segunda-feira, 27 de agosto de 2007

A Inauguração do Estaleiro da Margueira, 23 de Junho de 1967


Gostaria neste post de vos apresentar uma reportagem feita pela Revista de Informação Interna da Lisnave aquando da inauguração solene do seu novo Estaleiro da Margueira a 23 de Junho de 1967. Mais outro grande empreendimento do Grupo C.U.F., sendo também o primeiro grande investimento industrial nacional praticamente virado para o mercado externo. Este rapidamente obteve sucesso imediato, pois em 1969 a Lisnave reparava cerca de 30% da frota mundial de petroleiros. Contribuía fortemente para a economia do país com a sua fonte de divisas. E como a meu ver, não há nada melhor que ler uma reportagem feita por quem esteve presente e assistiu a cerimónia deste acontecimento, pois aqui vai ela.

“«… A construção de um novo estaleiro naval no estuário do Tejo, convenientemente dimensionado e equipado para poder reparar e construir navios de grande porte, nacionais e estrangeiros, tem constituído desejo permanente das entidades ligadas ao nosso meio marítimo e, de modo geral, aos responsáveis pelo desenvolvimento económico do País. Efectivamente, a necessidade do novo estaleiro de Lisboa encontra plena justificação não só em razões de ordem histórica, mas também, e de sobrado valor, em motivos de ordem económica».

Estas foram algumas das palavras proferidas, no dia 6 de Abril de 1964, pelo Presidente do Conselho de Administração da Lisnave, José Manuel de Mello, aquando do acto do início da construção no novo estaleiro da Margueira.

Por volta das 14 horas, já o vasto recinto – onde as bandeiras, as flâmulas e os pendões ondulavam suavemente, beijadas por um sol quente e aberto – apresentava o ambiente alegre e colorido das ocasiões festivas.
Começava chegando o caudal imenso das 7500 pessoas que se esperavam assistissem à cerimónia.
Na doca nº 12, o “Príncipe Perfeito”, enquadrava-se na panorâmica da festividade.

Cerca das 15:45 horas, quando tudo se encontrava a postos para o momento da inauguração oficial, deu entrada no recinto do estaleiro o Chefe do Estado que, junto do “Príncipe Perfeito”, recebeu os cumprimentos do Presidente do Conselho de Administração da Lisnave, José Manuel de Mello, Administrador Dr. Jorge de Mello e directores-gerais João Rocheta e Thorsten Andresson.
Dirigindo-se para a tribuna central e adiantando-se até junto do parapeito da doca principal, o Chefe do Estado descerrou uma lápida comemorativa da inauguração, na qual se lia o seguinte:

AOS 23 DE JUNHO DE 1967, SUA EXCELÊNCIA O SENHOR ALMIRANTE AMÉRICO DEUS RODRIGUES THOMAZ, PRESIDENTE DA RÉPUBLICA PORTUGUESA, INAUGUROU ESTE ESTALEIRO NAVAL, EMPREENDIMENTO NO QUAL SE CONGREGARAM HOMENS E CAPITAIS PORTUGUESES, HOLANDESES E SUECOS E CUJA COLABORAÇÃO E ESFORÇO SE DEVEM O PROJECTO E CONSTRUÇÃO DESTE ESTALEIRO, A PREVISÃO DO SEU FUTURO DESENVOLVIMENTO E A FORMAÇÃO DO SEU PESSOAL.

Nas tribunas que se alongavam a um lado e outro da doca nº 11 – a maior da Europa e uma das maiores do mundo – encontravam-se já o Cardeal Patriarca de Lisboa, Ministros, membros do Corpo Diplomático e outras altas individualidades, representantes de grandes companhias de Espanha, França, Bélgica, Holanda, Inglaterra, Dinamarca, Suécia, Noruega, Alemanha, Suiça, Mónaco, Malta, Japão e Estados Unidos e cerca de 5000 empregados e seus familiares.

Então premindo o comando automático a distancia, o Chefe do Estado fez funcionar as válvulas de enchimento da doca principal tendo sido, em seguida, pelo Cardeal Patriarca de Lisboa, lançada a bênção às novas instalações.

De seguida discursou o Presidente do Conselho de Administração da Lisnave, onde referiu aspectos históricos da obra, assim como aspectos técnicos. Final do seu discurso deixou um sincero agradecimento a todo o pessoal da Lisnave.

