terça-feira, 19 de junho de 2018

Carta da CUF assinada por D. Manuel de Mello

No rescaldo da II Guerra Mundial, grande parte da Europa encontrava-se completamente devastada devido à violência do conflito armado, havendo inúmeras faltas de todo o tipo de produtos, mesmo no caso dos países neutros. É pois, com este cenário de fundo que uma casa suíça designada por Haaf´sche Apotheke & Drogerie (que presumo tenha sido uma firma ou uma casa comercial idêntica às nossas drogarias) se dirigiu à CUF em fins de Setembro de 1945, a perguntar se fabricavam velas de cera. A resposta foi enviada no dia 2 de Novembro desse ano pela mão do próprio D. Manuel de Mello cuja assinatura se reconhece no final da mesma. Com a maior parte dos centros industriais europeus destruídos pela guerra, acredito que à época, esta firma andasse a sondar empresas alternativas por forma a substituir os seus anteriores fornecedores que devem ter colapsado durante este período negro da história da humanidade. Porém não deixa de ser também curiosa a resposta de D. Manuel Mello que ao responder negativamente, fecha a porta a uma possivel entrada da CUF noutros mercados externos. Talvez porque à época a própria empresa estivesse tambem ela a sofrer com as restriçoes e faltas de matérias-primas que condicionavam as suas produções. Contudo esta simples carta não deixa de ser um interessante documento sobre a história desta empresa ainda mais estando assinada pelo punho do seu Administrador Gerente. 

Para uma melhor compreensão desta missiva aqui fica a sua tradução:

"Senhores 

Acabamos de receber a vossa carta do dia 23, pela qual agradecemos, mas lamentamos informar que não fabricamos as velas de cera que procuram, mas sim velas de estearina para iluminação. No entanto, devemos dizer que toda a nossa produção é destinada exclusivamente ao mercado interno, e que não estamos interessados em exportá-las.  

                                                          
                                                                Por favor aceitem os nossos melhores cumprimentos 

                                                                                          Manuel de Mello

                                                                                   ( Administrador Gerente )"


Carta assinada por D. Manuel de Mello


Envelope da Carta

sábado, 16 de junho de 2018

Cartaz Publicitário da CUF - 1935




E já que estamos numa de publicidades, há tempos tive a sorte de comprar uma daquelas peças que uma pessoa olha e é como que amor à primeira vista. Assim que a vi sabia que teria de ser minha. Como poderão ver trata-se de um cartaz publicitário da CUF datado do já longínquo ano de 1935. Esta preciosidade veio-me de Estremoz, onde certamente deve ter estado pendurada por muitos anos em algum estabelecimento de venda de produtos para a agricultura. É de cartão de forma rectangular e tem por medidas 50 cm de altura por 31 cm de largura. Apesar de ter algumas "pinturas de guerra" (riscos e escritos) que normalmente este tipo de material tem, em nada afecta a sua beleza, quase parece que foi pintado à mão! Atente-se no pormenor do cartaz: o ceifeiro com a sua foiçe segurando um molho de trigo que por sua vez se transforma em moedas de ouro! Foi impresso da Litografia Portugal que ao que parece ficava em Lisboa, infelizmente o cartaz não nos dá pistas sobre a autoria do mesmo. A existência da data de 1935 no cartaz leva-me também a supôr que tal como a CUF lançou ao longo de vários anos os famosos cartazes publicitários em que o Zé Povinho passa de um simples burro para um belo carro desportivo descapotável, a empresa terá também lançado anualmente cartazes publicitários todos diferentes, aquando da Campanha do Trigo e que este seria um deles. Mas por agora é apenas uma suposição pois não tenho forma de por enquanto comprovar isso. Uma coisa é certa: com a idade que este cartaz tem não acredito que ainda restem por aí muitos, pois era material que ia para o lixo. Daí ter dito logo no inicio deste texto "tive sorte!"

