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sexta-feira, 14 de setembro de 2018

O charme discreto das alcatifas da Festa Patiño

Primavera de Praga
Setembro de 1968, enquanto o mundo estava siderado nos acontecimentos da Primavera de Praga encabeçada pelo reformista Aleksander Dubchek, na escalada da Guerra do Vietname no Sudoeste Asiático, ou no assassinato de Robert Kennedy, o Portugal de Salazar lutava contra os ventos da história, na esperança de ganhar tempo e aliados na sua politica africana, tentando reverter o status-quo a seu favor. Contudo, não foi por essas razões que no final do verão de 1968 o país mais velho da europa se tornou manchete à escala global, mas sim, pela festa que o milionário boliviano Antenor Patiño planeara dar na sua quinta em Alcoitão. Esse evento social que colocou Portugal no roteiro do jet-set internacional era comentado de boca em boca, nas mesas dos cafés e até nos círculos políticos. E não era para menos! Afinal de contas, o milionário ousou chamar-lhe a "Festa do Século" e passou anos a prepara-la.


Antenor Patiño
Mas quem era Antenor Patiño?
Filho de Simón I Patiño, nascido em 1860 tornar-se-ia em finais do século XIX, inícios de XX, no “Rei do Estanho”. Aparentemente existem duas versões de como Simón conseguiu aquilo que todos (ou quase todos) desejam neste mundo: ser rico e famoso. Simón era um modesto empregado de uma loja na cidade de Cochabamba, certo dia entrou-lhe pela loja dentro um cliente sem dinheiro querendo saldar uma pequena divida com um título de propriedade de uma mina sem valor. O empregado acedeu a esse pedido, mas o seu patrão ficou furioso, despedindo-o na hora.  Em vez de lhe pagar a indeminização a que tinha direito, deu-lhe a mina. Numa outra versão Simón era o dono dessa loja e usou as suas economias para comprar um titulo de propriedade de uma mina. O certo é que nessa mina Simón Patiño descobriu estanho,  minério que na época estava a ganhar valor de mercado devido a ser uma matéria-prima cada vez mais procurada pelos diversos usos que tinha na industria. Nos anos seguintes criou o Banco Mercantil (cujo capital era maior que o Orçamento de Estado boliviano) e foi comprando as minas de estanho da Bolívia tornando-se assim no “Rei do Estanho”. Antenor Patiño nasceu em 1896 era o filho mais velho de Simón e acabou por herdar uma fortuna calculada em 200 milhões de dólares, o seu casamento em 1931 com Maria Cristina de Borbón, não foi pacifico e fez correr muita tinta nos jornais e imprensa cor de rosa. Pertencente à família real espanhola, Maria Cristina pôs um processo em tribunal contra Antenor por abandono do lar logo nos anos 40. O processo de divorcio arrastar-se-á pelos tribunais de Paris, Madrid, La Paz e Nova Iorque por mais de 20 anos, até que  no México as aspirações de Patiño foram ouvidas e o divorcio foi consumado, ignorando todos os processos pendentes nos outros tribunais. Entretanto, em 1952, a revolução ocorrida na Bolívia nacionalizou todos os bens da família e Patiño foi obrigado a sair do país. Decidiu visitar Portugal, apaixonando-se pela Costa do Sol, que à época era ainda porto de abrigo de nobres e aristocratas fugidos aos horrores da Segunda Guerra Mundial. Em Alcoitão encontrou o lugar ideal para construir o seu palácio inspirado na arquitectura portuguesa do século XVIII, num terreno que foi crescendo até à dimensão final de 50 hectares. Era ali que Antenor Patiño passava pelo menos dois meses por ano, saboreando o suave verão da Costa do Sol. E era também ali que planeava dar a Festa do Século, por forma a apresentar Beatriz de Rivera como sua esposa a todo o high-life internacional.

Vista aerea da Quinta do Patiño

Para se ter uma noção do que era por essa época a Quinta de Alcoitão, sem maçar muito o leitor aqui fica uma breve descrição:  possuía uma sala de bowling, uma sala de cinema, uma sala para sauna e massagens, uma discoteca, uma imitação da biblioteca joanina da universidade de coimbra, uma pequena casa para as crianças brincarem, um vale com oliveiras, um court de tenis, uma estufa com flores, outra com plantas, uma capela do XVI que fora trazida de uma aldeia do norte de Portugal e construída de novo  na propriedade, uma coudelaria com pistas de aquecimento de saltos e de corridas, uma enorme vinha, dois lagos, uma piscina, um jardim suspenso com 37 canteiros, um campo de golfe, pomares, uma mata extensas plantações de arvores de fruto, e ainda cães, vacas, peixes de aquário, faisões e aves de capoeira, além de uma gigantesco batalhão de 150 empregados!

Porém nesse verão de 1968 Portugal transformou-se, como que por toque de magia, num país de festas e bailes dançantes, às quais ninguém queria faltar, quer fossem figuras do jet-set nacional ou internacional. A 3 de Setembro D. Maria Amélia de Mello (neta de Alfredo da Silva e uma das duas irmãs dos empresários Jorge e José de Mello) ofereceu na sua residência um almoço intimo a algumas das individualidades estrangeiras que se encontravam em Portugal para assistirem às festas das famílias Schumberger e Patiño. Dos 80 convidados saliente-se a presença de Cristina Ford (mulher de Henry Ford II), o estilista Givenchy, Maria Biatriz de Saboia e a esposa do sr. Niarchos (o grande rival de Onassis no mundo da navegação). À noite os Duques do Cadaval resolveram dar uma festa intima para 130 convidados tendo escolhido a Estalagem do Muchaxo para o efeito. Estiveram presentes figuras como a actriz Capucine, Henry Ford II, os Condes de Manique, o próprio Antenor Patiño e muitos outros que iriam abrilhantar as festas seguintes. 

