sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Os Nomes das Ruas do Novo Bairro Operário da CUF e o seu significado

Hoje a nossa visita guiada, leva-nos até ao Bairro Operário da CUF, cuja sua parte mais recente (datando dos anos 30) ainda se encontra de pé, detendo actualmente poucos moradores, sendo que a maioria das casas estão hoje ocupadas por pequenos negócios e firmas.

Localizado dentro do Complexo Fabril da CUF, no antigo Alto de Santa Barbara no Barreiro, o Bairro Operário foi das primeiras preocupações da administração da Companhia, surgindo logo, aquando do arranque das primeiras fábricas em 1908. Destinado a parte do pessoal das instalações fabris, era composto maioritariamente de casas de piso térreo de formato igual, de grande simplicidade dando ao local um aspecto de continuidade e sequência arquitectónica. Continuidade apenas interrompida pelos "Chalets" do Director das Fábricas e para o pessoal superior, hoje já bastante alterados, da sua tipologia inicial. De forma a servir tal massa populacional, foram edificados vários serviços, tais como: balneário, dispensa, farmácia, posto médico, padaria, serviço de incêndios, escola primária, o Cinema Ginásio, e a sede da Liga de Instrução e Recreio CUF, mais tarde Grupo Desportivo da CUF.

Infelizmente a parcela mais antiga deste Bairro Operário (que se prolongava a sul para além da antiga sede do Grupo Desportivo da CUF) já desapareceu há muito, quer por exigência da modernização fabril, quer por exigências do tráfego rodoviário. Era nesse local, que se poderiam encontrar os nomes mais curiosos de ruas, ligadas aos produtos da CUF: Rua da Juta, Rua dos Óleos, Travessa da Pirite, Avenida dos Superfosfatos, e havia até, imagine-se uma Rua do Dinheiro, toponímia certamente já esquecida por muitos barreirenses. Apenas sobrou uma, a Rua do Ácido Sulfúrico que ainda persiste. Em jeito de homenagem a esses tempos idos, deixarei aqui a única foto que possuo dessa área já desaparecida do Bairro.

Mas voltemos ao nosso passeio. Quem andar por essas ruas, verificará, que a maioria dos nomes delas estão ligados a Homens da Química, por isso o que se, propõe neste post é um passeio por essas ruas e desvendar estas personalidades, que estiveram ligadas directa ou indirectamente à CUF. Esta visita é altamente fotográfica de forma a que todas as pessoas a possam acompanhar a par e passo todas as curiosidades e edifícios existentes no local.

De forma a uma melhor introdução do tema, a quem não conheça o local, fica aqui uma imagem do local visto do ar, juntamente com um mapa das ruas e os seus nomes. (Para aumentar basta clicar nas imagens)


Comecemos a nossa visita pela Rua da CUF, observe-se as pequenas casas rústicas de piso térreo, fachadas pintadas de cor amarela, e beirados de telha romana, esta é uma artéria bastante movimentada, fazendo a ligação entre a Rua Alfredo da Silva, e a Rua Nono de Abril no Bairro das Palmeiras. Facto curioso esta rua a meio do seu caminho desdobra-se noutra que segue para o interior do Bairro Operário da CUF. É por aí que vamos seguir. É nesta parte da Rua que se encontram alguns dos antigos edifícios sociais, tais como a padaria com as suas chaminés em tijolo burro, bem como a Moagem, que no seu telhado pode ser ainda hoje observada uma antiga estrutura em ferro, onde estava uma das várias sirenes das fábricas, que ecoavam por todo o Barreiro para chamar os empregados ao trabalho. Uns passos mais á frente, e olhando para o nosso lado esquerdo podemos apreciar a belíssima Torre do Relógio que é um dos marcos deste Bairro e da cidade do Barreiro, onde estava situada a central telefónica interna das fábricas da CUF. Data de 1928 a sua construção, o relógio é de origem francesa, a torre é completada com um magnifico registo de azulejo como poderão ver nas fotografias seguintes:



À esquerda em primeiro plano a padaria com as suas chaminés, mais abaixo a Moagem, e do lado direito a Torre do Relógio, observe-se o interessante pormenor da pequena placa em pedra a dizer: CUF

Pormenor da estrutura de uma das antigas sirenes das fábricas

Aqui está ela para quem a quiser ver mais de perto


Vista geral da Torre do Relógio do Bairro Operário


Pormenor do Relógio


Pormenor do registo de azulejo


Vamos continuar até ao final da Rua da CUF, deparamo-nos agora, com aquilo que hoje é o restaurante Palácio Alfredo da Silva, que nos tempos da CUF era a messe dos engenheiros e quadros superiores, logo de seguida podemos observar o antigo Cinema Ginásio da CUF, (hoje Casa da Cultura) e por fim o imponente Depósito de Água, que tinha a curiosidades de ter deposito de agua doce e agua salgada para as fábricas.

Pormenor da Rua da CUF


Antiga Messe dos Engenheiros


Cinema Ginásio (Casa da Cultura)


Depósito de Agua


Vista Geral da Rua da CUF


Em seguida viramos para a Rua Liebig um grande químico do séc. XIX cujas suas experiências permitiram o desenvolvimento dos fertilizantes, sabões, explosivos e alimentos desidratados. Professor foi também um impulsionador dos modernos laboratórios de Química. Rua essencialmente composta por casas da habitação, sendo que no seu final se encontra uma casa verde, que se encontra em estado de abandono, onde funcionou a Creche da CUF. Em tempos idos era ver de manhã cedo as crianças a chegar, e a dar alegria e cor aquela casa e ao bairro.