Discursou em seguida o titular da pasta de economia Dr. Correia de Oliveira, após o seu discurso o Chefe do Estado coadjuvado pelo Dr. Correia de Oliveira e José Manuel de Mello impôs, a várias individualidades suecas e holandesas ligadas à Lisnave e ainda a técnicos e operários que colaboraram no projecto e execução do novo estaleiro, as insígnias das condecorações com que decidiu agraciá-los.

Na cerimónia estiveram presentes à inauguração dos novos estaleiros, 19 jornalistas estrangeiros: - sete ingleses, três suecos, dois noruegueses, dois americanos, dois holandeses, um francês, um alemão e um grego.

Associando-se à inauguração do novo Estaleiro da Lisnave, os C.T.T. puseram em circulação, no passado dia 23 de Junho, uma série especial de quinze milhões de selos comemorativos do acontecimento.”

Fonte: Revista Interna da Lisnave, Junho de 1967

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Alfredo da Silva faleceu há 65 anos

Alfredo da Silva faleceu no dia de hoje há 65 anos, deixando um império industrial fundado pelo seu cunho. Foi durante toda a sua vida um homem enérgico, e que nunca aceitou um “não” como resposta. Desde cedo teve de lutar para alcançar o topo, e nunca se esqueceu dos seus colaboradores e operários, como hoje infelizmente é usual fazer-se. Homem directo e sincero de poucas palavras, o seu habitat era sem duvida entre o seu escritório e junto das suas Fábricas.

Desde cedo e devido aos seus negócios viajou pela Europa onde visitou grandes complexos industriais, vindo a realizar no Barreiro um complexo industrial que podia rivalizar com qualquer outro na Europa ou mesmo no Mundo. Em Portugal a CUF veio introduzir novas formas de trabalho e novas profissões, o Complexo do Barreiro era um mundo em constante ebulição. Amado por muitos, temido por alguns, há quem diga que o Dr. Salazar, tinha medo da sua figura, por dizer nas suas palavras “querer andar depressa demais”. Mas isso como se sabe nunca foi impedimento para o génio de Alfredo da Silva, pode-se mesmo dizer que teria o chamado Toque de Midas.

Pelo meio também teve alguns projectos que falharam, o caso do arrendamento á CUF da Linha Sul e Sueste, ou nos anos 20 o negocio da Companhia Portuguesa de Rádio Marconi. Alfredo da Silva foi verdadeiramente o primeiro industrial com “I” num país com uma falta crónica de indústria. Havia uma frase que dizia “O que o País não tem, a CUF produz” e durante décadas foi uma verdade, contribuindo assim para um melhor desempenho económico do pais, passando em vez de importar certos produtos, a exporta-los.

As suas politicas socais eram exemplares, numa época onde a CUF se substituiu aos deveres sociais do Estado. Bairros Operários, Refeitórios, Centro Medico, Escolas faziam parte de equipamentos de bem-estar construídos para a então chamada Família Cufista. E quando Alfredo da Silva faleceu havia ainda tanto por realizar por planear. Mas esse trabalho foi feito pelos seus seguidores que sempre estiveram à sua altura. Ao seu funeral compareceram centenas, de empregados, e figuras públicas. Para esse dia deixou em testamento como ultima vontade que as suas fábricas não parassem em seu sinal de luto, até na morte Alfredo da Silva se preocupava com as suas fábricas.

Desapareceu um dos maiores vultos da Industria Portuguesa a 22 de Agosto de 1942, um Capitão da Indústria, pena é que homens como este só apareçam raramente. De quantos Alfredos da Silva precisava hoje este país que se encontra num marasmo económico e quase sem indústria? De quantos homens deste génio precisávamos nós agora, com ideias e com força para mover e fazer uma nova arrancada neste país? De quantos Alfredos da Silva precisávamos para mudar a forma de olhar o país, e de se criar um nova justiça social para os trabalhadores? Vou termirar este texto como uma frase sua que é uma grande verdade e que define bem o seu génio:

"O que tivemos que Lutar… Foi Muito, não é ocasião para se enumerar, conseguiu-se, é o principal.”

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Chapas de identificação da C.U.F.

Na CUF como noutras grandes empresas e para melhor identificação, os trabalhadores das várias Zonas Fabris usavam chapas de identificação. No meio da chapa, essa área era pintada da cor correspondente da Zona, ou secção de serviço. Esta chapa era colocada no fato de trabalho, na zona do peito do lado esquerdo para sua identificação, sendo usada pelo trabalhador até ao fim do seu turno.

domingo, 19 de agosto de 2007

Os Navios Cabo Verde e Cabo Bojador da S.G.