terça-feira, 12 de junho de 2018

A nova imagem do Banco Totta Standard de Angola

Como o tempo passa! Há 10 anos atrás escrevi pela primeira vez neste blogue alguns apontamentos sobre o Banco Totta Standard de Angola, e hoje decidi que é tempo de voltar à carga nessa temática. Para quem como eu andava sempre a passar a vista pelos jornais é pois natural que se sempre encontre novidades e curiosidades. Há pouco tempo deparei-me com a apresentação do novo simbolo deste banco e pensei logo "olha! isto dava um "post" bem engraçado no meu blogue!". O problema é que esses anuncios foram retirados de microfilmes cuja imagem não estava no melhor estado pelo que tive de fazer o seu restauro o que ainda me levou algum tempo, mas podem crer que foi feito com muito gosto.

Angola - Baía de Luanda
  
Até meados dos anos 50, apesar das vastas possibilidades em multiplos sectores económicos, o sistema bancário angolano, contava apenas com o Banco de Angola criado em 1926 e que detinha também as funções de banco emissor. Esse paradigna só iria mudar com a lei nº 2061 de 9 de Maio de 1953 que veio reformar o sistema bancário no ultramar, estabelecendo bases mais adequadas à autorização e funcionamento de bancos no Ultramar. Refra-se que esta reforma, estava inserida nas novas linhas de planificação económica (Os chamados Planos de Fomento) adoptadas por forma a estimular os diversos sectores da vida nacional (industria, transportes, obras publicas, ultramar etc.). O banqueiro Cupertino de Miranda, criador do Banco Português do Atlântico foi o primeiro a perceber as inúmeras possibilidades que a então florescente economia angolana lhe poderia oferecer e assim em 1955 fundou o Banco Comercial de Angola. Nos anos 60 apesar do deflagrar da guerra, a economia Angola não esmoreceu, mostrando sinais de grande vitalidade e de expansão continuando a interessar os grupos económicos nacionais. Como consequência desse facto surge em 1965 o Banco de Crédito Comercial e Industrial (sob a égide do Banco Borges e Irmão). No ano seguinte foi a vez do Grupo CUF se interessar por este sector, o que levou o Banco Totta-Aliança a fazer uma joint-venture com o Standard Bank of South Africa surgindo assim o Banco Totta Standard de Angola e o Standard Totta de Moçambique. Seguidamente foram fundadas outras instutuições bancárias como o Banco Pinto & Sotto Mayor de Angola em 1967 ou o Banco Inter-unido fundado em 1973 cujos os capitais perticiam à familia Espirito Santo. 

Após esta breve introdução ao sistema bancário angolano, foque-mo-nos no logótipo do Banco Totta Standard de Angola conforme se poderá ver nas digitalizaçoes e anuncios em anexo. O Simbolo em forma de escudo de côr castanha com as letras TS a branco e o nome do banco por extenso em letra preta. Este logótipo acompanhou o crescimento e a expansão do Banco tendo sido completamente reformulado em Janeiro de 1974.

Primeiro Logótipo do Banco Totta Standard de Angola

Anuncio de Agosto de 1966

Anuncio de 1973

Entre Janeiro e Fevereiro de 1974, o Banco Totta Standard de Angola, elabora uma intensa campanha publicitária (curiosamente elaborada por outra empresa pertencente ao Grupo CUF: a Penta Publicidade) nos meios de comunicação social do território nomeadamente na A Provincia de Angola  no Diário de Luanda, Revista Noticia etc. Ao longo dos mês de Janeiro e em foi sendo desvendado o novo simbolo em forma de "teaser". Não sei se nesta época  era já comum fazer-se anúncios deste género, mas de facto encontro neles alguma comparação aos anúncios do mesmo género que se fazem na actualidade. Até posso estar a dizer uma barbaridade e se de facto o estou, agradeço que me corrijam.