Estalagem do Muchaxo

Audrey Hepburn e Doris Brynner
No dia seguinte chegou Aeroporto de Lisboa, a elegantíssima Audrey Hepburn, trazendo por companheira de viagem Doris Brynner (mulher do actor Yul Brynner). Nessa época, o casamento de Audrey com o actor Mel Ferrer estava a chegar ao fim, vivendo vidas separadas. Assim enquanto o marido se encontrava em Londres em filmagens, Audrey achou uma optima ideia vir conhecer Portugal e divertir-se um pouco, pondo de lado os seus problemas conjugais. Nas horas seguintes chegaram a Portugal, Begun Aga Khan, Gina Lollobrigida, o pintor Vidal y Quadras, a condessa de Douciev, Sr. e Sra. Newhouse (proprietários da Revista Vogue) entre um rol quase interminável de outras figuras do jet-set internacional, que esgotaram a capacidade hoteleira de luxo em Lisboa e no Estoril. 

Quinta do Vinagre


Pierre e São Schlumberger
À noite todas elas se encontrariam na Quinta do Vinagre, situada em Colares, palco da festa Schlumberger (Pierre e Maria Conceição que era de origem portuguesa). No seu solar do Séc. XVI que outrora foram propriedade dos Condes de Mafra mandaram construir de propósito um pavilhão que estava avaliado em milhares de contos. As colunas que o sustentavam eram de mármore e os espelhos tinham vindo de França, quanto às fardas do empregados seriam azuis com botões em prata! O Hotel Ritz forneceu a comida. As flores que decoravam faustosamente todo o pavilhão vieram de Paris, isto porque Antenor Patiño comprou praticamente todas as flores existente no mercado nacional para decorar a sua festa. Ao longo de toda a noite os 1400 convidados foram animados por duas Orquestras até à debandada dos últimos convidados, coisa que aconteceu por volta das 7 horas da manhã do dia seguinte.

O Pavilhão da Festa do Vinagre à noite

Manoel Vinhas na sua Herdade
No dia seguinte foi a vez do empresário Manoel Vinhas (abastado industrial ligado ao sector cervejeiro) dar também ele uma festa. Localizada em 200 quilómetros de Lisboa, a Herdade do Zambujal em Águas de Moura, foi placo da única "festa à portuguesa". Os convidados eram recebidos por uma guarda de honra feita por campinos que seguravam os cavalos à mão, sendo os convidados direccionados para o «tentadero». Ali os convidados poderam apreciar Luis Dominguin (já afastado do mundo tauromáquico) a dar um ar da sua graça a liderar bezerros. O transporte dos 600 convidados que se encontravam no «tentadero» foi efctuado por meio de camionetas. Chegados ao arraial os foliões foram recebidos por duas charangas, no rio que ficava sobranceiro à Herdade uma barca com um grupo de alentejanos vestidos a rigor cantava modas. Flores da Madeira decoravam o espaço dando-lhe uma frescura única, na zona de jantares, um tecto feito em colmo protegia os convidados da possível humidade nocturna. Na ementa constavam sardinhas, croquetes e caldo verde, servidos em louça de barro e acompanhadas por canecas com água pé. As mesas estavam enfeitadas com toalhas aos quadrados. No arraial havia de tudo, barraquinhas de tiro, um macaco farturas, e um sem número de outras coisas que fizeram as delícias dos convidados. Claudine de Cadaval, Audrey Hepburn, Givenchy, Ratna Dewi (ex mulher de Sukarno, Presidente da Indonésia), Douglas Fairbanks Jr., Ira Furstenberg, ficaram encantados e no final qualificaram-na de «Extraordinária», «Sensacional», «Única», «A Festa das Festas». Porém a maior e mais aguardada de todas as festas teria finalmente lugar no dia seguinte.

Audrey no «tentadero» da Herdade do Zambujal

Ao princípio da tarde do dia 6 de Setembro a actriz Zsa Zsa Gabor aterrou no Aeroporto de Lisboa seguindo directamente para o Hotel Ritz. A essa hora Antenor Patiño fiscalizava tudo ao pormenor para que nada falhasse na festa. O milionário não se poupou a gastos, tudo foi pensado ao mínimo detalhe. Patiño foi consultar especialistas da meteorologia para se assegurar que nesse dia não chovia. Contudo, por precaução. resolveu contratar por 70 mil dólares uma equipa de técnicos americanos que montaram um pequeno observatório na Serra de Sintra, ao mesmo tempo que mantinha um avião de prevenção pronto a descolar para lançar um produto nas nuvens caso houvesse ameaça de chuva.  O faqueiro de «christofle» foi adquirido em Paris pela soma de 2500 contos, foram também adquiridos pratos em prata estilo Séc. XVIII no valor de algumas centenas de contos, bem como oito grandes frigoríficos, quatro congeladores de grande capacidade e seis fogões industriais. Foram contratados dois especialistas franceses para tratarem das iluminações dos jardins. Num dos lagos foi montado um dispositivo que regulava a intensidade das luzes e os repuxos de água consoante o som da música. Foi ainda construída uma gruta artificial com o propósito de servir de discoteca, tendo por dimensões, 25 metros de largura, 10 metros de altura e deslumbrantes efeitos de luz e som, sendo servida por dois bares. Patiño não queria que nenhum sapato dos convidados se estragasse e para isso mandou cobrir os terraços e os jardins da Quinta de Alcoitão de alcatifa vermelha, trabalho esse encomendado à CUF claro está...uma estravagância que lhe custou nada mais nada menos do que 500 contos! Aliás num rasgo de genialidade e explorando o mediatismo do acontecimento social, a CUF mandou publicar em diversos jornais do dia 7 de Setembro um anuncio onde era referida a colocação por pessoal técnico da empresa dos cerca de 3 mil metros de alcatifas no tempo record de apenas trêsdias.
Anuncio da alcatifas da CUF 
Um conjunto de lanternas de ferro forjado custaram 700 contos, e os dois mil quilos de flores que incluíam 300 dúzias de gladíolos, 200 dúzias de cravos e rosas e 200 dúzias de dálias chegaram aos 300 contos. O anfitrião explicou aos técnicos da Romeira (empresa florista nacional especialista em eventos deste tipo) que não queria ramagens prateadas ou douradas e só queria usar flores portuguesas. Na cozinha o chef Luís Carolino preparava uma ementa composta por Salmão 
farci e trutas salmonadas do Rio Minho, filetes de linguado e espargos glacésboulantine de galinha au homard, frango e jambom glacés, presunto de Chaves e outras especialidades portuguesas, corbeilles de frutas de Portugal e vinte qualidades de doces -charlottes, tortas várias, pastelaria francesa, petits-fours, parfaits, sorvetes diversos e D. Rodrigos do Algarve. Encomendou cerca de 1800 garrafas de champagne Perrier-Jouet bem como 600 garrafas de whisky das marcas White Horse, Ballantines e Highland Queen.