No princípio dos anos 70, e com o início da Contentorização a S.G. adquiriu dois navios de carga preparados para essa inovação que passaram a operar na linha da Guiné em 1971. Esses dois navios foram baptizados de Cabo Verde e de Cabo Bojador. Foram construídos em 1962 pela Kieler Howaldtswerke Aktiengesellschaft.



Caracteristicas Gerais:

Comprimento de fora a fora: 108,20m
Comprimento entre Pp.: 98,20m
Boca Máxima: 15,63m
Boca na ossada: 15,60m
Pontal ao convés: 9,00m
Pontal à 1ª. Coberta: 6,50m
Arqueação bruta = 4.100 t
Arqueação líquida = 2.200 t
Calado à marca (Verão) 7,54m
Porte correspondente = 5.400 t
Velocidade 14,5 nós

Sociedade ClassificadorA: Norske Veritas

Classificação: 1 A 1 – JS C

Capacidade de carga, granel: 6.939,3 m3

Capacidade de carga frigorifica
Granel – 518, 9 m3
Fardos – 500,6 m3

Capacidade de carga líquid:359,8 t

Capacidade de combustível Fuel – 262,88 t
Diesel – 84,84 t

Capacidade de lubrificantes:47,52 t

Capacidade de aguada: 125,22 t

Tripulação: 25 homens

Propulsão: Motor Diesel Make Man
Tipo k6z60/105 C simples efeito, 6 cilindros

Fonte: Brochura da S.G. sobre os navios Cabo Verde e Cabo Bojador (sem data)

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Palavras do Dr. Jorge de Mello, aquando da inaguraçao da Estátua de Alfredo da Silva no Barreiro a 30 de Junho de 1965

Neste post, pretendo mais uma vez homenagear a figura de Alfredo da Silva. Aproximando-se o dia da sua morte (22 de Agosto) achei que as belas palavras ditas pelo seu neto, no Barreiro, aquando da inauguração da respectiva estátua, são por si só uma bela forma de prestar homenagem a tão grande vulto nacional.

“É com profundo respeito que me curvo perante a figura veneranda de Vossa Excelência, a quem saúdo, em nome dos meus, e no meu próprio nome. A Vossa Excelência, Senhor Presidente peço mercê, para respeitosamente beijar a mão da excelsa Senhora que Deus a V. Ex.ª uniu, como testemunho cristão de Família Portuguesa.
Com profunda emoção, assistimos hoje, nós, a Família de Alfredo da Silva, à homenagem que lhe é prestada e que Vossa Excelência, Senhor Presidente da República, quis valorizar, com a sua prestigiosa presença. Que mais alta dignidade poderíamos nós desejar, em acto público, para nós tão comovente?!
Que melhor dia poderia ter sido escolhido, a identificar um Homem com a sua obra?!

A Vossas Excelências, também, Senhores Ministros, Senhores Secretários e Subsecretários de Estado, a todos quantos quiseram estar presentes, para que bem testemunhado fosse o preito de justiça que aqui se rende, nós envolvemos na mesma gratidão e no mesmo reconhecimento.
Ao Senhor Presidente da Câmara e ao Município do Barreiro que mandaram construir este monumento, em realização pela da ideia pela primeira vez surgida em 1952, a gratidão muito comovida da família de um homem que tanto amou o Barreiro.

Senhor Presidente da República, nós temos bem presente o apoio e carinho que a Vossa Excelência merecem as iniciativas industriais. Não temos dúvida de que essas iniciativas as toma Vossa Excelência pelo seu verdadeiro sentido: o da elevação do nível de vida dos portugueses.
Também assim pensava meu Avô, que Vossa Excelência conheceu de perto.
Por isso, e pela sua excepciona capacidade realizadora, foi-lhe possível materializar o pensamento nessa grande obra que é a nossa CUF e cujo centenário hoje comemoramos.
De Alfredo da Silva tem sido já traçada larga biografia. Foram feitas há momentos, perante a sua simbólica figura, afirmações que bem poderão ser de reconhecimento e gratidão, mas que são também de estímulo e de fé. Foi traçado já o perfil de um grande homem e nós podemos contemplar a vastidão da sua obra.

Mas… do meu Avô, como seu neto, mais alguma coisa se poderá acrescentar:
Em peço licença a Vossa Excelências para dizer como conheci meu Avô: conheci-o na intimidade; assim como um neto pode conhecer… de roupão e chinelos.
Em verdade foi um homem simples, e extremamente humano, que antes de mais conheci. O homem bom, que soube ser grande; que viveu com entusiasmo, mesmo nas ocasiões difíceis, o animo e a coragem dos fortes… dos muito fortes.