O novo logótipo detém um design e um letering moderno tipicamente anos 70. O símbolo passa a ser em forma de circulo com as letras TS a branco e fundo azul claro. Como é dito num dos anuncios o Banco "já não cabia no seu antigo simbolo e por isso criaram um simbolo novo mais voltado o futuro" que pretendia ser a sua imagem de marca para os próximos anos. Refira-se que à época a economia angolana estava numa fase de crescimento sem precedentes. No periodo de 1960 a 1973 apresentava taxas de crescimento anuais de 7% ao ano, sendo que no inicio da década de 70 a industria representava 41% do PIB. À epoca o Banco Totta Standard de Angola contava com 54 agencias espalhadas por todo o território (registe-se que só em 1973 tinham sido abertas novas 14 agencias bancarias) o que demonstrava a plena confiança que esta instituição tinha no futuro da economia angolana.


A Provincia de Angola - 20 de Janeiro de 1974

A Provincia de Angola - 24 de Janeiro de 1974

A Provincia de Angola - 30 de Janeiro de 1974

A Provincia de Angola - 2 de Fevereiro de 1974


Revista Prisma - Março de 1974

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Terrina da Sociedade Geral

Eis uma bonita terrina da Sociedade Geral, produzida pela Vista Alegre entre o período de 1947-68. Como se poderá ver no seu bojo tem também o carimbo da antiga Casa José Alexandre, casa a quem a Sociedade Geral encomendava as suas louças. Olhando com todo o detalho, consegue-se perceber que osenfeites das pegas foram feitos á mão. Foi sobrevivendo até hoje, ao tempo e ao uso, o que é verdadeiramente notável. É bem possível que tenha andado em algum dos navios desta empresa que sulcuram os mares entre os anos de 1922 e 1972. 






segunda-feira, 30 de abril de 2018

Vinhetas da CUF

Há já algum tempo tive o prazer de adquirir estas quatro vinhetas relacionadas com a CUF. Penso que seriam utilizadas nos seus envelopes ou cartas. Serão certamente dos anos 30 ou 40 pelo tipo de mensagem inscrita. Contudo não deixam de ser um belissimo testemunho de um pensamento e de uma época. 



segunda-feira, 9 de abril de 2018

Saca de Nitrato do Chile

Em finais do século XIX, inícios de XX, o Chile tinha uma abundante reserva de um químico precioso: o Nitrato de Sódio, que à època era também designado por Ouro Branco ou Salitre. É um composto químico, cristalino inodoro e incolor. É solúvel com água, álcool e amónia liquida. Usado maioritariamente como fertilizante agrícola e para o fabrico de explosivos, o Chile começou a exportar este mineral para a Europa na década de 1820. O seu valor de mercado e importância foram crescendo, tendo levado mesmo a uma disputa que ficou conhecida pela "Guerra do Pacifico" (também conhecida por Guerra do Salitre) que decorreu entre 1879 e 1883. As razões deste conflito centravam-se nos territórios da região do Deserto do Atacama, rico nesse mineral, levando a uma contenda por parte do Chile, Perú e a Bolívia, da qual os chilenos saíram vitoriosos.  


Desde cedo, a empresa proprietária da marca Nitrato do Chile apostou forte na propaganda, como forma de aumentar os seus lucros. À época a publicidade estava ainda na sua primeira infância, contudo quem soubesse criar uma imagem marcante, que se destacasse da concorrência era meio caminho andado para o sucesso. Na Península Ibérica dos anos 30, a sua estratégia publicitária, passou por colocar painéis de azulejo (material mais barato e com muita durabilidade) cuidadosamente colocados à entrada das localidades, ou lugares centrais para que a sua mensagem chegasse a todos.

Painel Publicitário

Quem percorra o país rural de lés-a-lés pela sua rede de estradas nacionais, irá encontrar inúmeros painéis publicitários do Nitrato do Chile, que ainda hoje resistem ao tempo e às mudanças do mundo. Aqui como na vizinha Espanha, o anúncio a estre produto acabou por tornar-se num dos ícones publicitários do século XX.