Populares aguardando as celebridades da Festa Patiño
Ao inicio da noite à beira da estrada que ligava Alcoitão a Sintra, começaram a juntar-se muito curiosos que foram cercando os portões da Quinta para ver a chegada do high life nacional e internacional. Entretanto Antenor Patiño vestiu o seu smoking branco e juntamente com a esposa Beatriz dirigiram-se para a entrada da Quinta para ali esperar os seus convidados. Ia ser uma noite longa estavam confirmados cerca de 1800 convidados, dos quais encontravam-se todos os que foram referidos nas festas anteriores bem como Raimundo Orsini (o mais belo playboy do mundo), Zsa Zsa Gabor, o actor Curd Jugens, Stavros Niarchos, Gunter Sachs (marido de Brigitte Bardot), a actriz Maria Félix, membros das familias Rockfeller e Rothschilds, Pierre Cardin, Valentino, o industrial italiano Paollo Marinotti. Do lado português estiveram figuras da sociedade como Vera Lagoa, João Coito, Mary Espírito Santo, Amália Rodrigues, Francisco Pinto Balsemão, o banqueiro Jorge Espirito Santo Silva, os Viscondes de Soveral, membros das famílias Sousa Lara e Champalimaud, o empresário Jorge de Mello acompanhado da esposa Maria Eugénia entre muitas outras figuras nacionais. A cobertura jornalística internacional do evento foi garantida pelas equipas de reportagem da TimesParis Match e pela Oggi. Às duas da manhã as orquestras que até aí abrilhantavam a festa calaram-se e alguém disse em voz alta "Vai começar o fogo de artificio!". O fogo de artificio foi deveras espectacular, espantando e deslumbrando todos quantos na festa assistiram a ele, contudo a intensidade foi tal que provocou um incêndio nos pinhais da propriedade, ao qual os bombeiros souberam dar uma rápida resposta. Às 4 da manhã os convidados
Jorge de Mello e sua esposa
passaram da pista de dança para um dos lagos da propriedade, local onde puderam apreciar as «marchinhas» da orquestra do brasileiro Sílvio Silveira. Havia ainda a discoteca para onde se dirigiram todos os «românticos», termo utilizado pela imprensa, devido à envolvência do local, construído para imitar uma gruta. A festa terminou já o Sol ia alto, os empregados começaram a servir o pequeno almoço junto da piscina de agua aquecida. Alguns dos convidados terminaram a festa com um valente mergulho, e até para isso Antenor Patino estava preparado, tendo encomendado na América fatos de banho de papel. Pelas 8 horas os convidados regressavam às casas onde se encontravam hospedados ou para os seus quartos de hotel. Terminavam assim os dias frenéticos em que Portugal foi palco mundial de algumas das maiores festas de sempre, mas não terminava apenas isso. Na manhã do dia 7 de Setembro, o país acordou com a noticia de que na noite anterior, o Presidente do Conselho tinha sido operado de urgência no Hospital da Cruz Vermelha, devido a um traumatismo craniano do qual nunca recuperou. Era o princípio do fim do salazarismo. 


Um aspecto da Festa Patiño ao amanhecer


E agora diga-me o leitor, valeu ou não valeu apena ler este post até ao fim? É certamente muito diferente de todos aqueles que tenho escrito, mas é impossível ficar indiferente a tais eventos. Ainda hoje a uma distância de 50 anos fascinam e abrem-nos a boca de espanto não só pela sua espetacularidade como pelo seu glamour e ate originalidade. E a tudo isto podemos ainda juntar a presença discreta das alcatifas da CUF... e do seu líder.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

O Congresso da ISMA - 1954

Entre os dias 24 e 30 de maio de 1954 realizou-se em Lisboa um Congresso Internacional de Superfosfatos (I.S.M.A. - International Superphosphate and Compound Manufacturers Association) que contou com a presença de representantes das seguintes nações: Portugal, Espanha, França. Inglaterra, Irlanda, Suiça, Alemanha, Itália, Bélgica, Suécia, Noruega, Dinamarca, Finlandia, Holanda, Estados Unidos, Africa do Sul, Norte de África, India e Nova Zelândia.

Postal do Casino Estoril

O banquete inaugural reuniu cerca de 500 pessoas e decorreu no Casino Estoril, sendo presidido pelo secretário de Estado do Comércio e Industria. No fim do banquete o Dr. Jorge de Mello na qualidade de representante da Indústria Portuguesa a este congresso saudou todos os presentes. Depois de agradecer as facilidades concedidas pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros para a realização deste congresso referiu que a indústria portuguesa de superfosfatos não existiu entre nós até ao ano de 1908. Focando-se depois na actualidade referiu a existência de três empresas nacionais produtoras de Superfosfatos cujas suas fábricas foram totalmente modernizadas depois da última guerra. De seguida
Dr Jorge de Mello
frisou: "Fazemos face a todas as necessidades imediatas da Lavoura metropolitana e ultramarina e estamos preparados para os aumentos de consumo que derivarem da activa politica de fomento agrário do nosso Governo. Mas, enquanto o mercado interno não se desenvolver suficientemente sobram-nos largas disponibilidades para exportação, quer por possuirmos grandes fábricas modernas e bem apetrechadas; quer devido às existências de pirites no nosso País; quer ainda pela sua posição geográfica, relativamente aos jazigos de fosfatos do Norte de África, Portugal estaria hoje em condições de ocupar posição de maior destaque na exportação de superfosfatos se tivesse querido colaborar mais activamente na desordem internacional de preços." Falaram de seguida os Srs. Colbejornsen e Grandgeorge manifestando palavras de reconhecimento aos organizadores do Congresso. O Presidente do I.S.M.A. Sr. Biro agradeceu a festa e por ultimo o Subsecretário do Comércio referiu-se à necessidade da intensificação da lavoura nacional, por forma a dar resposta ao elevado ritmo de crescimento da população nacional.