A sua Família, éramos só nós, nos primeiros passos da sua vida. Depois, éramos já todos nós, pois a Família CUF foi para o meu Avô tão familiar, como aquela a quem nas poucas horas de ócio se entregava, nos limites circunscritos do seu lar.
Muitos dos que estão presentes e que com o meu Avô colaboraram, dele me têm contado, em saudosa recordação, pequenos episódios do passado. E eu sinto, que ainda hoje, esta faceta humana de meu AVÔ, a todos enternece e torna mais bela a sua memória.
Gostaria de a Vossas Excelências transmitir alguns episódios ou pensamentos do meu Avô, que, por pouco conhecidos, quase pudessem passar por inéditos.

Lembrarei o seu exílio, pouco tempo depois da primeira guerra mundial. Forçado por um meio hostil, um dia se foi por Espanha e França, enriquecer com seus méritos, solos que não eram os seus. Bem cedo a vida lhe sorria, e ao espírito dinâmico e empreendedor, caminhos fáceis se abrem. Era humano que prosseguisse com a sua actividade nesses países onde tinha encontrado clima propício.
Mas não se resignou. Sentimental até à comoção, amava demais a sua terra para que a pudesse esquecer. Por isso, logo que sente voltar à sociedade portuguesa a confiança e a autoridade, abandona aqueles países e praticamente os interesses que neles havia já criado.
Volta a Portugal, roído pela saudade, mas animado pelo espírito. Esquece agravos facilmente, afoga por vezes num sorriso ou num dito espirituoso, um desgosto ou uma desilusão, e continua lutando pelo seu mundo; erguer aqui no Barreiro a unidade industrial que desse à sua CUF o valor económico capaz de rivalizar com as grandes organizações europeias e mundiais congéneres.

Por tanto lutou. Tanto conseguiu.
Mas, ao triunfo e à glória, paga o homem, não raras vezes, pesado tributo.
Dizia-me meu Avô:

«Só se deixa impressionar pela crítica mesquinha e maligna dos invejosos, quem na vida nada quer fazer. De vez em quando eu sinto bem perto de mim o desespero de ver como os homens interpretam de longe o meu trabalho.
O tempo tarda em dar razão a quem a tem, mas acaba por dá-la. Quando às vezes chega esse momento, magoa-me o comportamento dos caluniadores que não se mexem. Sou quase sempre eu a dizer-lhes que esqueçam as coisas passadas.»

Era assim o meu Avô! Um homem que soube ser simplesmente, e em todas as circunstâncias, igual a si próprio.
Minhas Senhoras e Meus Senhores. A todas Vossas Excelências, com especial distinção para a Vila do Barreiro, o agradecimento muito comovido, muito sincero, da Família de Alfredo da Silva.
Que a sua imagem, que a pedra, e o bronze endureceram, resista através dos tempos, e que as gerações à luz do seu exemplo, saibam caminhar em frente e lutar pelos ideais que sempre animaram o seu espírito criador”

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Anúncios da C.U.F.

Porque a história de uma empresa não é feita apenas do seu labor, dos seus feitos ou marcos, apresento neste post interessantes anúncios da Companhia, editados na imprensa da época. Anúncios esses, diga-se, com os quais gerações de portugueses viveram. Numa época onde as campanhas publicitárias não se encontravam tão desenvolvidas como hoje, existiam já interessantes estratégias comerciais.




















Fonte: Jornal "República" datado de 1949




















Fonte: Revista "Seara Nova" datada de 1957




















Fonte: Revista "Mundo" datada de 1959




















Fonte: Revista "Industria Portuguesa" datada de 1959




















Fonte: Revista "Panorama" datada de 1961

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

A C.U.F. e a Siderurgia Nacional

A Siderurgia Nacional foi inaugurada a 24 de Agosto de 1961, grandioso projecto integrado numa política governamental de Substituição de Importações, foi motivo de orgulho á época. Esta grandiosa obra com o cunho de António Champalimaud, homem dos cimentos e da banca ao qual se juntou o Aço, permitia uma produção em 1961 de 230.000 toneladas de gusa, 140.000 de escória, usadas em aplicações como balastro de estradas, construção civil, fabrico de “clinker” (cimentos). Na área da Aciaria, a produção anual era de 300.000 de aço bruto, e na Laminagem, onde era transformado o aço, produzia-se 150.000 toneladas de aço para betão, chapas de aço para várias utilizações e perfis de carris para a CP.