Botoeira do Nitrato do Chile
Mas sempre me surgiu a interrogação: "Quem teria sido o criador deste símbolo?" Aparentemente tudo leva a crer que a ideia terá surgido pela mão de Adolfo López-Durán Lozano. Este estudante madrileno de arquitectura terá sido convidado a pintar um anuncio por um professor do seu curso que presumivelmente teria uma ligação com a empresa chilena de nitratos. A empresa gostou do resultado final, e assim nasceu o homem com chapéu de abas largas sentado em cima de um cavalo que fez parte do imaginário e do quotidiano de tantas e tantas gerações. 

Em Portugal a Companhia União Fabril foi desde cedo o distribuidor oficial do Nitrato do Chile e quem consulte, revistas de agricultura como a "Gazeta das Aldeias", irá certamente encontrar um anúncio a referir tal facto. Veja-se por exemplo este lançado logo depois do final da II Guerra Mundial: 



A saca de juta que aqui vos apresento é já bem mais recente, devendo datar de finais do anos 60 mas que como podem observar se encontra em optimo estado de conservação:

                               
   

                                                                                                                                                             
Anúncio de 1969 ao Produto

                                                                                         
Pegando no "Simposium Agro-Pecuário" lançado em 1969 vamos ver o que ele nos diz sobre o Nitrato de Sódio do Chile:

Composição: Fertilizante azotado natural, de fórmula química NaNO3, contendo 16% de azoto sob a forma nítrica, além de pequenas quantidades de micronutrientes, dos quais se destaca o boro.

Indicações: Pelo facto de conter o azoto sob a forma nítrica, é prontamente assimilado pelas plantas, às quais concede vigor imediato. Convém, em geral, a todas as terras e pode empregar-se em todas as culturas, no começo da sua vegetação, ou em cobertura.
Pode misturar-se em qualquer altura com os adubos potássicos, e com o superfosfato de cal, na altura da aplicação.

Doses: Desde 100 a 700 Kg por hectare

Apresentação: Em sacos de juta com 50 Kg

sábado, 7 de abril de 2018

O lançamento à agua do navio «São Macário»

Enquanto meio mundo se digladiava num terrível conflito à escala mundial, Portugal felizmente via a guerra a passar-lhe ao lado. Porém os ecos da guerra faziam-se sentir na vida de todos, racionamento de bens alimentares, escassez de matérias-primas, o ambiente é tenso e surgem greves na cintura industrial de Lisboa. Porém nem tudo são nuvens negras no horizonte a comprová-lo estão as palavras que se seguem.


Cartão de Convite do Estaleiro Naval da CUF

O dia 26 de Janeiro de 1944 nasceu soalheiro, fazendo certamente esboçar sorrisos de contentamento por ente os responsáveis da CUF e da Sociedade Geral. No Estaleiro Naval da A.G.P.L. (arrendado à CUF desde Janeiro de 1937) fazem-se os últimos preparativos para a cerimónia de lançamento de mais um navio à água: o São Macário. Junto à sua proa foram erguidas duas tribunas, uma para os elementos oficiais e outra destinada aos convidados. 


Vista Aérea do Estaleiro da A.G.P.L.