Casa São Cristóvão no Estoril onde decorreu o Cocktail 
O local escolhido para a realização das reuniões deste Congresso, foi a sede da Associação Comercial de Lisboa. E como não poderia deixar de ser da praxe, entre estas reuniões, realizaram-se visitas turísticas e almoços de confraternização. No dia 26, os membros do Congresso visitaram os arredores de Lisboa tendo visitado o Palácio de Queluz, de seguida foi servido um almoço nos jardins do Palácio de Monserrate a convite da Câmara Municipal de Sintra. À tarde, D. Manuel de Mello ofereceu na sua casa do Estoril um cocktail aos congressistas.

No dia seguinte a comitiva rumou a Vila Franca de Xira, mais concretamente à Estalagem do Gado Bravo, local escolhido pelas empresas das minas de S. Domingos, Lousal e Aljustrel para oferecer o almoço aos congressistas. Durante o repasto os 400 congressistas poderam admirar danças e cantares caracteristicos da leziria ribatejana, tendo-se distinguido os seguintes solistas: Manuel Rabaça, Maria Paixão e Maria das Graça. Seguiu-se uma garraiada em que tomaram parte os cavaleiros Manuel Conde e Francisco Mascaranhas.


Capa do Menu


Menu do Almoço

Complexo da CUF no Barreiro

No dia 28 os delegrados do I.S.M.A. visitaram demoradamente as fábricas da CUF no Barreiro sendo acompanhados pelo Sr. D. Manuel de Mello, Nicolas Gregori, José Manuel de Mello e eng. Eduardo Madaíl administradores daquela empresa, bem como pelo Dr. Jorge de Mello, delegado a indústria portuguesa ao conselho da Associação Internacional de Fabricantes de Superfosfatos. Depois de terminada a visita foi oferecido pela administração da CUF um almoço, no meio do qual o Sr. D. Manuel de Mello usou da palavra, merecendo sem sombra de duvida serem lidos os seguintes excertos:

"Dirijo-me a homens de trabalho para quem o estudo, o espirito de decisão e a actividade valem mais do que a oratória. Tal como os congressistas, entendo que os ruídos de uma fábrica em laboração valem mais do que um discurso. Direi mesmo: para visitantes de alta categoria social e industrial de V. Exas. valem mais do que qualquer outra homenagem. Escutemos, então, o que esta fábrica nos está dizendo pelas voz de suas máquinas.

Ela quer contar-nos a sua história, as suas grandes dificuldades iniciais, o seu lento progresso , as lutas constantes, as desilusões e as vitórias. É, afinal, a história de quase todas as grandes fábricas que pelo Mundo têm sido geradas por esse inigualável factor de fomento que se chama iniciativa privada. Mas esta fábrica fala-vos, principalmente do homem, tantas vezes incompreendido, que a soube criar e fazer grande. Do homem que, mesmo no túmulo, permanece junto dela, como que a dirigi-la ainda com o seu espírito imortal e a extraordinária força de vontade que para nós, seus sucessores continua sempre viva. Muitos de V. Exas. o conheceram e com ele conviveram em reuniões e congressos internacionais.

Alfredo da Silva, com audácia, inteligência e tenacidade, com o mais são, mais útil e mais indiscutível patriotismo, foi o primeiro industrial português do seu tempo, em época em que as grandes iniciativas económicas não tinham ainda o devido acolhimento entre nós. Deu-nos exemplo magnifico, exemplo que frutificou. Apontou-nos o caminho do futuro. Soubemo-lo seguir. Antes de Alfredo da Silva se lançar no fabrico de superfosfatos, faltavam quase totalmente á lavoura nacional os adubos nacionais, motivo por que ela se encontrava á mercê das guerras e outras causas de dificuldades de abastecimento do estrangeiro.

Fabrica de Superfosfatos da C.I.P.

Hoje além desta fábrica que estão escutando, existem em Portugal mais duas outras, a da SAPEC de Setubal e a da Companhia Industrial Portuguesa na Póvoa de Santa Iria cuja soma de capacidade de produção atinge cerca de 650.000 toneladas a mais de superfosfatos, equiparadas portanto, para todas as necessidades actuais da lavoura metropolitana e ultramarina e para os aumentos de consumo previstos. Portugal, que soube conquistar o seu lugar como exportador de superfosfatos, deseja mantê-lo, para o que tem direito incontestável."

D. Manuel de Mello
O Sr. D. Manuel de Mello concluiu dizendo:

"Ao receber visitantes tão ilustres, esta fábrica inscreve os seus nomes, a letras de ouro, na memória dos seus dirigentes. Em meu nome pessoal e no conselho de administração da Companhia União Fabril, brindo por V. Exas. pela prosperidade das obras económicas e sociais que dirigem e faço votos  ardentes para que o congresso do I.S.M.A. contribua para a cooperação internacional cada vez mais forte e portanto, cada vez mais util para todas as nações nele representadas."

De seguida o Sr. Douglas Bird usou da palavra agradecendo em seu nome e dos delegados o prazer que a Companhia União Fabril lhes proporcinou de visitarem as suas fábricas do Barreiro. O representante da Holanda, Sr. J. D. Waler agradeceu a recepção dispensada e brindou a Portugal. Por ultimo o Subsecretário do Comércio e Industria, regozijou-se com o facto de o congresso ter sido realizado no nosso país, permitindo aos delegados conhecer a realidade do nosso desenvolvimento industial, bem como das gentes portuguesas.

Após o almoço os congressistas dirigiram-se para Belém, para ali visitar o Museu dos Coches, seguindo depois para o Castelo de S. Jorge.

Fontes consultadas:

- O Século, Diário de Noticias, Diário Popular

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Os 44 anos do hipermercado Pão de Açúcar/Jumbo em Cascais

Fez ontem 44 anos, que a inauguração do 17º estabelecimento do Pão de Açucar em Portugal revolucionou a ida às compras na Linha de Cascais. O novo hipermercado mudou hábitos de consumo, democratizou preços e levou maior variedade de produtos e bens a um vasto número de pessoas. Localizado estratégicamente junto á Estrada Marginal e à Linha de Comboio, não admira que se tenha tornado ao longo destes anos, tambem ele, um ícone desta Vila, tal como foi no passado o já desaparecido Hotel Estoril-Sol. É impossivel não se notar na azáfama diária de carros e de gente que ali se deslocam para fazer as suas compras. 

