas , armazéns, operações de voo, equipamento de rádio, salas de pessoal navegante, cantinas etc. Por essa altura o pessoal ao serviço da C.T.A. deveria de rondar o numero de 70 pessoas, numero que teria tendências a subir com a expansão da Companhia. Havia já planos de expansão delineados por fases, em 1946 o objectivo seria inaugurar uma carreira Lisboa-Madrid com um serviço diário, pedindo autorização para tal ao Governo, sendo esta recusada, ficando outros projectos na gaveta, como as Linhas Internacionais no Continente Europeu, e obviamente aquilo que então se designava pelas Linhas Imperiais de modo de ligar a Metrópole com as principais cidades do seu Ultramar. Para essa expansão tinha já a C.T.A. pensado adquirir 4 Douglas DC-4 "Skymaster" e também Douglas DC-6 aviões já de grande capacidade e com maior alcance aéreo.

Podemos dizer que à C.T.A. de certa maneira foram cortadas as pernas. Devido à politica do Governo, e de homens como o sobejamente conhecido Secretário da Aeronáutica Civil Humberto Delgado, preferiu-se reorganizar o Transporte Aéreo em Portugal, chamando as Autoridades tais responsabilidades, preferindo deixar cair a C.T.A. (talvez por esta estar nas mãos de privados) e criar assim os Transportes Aéreos Portugueses (T.A.P.) cuja metade do capital accionista estava nas mãos do Estado sendo o restante subscrito por privados. A linha Lisboa-Porto-Lisboa é suspensa em 1947, e a C.T.A. seria liquidada definitivamente em 1949.

E desta efémera e interessante história falta apresentar um interessante e raro lote de documentos respeitantes a esta empresa, isto porque uma tal Madame Silva (que é como está escrito no bilhete) que na epoca tinha 23 anos, guardou tais documentos, talvez como recordação, e assim chegaram ás minhas mãos, sendo um testemunho da breve história da C.T.A. Para ver em detalhe basta clicar nas imagens para ver em tamanho ampliado.


A Capa do Mapa com a Viagem a ser efectuada pelo avião

Contracapa do Mapa

Mapa da Viagem

Capa do Bilhete

Talões do Bilhete

Custo do Bilhete (303 escudos em 1946)

Talão de Bagagem (frente)

Talão de Bagagem (verso)

Esta senhora que viajou para o Porto, fez um Seguro Pessoal de Transportes Aéreos, e qual seria a companhia? Só podia ser a Império claro! Sendo também ela pioneira neste tipo de seguros, o custo do mesmo já com todas as despesas incluídas era de 20 escudos. Aqui fica o envelope enviado pela C.T.A. com a respectiva apólice e o cartão de cumprimentos da seguradora



Apólice (frente)

Apólice (verso)

Cartão de Cumprimentos

Bibliografia:

- Estatutos da C.T.A.
- Relatórios de Contas da C.T.A.
- Boletim da C.T.A. (1946)
- Historia da Aviação Civil em Portugal

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Reportagem Vida Mundial: Thorsten Andersen & João Rocheta

No seguimento do post anterior, fui ao meu baú de revistas de descobri esta curiosidade. No dia em que precisamente era inaugurado o Estaleiro da Margueira, a conceituada revista "Vida Mundial" uma belíssima magazine semanal existente entre nós durante os anos 60 e 70 publicava uma reportagem, sobre dois grandes obreiros do novo empreendimento. Compartilhando os cargos de Directores-Gerais da Lisnave, Thorsten Andersen foram os homens-chave por detrás do sucesso e futuro crescimento da empresa. Esta é também a minha homenagem a esses dois senhores, esquecidos ou desconhecidos por muitos, nesta noticia poderão ficar a conhecer melhor estas personagens, para além de uma breve história sobre o empreendimento. (basta clicar nas folhas para aumentar e ler)






sábado, 20 de fevereiro de 2010

Os Nomes de Alfredo da Silva e D. Manuel de Mello na toponimia de Cascais

Não é só em Lisboa e no Barreiro, que podemos ver os nomes de Alfredo da Silva e D. Manuel de Mello ligados á toponímia. Quem for para os lados de Cascais, mais concretamente ao Monte Estoril, verificará que existem duas ruas com os seus nomes. Não será deveras estranho se pensarmos que uma das 3 casas de Alfredo da Silva se situava precisamente nessa localidade, sobranceira à Estrada Marginal e com uma belíssima vista tanto para a Vila de Cascais, como para foz do Tejo.

Foi das primeira edificações modernas dos então chamado "Estoris". A Casa São Cristovão, do risco do arquitecto Tertuliano Marques, foi construída entre 1917 e 1920, com traços do barroco e do joanino, assume ainda hoje uma ideia de grandiosidade e imponência ao local. Esta residência iria ter um lugar primordial tanto na vida de Alfredo da Silva como para a família Mello.

Logo após ter sido terminada, os Mello fazem dela sua residência. Segundo Miguel Figueira de Faria "Manuel de Mello deslocava-se diariamente para o escritório da Rua do Comércio, usando sobretudo, o comboio como meio de transporte". Relembre-se que nesta casa irão nascer dois filhos do casal: Amélia de Mello (1922) e José Manuel de Mello (1927)

É pois natural que o Concelho de Cascais à época tivesse dedicado a tão ilustres e importantes personalidades da vida pública, nomes de rua em forma de homenagem.











Pormenor da Data da Conclusão do edifício na sua chaminé