Pouco depois das 15 horas, uma força de marinha com a respectiva banda de musica alinhou a um dos lados da porta leste do Estaleiro, junto à Central da Carris (onde hoje se encontra a Adega do Kais). Foram muitos os convidados que, pouco a pouco, iam chegando ao local da cerimónia: Ministros da Marinha, Economia e Colónias, sub-secretários de Estado das Obras Públicas e do Comércio, Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Major General da Armada, Governador Militar de Lisboa, Presidente da Junta Nacional da Marinha Mercante (que à época era presidida por Américo Thomaz), directores das Companhias Colonial e Nacional de Navegação, (Bernardino Correia e Jaime Thompson) Carregadores Açoreanos (eng. Gago Medeiros), Empresa Insulana de Navegação (Vasco Bensaúde) para além de uma lista mais extensa que seria de fastidiosa leitura. Os convidados foram recebidos por D. Manuel de Mello, Aulânio Lobo (gerente da Sociedade Geral), Vasco de Mello (Director do Estaleiro). eng. Sá Nogueira (Administrador do Porto de Lisboa) engs. Sousa Mendes, Américo Rodrigues, Almiro Martins e mestres Peres e Ramos que tomaram parte na direcção dos trabalhos de construção do «São Macário».
  ÀS 16 horas em ponto chegou o General Carmona acompanhado do general Amílcar Mota e do capitão Carvalho Nunes da casa militar da Presidência. Depois de passada a respectiva revista à guarda de honra, o Chefe de Estado subiu á tribuna onde a convite de D. Manuel de Mello, o General Carmona deu com um pequeno martelo a pancada no aparelho que impeliu a garrafa de champagne contra o navio, fazendo-o deslizar pela carreira de construção até à agua.


Carmona no momento de impelir a garrafa de champanhe contra o navio



Por entre salvas de palmas, o toque das sereias dos navios e «A Portuguesa» tocada pela banda da Armada, o «São Macário», desliza suavemente pelas calhas da carreira até às águas do Tejo. Os operários do estaleiro que se encontravam a bordo do navio agitavam os seus bonés em sinal de regozijo.


Foto do lançamento à água do «São Macário»


De seguida D. Manuel de Mello usou da palavra começando o seu discurso com estas interessantes palavras:


D. Manuel de Mello discursando

"Ao tomar a C.U.F., em 1 de Janeiro de 1937, posse da exploração dos estaleiros da Administração Geral do Porto de Lisboa, o sr. Alfredo da Silva, meu saudoso sogro, espirito da elite, ao qual devem todas as industrias do país e que à construção naval se dedicou com entusiasmo, tendo sido nos estaleiros do Barreiro o iniciador em Portugal da construção de navios em ferro..."


Deixem-me abrir aqui um parenteses para referir que de facto este estaleiro existiu, localizado no porto privativo do Complexo da CUF no Barreiro. Foi criado com o fito de dar apoio à emergente frota da Sociedade Geral, sendo ali fabricados rebocadores (como o Estoril em 1931) e navios (como o Costeiro II em 1933, sendo à época o maior navio mercante em ferro construído em Portugal). Em 1937 com a concessão do Estaleiro do Porto de Lisboa à CUF, as suas actividades cessam, sendo transferidas na totalidade para a Rocha Conde de Óbidos.

 Mais à frente no seu discurso D. Manuel de Mello irá afirmar que Portugal "...precisa na realidade de aumentar a sua frota mercante. Todas as províncias ultramarinas necessitam contacto directo e frequente com a Metrópole. É indispensável que a bandeira portuguesa volte a flutuar nos barcos que hão-de aproar à India, a Macau, Timor e também às nações onde temos colónias populacionais importantes, como o Brasil e os Estados Unidos da América do Norte. 
Alguma coisa têm feito já os armadores no que se refere ao aumento das frotas. É, porém pouco por enquanto, para o necessário. Mas mais não era possível fazer. 
Os recursos são poucos e a Marinha Mercante portuguesa não se tem aproveitado da guerra para amealhar fartos proventos. 
Permito-me em nome dos armadores...pedir a V. Exa., sr. Presidente e a V. Exas. srs. Ministros que olhem para a Marinha Mercante não só com o carinho posto em tudo quanto é de interesse nacional, mas que a tratem com desvêlo e os cuidados especiais que merece, a um pai, o filho doente.
Muito doente mesmo.
À insuficiente mas incansável Marinha Mercante nacional se deve, na hora difícil e atribulada que atravessamos, ter proporcionado ao país, numa faina esforçada e constante, parte do indispensável à nossa alimentação.
Já por essa demonstrada insuficiência, já pelo trabalho aniquilante que se lhe tem exigido, impõe-se a construção de mais barcos, construção que deve ser levada a efeito em Portugal, desde que tenhamos operários e engenheiros competentes. 
Terão de modificar-se os estaleiros, designadamente este da Administração do Porto de Lisboa, para que seja possível construírem-se navios de maior tonelagem do que até aqui, mas e desideratum nacional do desenvolvimento da frota mercante portuguesa só se conseguirá desde que se restabeleça, mas em condições interessantes, um subsídio à construção, aliviando-a também de encargos que sobre ela hoje pesam."