Como é referido na Revista Binário de Outubro de 1973 "Aos técnicos responsáveis por este novo empreendimento foi imposta uma brevidade na elaboração do projecto e na execução da obra que constituiu verdadeiro desafio à sua capacidade. Um desafio que aceitaram conscientemente, enriquecidos, como estavam, pelas experiências anteriores. 
Cento e vinte dias era o prazo fixado; trabalhou-se num ritmo intenso, ergueram-se cerca de 9 mil metros cúbicos de betão, num curto espaço de tempo fez-se praticamente tudo o mais: acabamentos, decoração, montagem do equipamento..." 






Caixas
O hipermercado do Pão de Açucar (actual Jumbo) ocupa uma area de 15.500 metros quadrados no qual o sector de vendas detinha à epoca um total de 5500 metros quadrados. Neste projecto tudo foi estudado ao pormenor inclusive a sua estéctica "No caso de Cascais, com uma urbanização definida e esteticamente valorizada, houve, no entanto, que procurar uma aliança entre as soluções técnicas e os ideais estéticos, por forma a enquadrá-lo dignamente no conjunto. Pôs-se assim de parte a concepção tradicional, marcada da maior sobriedade, para levantar um edificio de linhas mais apuradas, em que a fachada, rica de pormenores, empresta logo um aspecto deveras agradável. Essa mesma determinante inspirou o garden-center, com uma estrutura de ferro e vidro, no qual se atendeu, acima de tudo, ao cosmopolitismo de Cascais e ao propósito de contribuir para o seu aspecto paisagístico." 





                                                                                                           





   
     




Programação e coordenação: Eng. César Palha (Direcção de Expansão dos Supermercados Pão de Açúcar - Lisboa) Arq. Carlos Novais (Construtora Pão de Açucar, S.A. - S. Paulo)
Projecto de Arquitectura: Arq. Eugénio Nascimento
Projecto de Engenharia: Profabril
Direcção da Obra: Eng. Basto Machado
Projecto de Frio: Eng. António Vilela
Decoração: Agostinho Rocha 
Equipamento: Joaquim Serralheiro



A sua inauguração foi um verdadeiro acontecimento para a época, centenas de pessoas aglomeraram-se desde muito cedo junto à entrada do estabelecimento. O Dr. João Flores (Administrador-Delegado da SUPA) recebeu á entrada do edificio o presidente e vice-presidente da Câmara de Cascais, respectivamente, engº Pinto Machado e comodoro Julio Vieira Lopes, o Dr. Jorge de Mello, Eng. Sousa Rego, Vistulo de Abreu, e Drs Abilio e Arnaldo dos Santos Diniz. Após o discurso inaugural prferido pelo Dr. João Flores o pároco de Cascais, Assis Cardoso deu a benção a todos os que empenharam o seu esforço e talento no notável empreendimento, seguidamente a senhora de Pinto Machado cortou a fita simbólica, iniciando-se a visita inaugural. 



          











Snack-Bar
Como é referido no Diário de Noticias de 15 de Setembro de 1973 "Além de todas as secções comuns a todas as lojas, o Pão de Açucar de Cascais apresenta um actualizado pronto-a-vestir, sapataria, balcões de óptica e cosmética, fotografia, e cinema, artigos de campismo e desporto, acessórios de automóveis, bicicletas, electrodomésticos, roupa de casa e mobiliario. Tem igualmente, um excelente snack-bar e uma moderna secção de padaria e de pratos cozinhados. Prevê-se ainda para breve, a abertura de um «garden-center». autêntica novidade nos estabelecimentos similares, e onde poderáo adquirir-se utensilios de jardinagem, sementes, plantas, adubos, vasos e terras, bem como, numa secção anexa, peixes e aves e plantas aquáticas.
Sublinhe-se também, que o Pão de Açucar de Cascais tem a maior rede de frio de todos os supermercados da Peninsula Ibérica e que para comodidade do público, dispõe de um parque para 300 automóveis" Á epoca este estabelecimento era sem sombra de duvida o mais moderno e mais bem equipado hipermercado do país. 



Garden-Center
Pormenor do Interior do Garden-Center
Anuncio da Inauguração do Pão de Açucar de Cascais


Passados que são 44 anos, é natural que muito tenha mudado no actual Jumbo, que hoje tem um parqueamento muito maior devido á construção há mais de 20 anos do silo auto de 2 andares. O espaço do antigo Garden-center já não existe, dos cinemas já só resta uma leve lembrança etc. E é bem possivel que hajam novas alterações (desta vez alterações radicais) relacionadas com aquele espaço. Na edição online do Jornal Expresso de 12 de Março de 2017, é apresentado um novo projecto que pretende revolucionar a entrada de Cascais. O que uns chamam de revolução, chamo eu de pura especulação imobiliária que ira trazer dividendos fenomenais a alguns! Mas quem sou eu para julgar tais propósitos! Deixo o assunto á sensibilidade e visão de cada um. Para mim o mais divertido é ir à página do projecto, fazer o download do seu powerpoint e chegar à parte histórica e ver aquilo em branco. Vê-se de facto o valor dado à parte histórica neste país nos mais diversos sectores. Se calhar estavam á espera que um tipo como eu, lhes fizesse o trabalho de casa. Agora já podem vir aqui roubar e fazer "copy-paste" à vontade, como aconteceu já com tantas postagens deste blogue!