Também o Grupo C.U.F. contribuiu para este novo empreendimento, foi a Navalis (sociedade de construção e reparação naval S.A.R.L.) que procedeu á construção da chaminé da central térmica da Siderurgia. Também devido ao novo empreendimento a Direcção Técnica da C.U.F. nas Fábricas do Barreiro decidiram dar uso as cinzas de pirite, sendo estas um subproduto do fabrico de ácido sulfúrico. Estas acumulavam-se em grandes quantidades no complexo industrial, não havendo até a data uso possível para as mesmas. Com o surgimento da Siderurgia Nacional, e num esquema determinado por uma politica governamental para a utilização de matérias primas nacionais, a C.U.F. instalou no Barreiro, uma Unidade de Tratamento de Cinzas de Pirite, onde depois de tratadas essas mesmas Cinzas eram depois vendidas á Siderurgia Nacional. Eram transportadas por barcaças do Barreiro até ao cais privativo da Siderurgia Nacional em Paio Pires, sendo depois usadas como matéria-prima. A C.U.F. vendia cerca de 170.000 toneladas anuais deste produto à Siderurgia, contribuindo mais uma vez para a indústria nacional.

sábado, 4 de agosto de 2007

Curiosidade: Artigo sobre o Grupo Desportivo da C.U.F.

Neste novo Post, gostaria de apresentar uma notícia publicada no Jornal “A Bola” de 1 de Agosto de 2007 da autoria de Miguel Cardoso Pereira, ao qual dou os meus sinceros parabéns. Creio que este artigo, que publico na íntegra, demonstra muito bem, que o Grupo C.U.F. não apostava só na indústria, como também se promovia a nível desportivo e que também nessa área ela trouxe as suas inovações. Ainda hoje há um clube com certas semelhanças ao que foi o Grupo Desportivo da C.U.F., falo do Bayer Leverkusen, curiosamente também ela um gigante da indústria química. Serão meras coincidências? Espero que gostem.

"A Primeira Indústria do Futebol"

“No Barreiro diz-se que a CUF nunca foi campeã nacional porque muitos dirigentes da fábrica eram do Sporting e não queria importunar os leões. Diz-se também que a CUF chegou a ser a maior empresa da Europa e que tinha capital para alimentar qualquer ideal desportivo. A revolução de Abril de 1974, mudou os negócios de mãos, mudou até os nomes das coisas. De CUF passou a Quimigal e depois a Desportivo Fabril. Antes do que hoje é a indústria do futebol, houve o chamado futebol industrial.

Saia um fumo amarelado das chaminés das fábricas dos óleos, dos sabões, dos adubos, do que mais havia, que hoje já não sai. Era um fumo que se unia e nuvens igualmente amarelas e chegava a impedir que os treinos decorressem ali ao lado, de tão nauseabundo odor no Campo de Santa Bárbara, o começo de tudo no centro do complexo industrial gigantesco onde trabalhavam onze mil pessoas.

O Barreiro dos anos cinquenta era o pólo económico do País, a CUF era a principal empresa da cidade, espalhada também pelo Portugal Continental, insular e ultramarino.

Hoje o Campo de Santa Bárbara é um depósito de entulhos e materiais de construção. Mesmo ao lado está o mausoléu de Alfredo da Silva, industrial dinâmico que ergueu o império. A estrutura do túmulo é maior do que a de Lenine, em Moscovo.

O ecletismo e os resultados alcançados levaram a que os donos da fábrica alargassem interesses desportivos. Ainda que a população do Barreiro sem ligações à CUF empurrasse o seu Barreirense para a frente, como símbolo da cidade, os milhares de trabalhadores e seus familiares criaram uma cultura própria. Troféus atrás de troféus durante anos e anos: no remo, no hóquei em patins, com os internacionais Vítor Domingos e Leonel Fernandes; no atletismo, no ciclismo – o clube venceu uma Volta a Portugal, por Joaquim Fernandes – no basquetebol. Claro, no futebol: Conhé, Fernando Oliveira, Capitão-Mor, Vítor Pereira, Mário João – bicampeão europeu pelo Benfica que se juntou à CUF devido à segurança de um emprego estável – José Palma, Vieira Dias, Arnaldo José Maria e Manuel Fernandes., que mais tarde brilharia no Sporting. A dupla oferta proporcionada pela CUF, futebol e emprego era, na altura, um privilégio irrecusável.