Estas satisfações seriam concedidas aos armadores no ano seguinte com o chamado Despacho 100 da autoria de Américo Thomaz então Ministro da Marinha. 

No final do seu discurso D. Manuel de Mello irá justificar o nome dado ao navio: "Tomou este novo barco o nome de «São Macário», santo patrono dos caldeireiros e, assim prestamos homenagem ao esforço e boa vontade demonstrada pelos operários nas construções que temos realizado neste estaleiro". 





Este navio esteve ao serviço da Sociedade Geral até 1972, ano em que transita para a CNN com a fusão destas duas companhias. Em 1974 será vendido à Componave sendo rebaptizado de «Silmar»

quinta-feira, 8 de março de 2018

Número Especial do Jornal da FILDA produzido pela SIGA

A vida tem coisas curiosas. Comprei este jornal da Feira Industrial de Luanda (FILDA) porque desde muito novo sempre me interessei por aquilo a que no passado se designava por "Ultramar Português". Gosto de estudar a sua economia, as suas cidades, arquitectura, história, enfim um pouco de tudo! Pois estava eu a dizer que quando comprei este jornal, que vos irei apresentar a seguir, estava longe de imaginar que me iria cruzar com o Grupo CUF. Comprei-o pela curiosidade de ter sido feito em plástico, e deter boas fotografias da Feira de 1972 coisa que até agora nunca tinha visto. Depois de uma leitura atenta, qual não é o meu espanto de ler que este numero especial tinha sido produzido pela SIGA! 

Página 1

Páginas 2 e 3

Página 4



A SIGA - Sociedade Industrial de Grossarias de Angola, foi criada em 1951, possuindo instalações fabris em Luanda, e duas propriedades agrícolas, uma em Cassoalala com 450 hectares, e outra próxima da cidade de Santa Maria (Duque de Bragança) com uma área de 4000 hectares.  Em 1971 o seu volume de vendas atinguiu o montante de 116 mil contos. 

As suas instalações fabris eram compostas pelas seguintes unidades:

  • Fábrica de sacaria e têxteis de juta
  • Fábrica de têxteis e sacos de polietileno e polipropileno
  • Fábrica de feltros de juta e sisal
  • Fábrica para a produção de plásticos por extrusão e injecção sob a forma de tecidos, sacos e artigos diversos
  • Fundição
  • Oficinas Metalo-mecânicas

Nota: Esta é uma breve resenha da vida desta empresa, pois espero acrescentar dados novos e informações mais detalhadas sobre ela num futuro próximo.  


quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

E porque é Carnaval....

Nada melhor que mostrar o que até há uns anos me chegou ás mãos: um dos fatinhos do carnaval das escolas do Barreiro do ano de 2013.

E advinhem qual foi o tema? É isso mesmo! Os miudos do Externato Diocesano D. Manuel de Mello num rasgo de originalidade mascararam-se imitando as  sacas de adubos da CUF!

Resta-me agradecer ao meu bom amigo Norberto Santos que me ofereceu esta curiosidade que apesar de recente, demonstra que a memória da CUF ainda está à flor da pele na cidade do Barreiro. Ainda bem que assim é.