Abilio Diniz
Em jeito de remate coloco em destaque a figura de Abilio Diniz. Para muitos acredito que seja um nome totalmente desconhecido. Abilio dos Santos Diniz, é filho de Valentim dos Santos Diniz, originário de uma aldeia do distrito da Guarda, e que cedo imigrou para o Brasil, à procura de uma vida melhor. O que começou por ser uma modesta doçaria com o nome "Pão de Açucar" tornou-se anos depois na maior cadeia de super e hipermercados da América Latina. Abilio desde cedo se interessou pelo negócio, apostado em fazer crescer ainda mais a marca. Assim entre 1959 e 1963 estudou nos Estados Unidos da América, as mais modernas técnicas e métodos de distribuição a todos os níveis, uma espécie de formação "de como ter êxito na vida montando supermercados" terá ele dito a uma entrevista de uma revista. Abilio foi o grande responsavel pela rápida expansão da marca "Pão de Açucar" pela América Latina, tornando-se num empresário respeitado quer no Brasil quer no estrangeiro. Por isso não é de todo estranho que um homem dinâmico como ele, tenha aceite o desafio de se juntar ao Grupo CUF por forma a internacionalizar ainda mais a sua marca. A sua presença em Portugal oferecia-lhe não só o mercado interno e ultramarino (Jumbo de Luanda), mas ainda a possibilidade de fazer crescer o nome "Pão de Açucar" na Europa. E a verdade é que em meados de 1974 foi inaugurado no centro de Madrid o "Pan Azucar", havendo planos para estender a sua actividade a Londres, mas as mudanças politicas em Portugal e a consequente nacionalização do Grupo CUF deitaram por terra esse projecto. 

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Cartão de Visita do Dr. Jorge de Mello






Neste natal, recebi das mãos do meu grande amigo Norberto Santos, o melhor presente que me podiam dar. Aquilo que à primeira vista parece um envelope normalíssimo guardava dentro de si o cartão de uma das personalidades portuguesas que mais admiro. Este cartão foi enviado a Manuel Chaves Caminha, que pelo que pude investigar, fundou em 1926 uma firma com o mesmo nome que vendia (e vende, porque ainda hoje existe) desde chapas metálicas, filtros, camurça, cabedal etc. Como se pode ver o Dr. Jorge de Mello enviou este cartão a agradecer o telefonema feito por aquele empresário à sua pessoa. E pouco mais há a referir sobre esta peça, pelo selo da carta deve datar de 1970. 

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

In Memoriam - Jorge de Mello 1921-2013

Esta semana fica marcada pelo desaparecimento daquele que para muitos foi considerado o ultimo industrial português (quando me refiro ao termo "industrial" é de facto na acepçao pura e dura de criaçao de industria seja ela pesada ou ligeira). Por isso venho até vós para prestar o meu ultimo tributo a esta personalidade para a qual sempre olhei com grande admiraçao. Se uns têm por idolos jogadores de futebol, cantores, actores, há tambem aquele que olham para homens os industriais e empresarios, cujas suas visoes empresarios contribuiram para o progresso do pais nas mais diversas areas. É esse o meu ultimo caso.

 De seu nome completo Jorge Augusto Caetano da Silva José de Mello, nasceu em Sintra em 1921 no seio de uma familia aristocrática com elevado peso no tecido produtivo da nação.  Desde cedo lhe fizeram compreender a importancia de ser um Mello e de ter por avô Alfredo da Silva. Vivendo uma infancia repartida entre Sintra e Estoril, Jorge de Mello fez os primeiros estudos na Escola Primaria de Cascais, ingressando depois no Colégio Infante de Sagres. No seu livro de memórias Jorge de Mello refere que:

"nunca senti nenhum previlégio especial, nem os meus pais alguma vez alimentaram essa ideia, quer comigo, quer com as minhas irmãs e o meu irmão. Ia para a escola a pé. Quando chovia, lembrava-me que havia automoveis na garagem, que estavam parados mas nunca tive a ousadia de falar nisso à minha mãe. É verdade que tinha gabardina e os meus colegas de escola, que apanhavam a mesma chuva, talvez não tivessem sapatos com solas tao grossas como os meus. Mas essa diferença não era sentida por mim, não era importante não me sentia diferente deles."

Efectuou depois os estudos superiores (muito a contra gosto) no Instituto Superior Técnico (ali se manteve ate ao 2 ano do Curso, tendo interrompido o mesmo para cumprir o serviço militar  entre 1942 e 1945) onde Jorge se deveria formar em Engenharia Quimica, como era vontade expressa do seu avô. Porém Jorge sempre manifestou grande interesse pelo universo da gestao economica, assim e apos a morte do seu avô decide inscrever-se no ISCEF, passando a ter uma vida bastante preenchida. Nestes primeiros anos, os estudos e as responsabilidades que lhe sao atribuidas na CUF ocupam-lhe muito do seu tempo.

Jorge entra para a empresa em 1945, nunca epoca na qual a empresa estava a passar por grandes transformaçoes e modernizaçoes, que foram fulcrais para o crescimento e consolidação da CUF em novos sectores economicos do pós-guerra. É restruturado e fortalecido o seu quadro de pessoal tecnico, aumentado o seu nivel cientifico, com o recrutamento gradual e selecionado de dezenas de engenheiros, economistas, médicos, e outros especialistas para o desenvolvimento ou criação de novos serviços.  É feita uma aposta muito signficativa na area tecnica e na area de investigação de forma a criar condições para se atingirem niveis de produtivade e eficiencia paralelos aos observados em países estrangeiros mais desenvolvidos. Neste periodo é descoberto a seu pai (D. Manuel de Mello) a doença de parkinson, o que leva Jorge e o seu irmão José a assumirem responsabilidades e cargos de cada vez maior importãncia nos destinos da companhia. Durante este perido para alem dos negocios estará intimamente ligado à criaçao da Colonia de Férias da CUF, localizada em Almoçageme e inaugurada em 1950, destinada aos filhos dos trabalhadores. Amante do Desporto, praticava, ténis, futebol, hoquei e tiro, chegando mesmo a ser campeao nacional desta modalidade. Sempre demonstrou grande carinho pelo Grupo Desportivo da CUF (apesar de ser um fervoroso adepto do Sporting) e sempre o tentou dinamizar o mais possível. Deslocava-se frequentemente ao Barreiro para ir assistir aos jogos de futebol do Clube. Como grandes iniciativas deste periodo pode-se destacar a criação da UFA em Alferrarede que produzia amoniaco electrolitico, a construção no Barreiro da primeia fábrica nacional de granulação de adubos (1951), e a criação da fabrica de tintas Tinco (em associação com a multinacional inglesa I.C.I). Ou ainda a participaçao da empresa através do seu sector melato-mecanico, nas mais variadas obras publicas (construção de condutas forçadas, pontes rolantes, equipamentos para barragens, fabricas etc.) do esforço de modernizaçao nacional do pós-guerra.