Placa Toponímica


Vista Geral da Rua Liebig


Antiga Creche da CUF 1


Antiga Creche da CUF 2


Antiga Creche da CUF 3


Continuamos agora pela Rua Lavoisier, o Pai da Química Moderna, nesta rua situavam-se as Moradias dos quadros superiores das Fábricas, estando hoje ocupadas maioritariamente por negócios ou pequenas empresas.

Placa Toponímica


Vista Geral da Rua Lavoisier


Outro Aspecto da mesma Rua


Ao fundo desta Rua, virando à nossa esquerda, entramos na Rua Gay-Lussac, químico francês que foi dos primeiros a formular a Lei dos Gases como poderão ler na sua mini-biografia. Ao fundo desta rua encontrava-se a antiga dispensa da CUF, hoje ocupada pela Papelaria Universal, esta rua vai ter a Rua da CUF.

Placa Toponímica


Vista Geral da Rua Gay-Lussac


Ao fundo a Papelaria Universal (antiga dispensa da CUF)


No local desta ultima fotografia viremos então á nossa esquerda, e entremos no coração do bairro, seguindo pela Rua Berthelot um dos mestres da Química Orgânica do sec. XIX. Como se pode ver todo o bairro tem uma continuidade arquitectónica típica deste género de construção.

Placa Toponímica

Vista Geral da Rua Berthelot

Um Aspecto 1

Um Aspecto 2


Percorramos agora a Rua Stinville, o Engenheiro Químico Francês escolhido por Alfredo da Silva, para construir de raíz no Barreiro, um complexo químico de dimensão europeia e com a mais moderna tecnologia da sua época. Nesta rua situavam-se do nosso lado direito a Escola Primária, actualmente ocupada por serviços camarários, e o Laboratório de Controle Analítico da CUF.

Placa Toponímica

Vista Geral da Rua Stinville

Outro Aspecto


A meio se virarmos á nossa esquerda, vamos dar á Rua Dalton, Químico e Físico Inglês, conhecido pela seus trabalhos na área atómica, bem como pelo daltonismo, mal do qual padecia e que estudou profundamente. Para quem não sai o daltonismo é a incapacidade de distinguir cores.

Placa Toponímica

Vista Geral da Rua Dalton

Terminamos a nossa visita mesmo no coração do Bairro, na Rua Lawes. Sir John Bennet Lawes (1814-1900) foi o criador dos Superfosfatos. Graças à sua parceria com o químico J. H. Gilbert fundaram uma quinta experimental em Rothamsted, as suas sucessivas experiências deram origem aos Superfosfatos e ao inicio desta industria. Por volta de 1889 ele irá fundar a "Lawes Agricultural Trust".

9 comentários:

Anônimo disse...

Foi um passeio fenomenal que fiz agora mesmo. Fiquei com imensa vontade de passar por certas ruas. Um belissimo post, Senhor Ricardo, muito bom.

Beijo,Lúcia

José Miranda disse...

Só tenho a agradecer este magnífico post, que me avivou a memória.
Quantas vezes andei por estas ruas!!
Vivi muito tempo na Rua dos Óleos nº 38 e frequentei a escola da CUF.

Grande site!!!!

Abraços de um barreirense

José Miranda

Ricardo Ferreira disse...

Caro José, muito obrigado. Fico muito contente por ter gostado. São mensagens como a sua que me motivam a fazer este blogue, e de poder partilhar o que sei com os meus leitores.

Abraços e cumprimentos

Ricardo Ferreira

firix disse...

Belos trabalhos que tem feito sobre a C.U.F, os meus parabéns pelo magnifico blogue:)

PedroFlora disse...

Artigo excelente que despertou em mim o interesse de ir visitar o bairro operário da CUF . Os nomes ligados à Quimica são uma curiosidade que muito me atrai pois sou professor de Química. Um dia destes vou até lá fotografar esta preciosidade histórica. Abraço e parabéns pelo magnifico blog :)

Ricardo Ferreira disse...

Muito obrigado a todos. Eu sei que é um post extenso e que deu algum trabalho a fazer. É para mim gratificante os vossos comentários,eles dão força a este projecto e à sua continuidade.

Anônimo disse...

A antiga creche era a minha casa. Foi nela que vivi até aos 3 anos. Eu nasci no hospital da CUF e nessa casa vivi com os meus pais e os meus irmãos.

ricardo916 disse...

Boa tarde,

Antes de mais, muitos parabéns pelo blog, já ganhei algumas (longas) horas a lê-lo.

Mas tenho uma questão. Pensava que a dispensa funcionava onde é hoje o ginásio, e numa das fotografias, o Ricardo diz que a dispensa funcionava onde é hoje a papelaria Universal. Onde era a dispensa afinal?

Grande abraço, e que continue com o blog!

Unknown disse...

Um comentador disse: "A antiga creche era a minha casa." Creio que na década de sessenta vivia, nessa casa, um família de um engenheiro que veio a ser Pres. da Câmara Municipal. Estarei errado?