Frente

Verso 



Fontos do Carnaval das Escolas do Barreiro 2013 - Fonte Jornal Rostos

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

A Induve

Esta minha primeira postagem deste novo ano de 2018, demorou um bocadinho mais do que eu estava a espera pois fui encontrando novos dados que me levaram a reformular o texto que agora se apresenta. É dedicada a um tema muita vezes esquecido ou ignorado: os negócios ultramarinos do Grupo CUF. Talvez por a informação disponível ser parca, é ainda hoje uma área que se encontra praticamente por estudar. Se  juntarmos a esta problemática as longas guerras civis, tanto em Angola como em Moçambique, e o consequente desaparecimento/destruição, não só dessas unidades industriais,  bem como dos seus arquivos, não nos restará por certo, grande margem de manobra para um estudo detalhado sobre tais actividades.  

Apesar da CUF ter alargado os seus negócios ao Ultramar português logo em 1919, (criação da Casa Gouvêa na Guiné e mais tarde a Companhia do Congo Português em Angola) ainda sob a liderança de Alfredo da Silva, será apenas nos anos 50 que o Grupo estende exponencialmente as suas actividades económicas a estes territórios. Ali iriá criar empresas abarcando os mais variados sectores e produtos: minérios, industria alimentar, cordoaria, banca, seguros, navegação representações de marcas, etc.


Porta-chaves da Induve


Vista da Fábrica em 1967
A INDUVE - Industrias Angolanas de Óleos Vegetais S.A.R.L. foi criada em Agosto de 1957 nessa vaga de investimentos, com vista ao aproveitamento das matérias-primas ultramarinas. O seu capital accionista encontrava-se repartido pelas seguintes firmas: CUF, Sociedade Nacional de Sabões, Macedo & Coelho, Comfabril e Sovena. Os dois anos que se seguiram foram dedicados à construção das modernas instalações fabris, situadas às portas de Luanda, na Estrada do Cacuaco. Dedicada essencialmente à extracção e refinação de oleos vegetais, fabrico do sabão e rações para animais a marca Induve foi crescendo, impondo-se no mercado angolano ao longo dos anos. Mas não se pense que os primeiros anos foram fáceis, marcados por um periodo em que apesar do grande esforço dispendido, a situação das suas contas/lucros encontrava-se altamente deficitária. Tudo estava por fazer, e a Induve percebeu que para reverter a situação em que se encontrava era preciso mudar a sua estratégia. Numa terra com tão vastas potencialidades agrícolas como Angola, não fazia sentido estar-se a importar oleaginosas para o fabrico do oleos alimentares. Assim, um dos objectivos primaciais da empresa, passou pelo incremento da produção local da matéria-prima oleaginosa tão necessária à sua laboração.


Vista da Fábrica - anos 60


Stand da Induve - FILDA 1972
Criadora de marcas como, o óleo de amendoim Maná, o óleo de girassol Gisol, ou o óleo de milho Solmil, representava ainda as consagradas marcas metropolitanas como o Clarim e o Tudóleo da Sovena. Os grandes esforços iniciais acabaram por ser largamente compensados, pois em 1969 a Induve é já responsavel por 33% da produção de sabão, 40% da produção de óleo de amendoim e 85% da produção de óleo de girassol de Angola, valores que mostram a grandeza e importância desta empresa no território. No ano seguinte a companhia produziu 61,6% dos oleos comestiveis e 49,1% dos sabões consumidos em Angola. Tudo isto só foi possivel pela grande racionalização dos processos de fabrico apoiados por um elevado "Know-How" bem como de meios humanos (refira-se que entre 1969 e 1973 o quadro de pessoal passou de 280 para 440 elementos). Em 1971 foi modernizada a sua Saboaria, tendo-se instalado uma nova linha de arrefecimento contínuo de sabões, nesse ano foi também ampliada a capacidade da fábrica de óleos, com a entrada em funcionamento de uma nova unidade de extração por dissolventes (Unidade De Smet sobre a qual já havia falado no meu blogue em Julho de 2010) elevando o seu nível de transformação para 120 Ton/dia. A Induve era presença constante nos mais diversos certames e feiras de Angola, caso da FILDA (Feira Internacional de Luanda).