Se a década de 60 foi a época de ouro da economia nacional com crescimentos superiores aos da média europeia à procura de uma rápida aceleração/transformação do tecido produtivo e das actividades economicas, nao o foi menos para a CUF. A empresa abre novos horizontes, exporta para paises que até então nenhuma empresa portuguesa sonhara fazê-lo: Japão, Australia, Egipto, Alemanha, Estados Unidos, Europa do Norte, Bulgária etc, comprovando a qualidade dos seus produtos, bem como a capacidade concorrencial da empresa. Abarca novas áreas de negócio como a Hotelaria/Turismo, Alimentar, Estudos de Mercado, Bioquimica etc. Manuel de Mello era já um homem muito doente, e quem geria verdadeiramente o Grupo empresarial era Jorge e o seu irmão, José, a quem coube o merito da criação dos Estaleiros da Lisnave, o primeiro empreendimento português vocacionado a 100% para o Estrangeiro.

Em 1963, Jorge de Mello é um dos mentores da C.I.E. - Comissão Interna da Empresa, que pertendia ser um elo de ligação entre os trabalhadores e a administração. Reunindo uma vez por mes na sede da CUF (Av. Infante Santo)  membros da administração e representantes dos varios sectores industriais da empresa debatiam desde, assunto relativos às fabricas, segurança no trabalho, escola da cuf, colonia de férias, dispensa operaria, etc. Segundo se diz à época o próprio governo do Estado Novo ficou alarmando com tal coisa, achando que poderia trazer grandes maleficios para a empresa e para o trabalho nacional, mas tal não aconteceu. O empresario limitou-se a aplicar um modelo já existente em paises mais desenvolvidos, onde as relações inter-laborais, eram vistas com outra preocupação social.


Em Outubro de 1966 com a morte D. Manuel de Mello, Jorge irá naturalmente ascender à presidencia da empresa, cargo que irá ocupar até 1975. No inicio dos anos 70, quando o Grupo CUF ja se preparava para assumir projecção internacional havia uma especie de cantilena que dizia assim: "Oh meu Portugal tão lindo,/ oh, meu Portugal tão belo,/ metade é Jorge de Brito, / metade é Jorge de Mello. Durante este periodo o Grupo para alem de uma constante aposta na modernizaçao das suas fábricas, procura novos processos de fabrico, estende de novo a sua actividade a outros sectores da vida económica, (Frio Industrial, Decoraçao de Interiores, Marmores, Casinos, Cargas e Descargas Martitimas, Montagens Industriais, Super e Hipermercados, Restaurantes e Refeitorios etc.). São efectuadas joint-ventures com reputadas empresas internacionais, caso da Mitsubishi nas fibras sintécticas, a Billerud no fabrico da Pasta de Papel, ou da Kawasaki nos estaleiros navais etc. Juntamente com esta medidas o Grupo CUF aposta na sua internacionalização sendo criadas as primeiras empresas no estrangeiro, casos da Interacid (Suiça), da Intercuf (Brasil), ou da Navelink (Suiça). A partir de 1973 essa mesma estratégia de internacionalização passa por um sério investimento no Brasil, onde a CUF pretende ganhar posiçao na industria adubeira, fabrico de tabaco, alimentação e construção/reparação naval. Ao mesmo tempo a Companhia continuava a participar nos maiores projectos de desenvolvimento económico nacional, caso no novo Estaleiro Naval de Setubal (Setenave) e do Complexo Industrial de Sines, na qual a CUF juntamente com a Sonap, começaram a construir a partir de 1973 uma refinaria de petroleos com uma produçao anual de 10 milhão de toneladas/ano. (que nos pós 25 de Abril passará para as maos a Petrogal). Esta é tambem a fase em que o industrial manda chamar a prestigiada consultora Mckinsey por forma a reestruturar um Grupo cada vez mais complexo, em que alguns dos seus sectores atingiram já a saturaçao de vendas no mercado interno, sendo necessario prescutar novos mercados, sectores a investir, e reconversao dos existentes.

Com o 25 de Abril de 1974 e as mudanças radicais ocorridas na politica e economia nacional, ditam no ano seguite a nacionalizaçao do Grupo CUF. Para se perceber a sua dimensao e importancia no tecido economico nacional refira-se apenas que nele trabalhavam mais de 110 mil pessoas, em mais de 150 empresas diferentes, que produziam mais de 1000 produtos diferentes, sendo responsavel por 5% de toda a nossa economia. Meses depois do 25 de Abril, o seu irmão José Manuel de Mello, encontra-se com Alvaro Cunhal na sede do partido, numa tentativa de chamar a atenção para o facto de que a destruição não levava a nada. Cunhal ouviu e concordou em parte. Segundo José de Mello "na altura as pessoas ouviam mas nao acontecia nada" Juntamente com o seu irmão, Ricardo Espirito Santo, Antonio Champalimaud, Jorge de Brito, Mario Vinhas e outros empresarios criar a MDE/S (Movimento Dinamizador Empresa/Sociedade) numa tentativa de lançar as bases de uma moderna economia liberal de tipo ocidental. Mas os tempos não estavam para essas coisas.

Após o 11 de Março de 1975 as condições politicas e sociais do pais agudizam-se e Jorge de Mello bem como os restantes empresarios nao ficam imunes aos novos ventos que se fizeram sentir. Assim a 12 de Março de 1975 o COPCON cerca pelas 18 horas a sede da CUF levando o empresario para Caxias onde ficaria detido durante uma semana. E so lá esteve esse curto perido graças à pressão exercida por várias personalidades nacional e estrangeiras, de onde sobressai a figura do Presidente da Republica françês Valérie Giscard d´Estang.