É, ainda hoje, o único emblema português com um prémio da FIFA e da UEFA para Melhor Público Desportivo, que engrandecia o audaz Complexo Desportivo Alfredo da Silva, no Lavradio, para onde a CUF alargou fronteiras em 1965. Ainda hoje é um dos maiores e mais completos espaços desportivos portugueses. Dos mais graciosos. De arrojada arquitectura.

"22 Anos seguidos e nunca mais"

Acontece que , nos dias que correm, ao lado do Tejo, o Barreiro já não é o maior pólo industrial do País, antes um dos concelhos com maior taxa de desemprego, ainda a braços com a poluição atmosférica, uma cidade à beira do rio, mas que o usa só como caminho para Lisboa.

A revolução de Abril esvaziou o poder da empresa , retirou-lhe privilégios e o desinvestimento foi imediato. As 22 épocas consecutivas na I Divisão terminaram em 1975/1976. Jamais.

Em 1976 a CUF passou a Quimigal e em 2000 rebaptizou-se Desportivo Fabril. Mudou de mãos, de nome e enquanto clube de futebol. Já nem pode bem dizer-se que é um histórico pobre ou azarado, como há outros; é sobretudo uma referência em crise de identidade.

Um nome que fabricou sonhos e que até nas estratégias do futebol foi precursor. A 15 de Fevereiro de 1965 a CUF usou pela primeira vez em Portugal um sistema de 4x4x2, ainda no Campo de Santa Bárbara. Ganhou 2-0 ao Benfica e a inovação foi elogiada por treinadores e jornalistas, conta Manuel de Oliveira, que na altura era treinador da CUF, depois de ter sido jogador.

Junto ao destruído Campo de Santa Bárbara, ainda cheira a óleo alimentar, ainda lá se produz. Mas à volta fecharam mais de metade das fábricas.

Do mal, o menos: os níveis de poluição atmosférica descem no Barreiro. Não se respiram nuvens amarelas e as poucas que há até o vento as empurra para Lisboa, uma capital da indústria do futebol. Aquela que fez do futebol industrial um conceito hoje tão estranho, tão cufista"

Reportagem, autoria de Miguel Cardoso Pereira
Publicada no jornal desportivo "A Bola", 1 de Agosto de 2007

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

A C.U.F. e o Barreiro, parte 1

Neste post irei tratar de um assunto pouco conhecido, mas de grande importância para a história da Companhia. Desde que a C.U.F. se instalou no Barreiro (1908), cedo se interessou pela vida do concelho, contribuindo e muito ajudando para o progresso do mesmo.

No final dos anos 20, o Barreiro passava por uma enorme crise nos estabelecimentos de ensino, não existindo as necessárias salas de aula para a enorme procura então verificada. Assim em 1927, Alfredo da Silva mandou edificar uma escola de ensino primário no seu Bairro Operário, resolvendo o problema educacional dos filhos dos seus empregados.

Em 1934, decidiu-se finalmente construir o chamado Aterro da Praia Norte, para a defesa contra as cheias das populações desse local. Assim em Novembro de 1934, Alfredo da Silva põe á disposição da Câmara do Barreiro, locomotivas, vagões, pessoal, e ainda o combustível necessário, para se efectuar tal empreendimento. Assim a linha privada da C.U.F. é desviada, entrando na antiga praia do Barreiro, onde se descarregou as toneladas necessárias de terra para a construção deste Aterro que ficou concluído em 1936.

Em 1938 aquando da criação do Curso Industrial Nocturno do Instituto dos Ferroviários do Sul e Sueste, a C.U.F. cede por empréstimo peças para servirem de modelos nas aulas de desenho de máquinas.

A 12 de Janeiro de 1947 foi inaugurada a Escola Industrial e Comercial Alfredo da Silva, em justa homenagem a uma figura que, nas palavras de seu genro (D. Manuel de Mello, Administrador-Gerente da C.U.F.) “criou e desenvolveu o Barreiro, e teve sempre o projecto de construir escola semelhante” Estiveram presentes na inauguração, a viúva de Alfredo da Silva, D. Maria Cristina Resende Dias de Oliveira da Silva, a sua filha, D. Amélia Silva de Mello (casada com D. Manuel de Mello), o Presidente da Câmara do Barreiro, José Joaquim Fernandes e os Subsecretários de Estado da Educação Nacional e Obras Públicas.

Fonte: "O Barreiro Contemporâneo", vol. I, Armando da Silva Pais, Edição da Câmara Municipal do Barreiro, 1965