Anuncio de 1972


Anuncio de Aumento de Capital - 1974
Para além de utilizar matéria-prima 100% angolana a empresa dava também o seu contributo para a divulgação de adquadas técnicas agrícolas. Em 1973/74 devido á forte expansão do sector de alimentação e higiene em Angola, a Induve tinha já previsto um plano de expansão do aumento da capcidade de refinação de óleos de 8.100 para 21.600 toneladas/ano, a duplicação da produção de sabões e a entrada no campo dos detergentes. Planeava-se ainda a criação de uma nova unidade de aproveitamento de glicerina destinada à exportação. Este programa de investimentos estava orçado na ordem dos 75 mil contos, facto que levou a empresa em Novembro de 1974 a lançar um aumento de capital social de 65.000 para 100.000 contos para fazer face a tais encargos. Porém, como se pode ler no relatório e contas da empresa, referente a esse ano, o momento escolhido para o fazer não foi o mais propício: "o mercado financeiro de Angola estava acusando [...] as consequências de uma agitação social que afectava sensivelmente a actividade económica". Maís à frente o texto justifica da seguinte forma outra das razões de tal insucesso: "Verificou-se de facto, que o grande investidor não aproveitou esta oportunidade de comparticipar de um empreendimento, que é útil e rentável. Apenas a pequena poupança se interessou, com o número de adesões apreciável mas de fraca expressão no montante a subscrever." E a partir de 1974-75, com grande pena minha, não possuo mais dados sobre a empresa, porque deixam também de haver jornais de Angola nos arquivos e bibliotecas portuguesas.


Botoeira da Induve para colocar no casaco




Na actualidade a Induve S.A. é uma das joias da coroa do Grupo Phoenician Eagle que investiu uma elevada soma de capitais com vista à sua modernização. Possui hoje equipamento e tecnologia do mais moderno que existe no campo da produção da farinha de milho com uma capacidade instalada de 450 toneladas/dia, bem como 100 toneladas/dia de rações para animais. Em 2007 foi construida uma nova fábrica de engarrafamento de óleos alimentares com capacidade de encher 6000 garrafas e 500 "jerrycans" por hora. Actualmente trabalham na Induve S.A. mais de 250 empregados. Tal como no passado, a empresa continua a deter um papel importante no fomento das matérias-primas locais, participando com o governo em programas de incentivo a determinados tipo de culturas (caso do milho). É curioso verificar que ao longo destes 61 anos de existência ainda hoje o óleo Maná é uma marca de referência da empresa às quais se juntaram entretanto novas marcas tais como: Tia Bella, Fubada, Romana, Nossa Fuba, Solmilho, Gazela do Norte, Óleo d´Ouro, Óleo Dourado e Óleo Kamba.


Vista Parcial das Instalações Industriais da Induve na actualidade



Moderna Linha de ensacamento de farinhas
Fontes Consultadas:


  • Relatórios e Contas da Induve (1967, 1968, 1971 e 1974)
  • Jornal "A Provincia de Angola"
  • The CUF Group - 1969
  • O Grupo CUF - 1972

domingo, 24 de dezembro de 2017

Postal de Boas Festas da Equimetal

A poucas horas da celebração de uma das maiores festas de caracter religioso, não poderia deixar de desejar a todos os visitantes e leitores deste meu blogue votos de um Feliz Natal e um Próspero Ano Novo de 2018. Aqui vos deixo um bonito postal de Boas Festas editado pela Equimetal, empresa criada em 1973 no seio do Grupo CUF resultando de uma politica de descentralização e autonomização das antigas divisões da empresa (neste caso a sua antiga Divisão de Metalomecânica). Como poderão ver o bonito desenho da capa que tenta ilustrar a súmula das actividades da empresa encontra-se assinado por F. Lourenço. Se por acaso alguém conhecer ou saber mais sobre este artista digam.me alguma coisa.  

Capa do Postal
Interior do Postal