Em pleno PREC o dia a dia nas empresas era feito pelas comissoes de trabalhadores, que ontrolavam tudo e todos, efecuando longos plenarios onde era tudo era discutido e debatido. Perante tal cenario, Jorge de Mello sabia que naquele momento permanecer no pais, era perda de tempo. Preferiu não assistir ao golpe final desflorado em Setembro através do Decreto-Lei 457/75 na qual o governo nacionaliza por fim  CUF. Partirá para Suiça ali permanecendo três anos, seguindo depois para o Brasil para um exilio, que so acabará em 1980 ano que regressará definitivamente a Portugal. Fico  também dedicido pelos irmãos que dali para a frente, os negocios seriam repartidos. Numa entrevista o empresário explicou:

"Tem sido muito explorado o facto de sermos dois irmãos e de cada um ter o seu pequeno grupo. É que a nós foi-nos tirado tudo. Cada um de nós, o meu irmão, eu e as minhas irmãs recebemos como indemnizações aquelas titulos da divida pública, a 2,5% por 28 anos. Aquilo não dava para fazer muito: por isso, combinei com o meu irmão que cada um ia recomeçar tratando da sua vocação."

 Assim em 1980 Jorge de Mello, decide reinvestir em Portugal, para tal arranja um escritorio onde contava com uma equipa de 10 pessoas. Em 1982 adquire ao IPE - Instituto de Participações do Estado (organismo criado para gerir as empresaas intervencionadas pelo Estado aquando das nacionalizações de 1975) a Alco, empresa de transformaçao de sementes oleaginosas. Para tal teve de vender grande parte do seu património: Quinta de Ribafria, a Herdade do Peral, A Casa do Monte Estorl (que era do seu avó Alfredo da Silva) etc.

Nos anos seguintes o empresario construiu um grupo empresarial vocacionado para industria alimentar, adquirindo antigas empresas pertencentes à CUF, casos da Sovena e da Compal. Em finais dos anos 80 é constituida a Nutrinveste. Esta empresa tornar-se-á a holding do grupo Jorge de Mello para o sector dos oleos alimentares. Será sob a sua égide que em finais dos anos 80 principios de 90 serão adquiridas empresas como a Lusol, Tagol,  ou Fábrica Torrejana de Azeites, que irão catapultar a sua dimensao e volume de vendas. Apesar de ter dito "um empresário nunca se reforma. Não por uma questão de conquista, mas antes de continuidade" em inicios dos anos 2000 entregou os negocios da familia ao seu filho mais velho Manuel Alfredo de Mello.

Nos ultimos anos de vida, o empresário levava uma vida calma, dividida entre os jogos de tenis, cartas, e alguma batidas de caça. Porém em 2005 Jorge de Mello sofreu uma queda na sua casa do Estoril enquanto brincava com os seus labradores. Partiu o colo do femúr e teve de se sujeitar a um periodo de fisioterapia. Infelizmente no fim do perido de recuperaçao sofreu um AVC e entrou em coma. Só recuperou a consciência  meses mais tarde, ficando incapacitado de andar e de falar. Aos 92 anos partiu para sempre deste mundo deixando o seu legado. Fechou-se para sempre o derradeiro ciclo da história da CUF. A sua ultima morada é o Cemitério de S. Marçal onde foi sepultado no jazigo de familia.

Até sempre meu idolo!!!

Para rematar esta minha sentida homenagem deixo aqui um pensamento que se encontra no seu livro de memorias. Apenas akguem com inteligencia superior e dotada de um grande sentido de visão poderia escrever isto:

"E quanto à riqueza, conheci muitas pessoas em Portugal, de quem nunca se falou, que eram e são muito mais ricas do que eu. E é claro que bastava passar a fronteira para encontrar pessoas muito mais ricas e poderosas do que eu alguma vez poderia ser em Portugal. A ideia de riqueza é muito mais um produto da imaginação dos que não se sentem ricos. Um dia alguem me falou do homem mais rico de Potugal, ao que respondi que também já tinha sido disso, com a ironia de quem me conhece a relatividade desses atributos e desses titulos."


domingo, 28 de outubro de 2012

Convite do Almoço de Encerramento das Comemorações do Centenário da CUF




Mais uma vez o meu amigo Norberto Santos surpreendeu-me ao oferecer-me este interessante documento que desconhecia. Trata-se do convite do Almoço de encerramento do centenário da empresa, oferecido pela Administraçao. Este evento ocorreu no dia 8 de Janeiro de 1966, tendo como palco a Nave Central da FIL em Lisboa. Como poderão verificar, a capa encontra-se decorada com o símbolo elaborado para as comemorações dos 100 anos da empresa.

Estiveram presentes neste evento mais de 3000 pessoas. Da parte da administração estiveram presentes no almoço, D. Manuel de Mello, os filhos Jorge e José de Mello, bem como os restantes administradores da Companhia, Eng. Rocha e Mello, Vasco de Mello, Conde de Alcáçovas, Dr. João Salgueiro, D. Diogo de Mello e Dr. Fracisco Castro Caldas.

O Boletim de Informação Interna da CUF descreve da seguinte forma o acontecimento: "Esta reunião proporcionou, e era esse o seu objectivo principal, algumas horas de franco convívio entre alguns dos que constituem  a grande Família CUF. Estiveram presentes representações do Pessoal de todo o País onde a Companhia exerce a sua actividade, tal como, do Barreiro, Lisboa, Porto, Alferrarede, Ansião, Canas de Senhorim, Mirandela e Soure, Beja, Faro, Coimbra, Castelo Branco, Évora, Estremoz, Santarém, Viseu, Vila Real, Bombarral, Caldas da Rainha, Lourinhã, Torres Vedras, Coina, Moita, Sabugo, Malveira, Cascais, Braga, Famalicão, Barcelos, Viana do Castelo, Aveiro, Chaves, Régua, Bragança, Setúbal, Lagos, Cacém, Ponte de Sôr, Portalegre, Vale do Peso, Benavente, Tomar, Torres Novas, Sabugal, Guarda, Duas Igrejas, Mogadouro, Castelo Branco, Covilhã, Fundão, Cantanhede, Oliveira do Bairro, Pombal, Pampilhosa do Botão, Quintas e Amorim."

 Um aspecto do Almoço


Observe-se ainda que juntamente com este convite, vinha ainda em parte destacável, o respectivo titulo de transporte assegurado pela empresa: