sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Os 44 anos do hipermercado Pão de Açúcar/Jumbo em Cascais

Fez ontem 44 anos, que a inauguração do 17º estabelecimento do Pão de Açucar em Portugal revolucionou a ida às compras na Linha de Cascais. O novo hipermercado mudou hábitos de consumo, democratizou preços e levou maior variedade de produtos e bens a um vasto número de pessoas. Localizado estratégicamente junto á Estrada Marginal e à Linha de Comboio, não admira que se tenha tornado ao longo destes anos, tambem ele, um ícone desta Vila, tal como foi no passado o já desaparecido Hotel Estoril-Sol. É impossivel não se notar na azáfama diária de carros e de gente que ali se deslocam para fazer as suas compras. 

Como é referido na Revista Binário de Outubro de 1973 "Aos técnicos responsáveis por este novo empreendimento foi imposta uma brevidade na elaboração do projecto e na execução da obra que constituiu verdadeiro desafio à sua capacidade. Um desafio que aceitaram conscientemente, enriquecidos, como estavam, pelas experiências anteriores. 
Cento e vinte dias era o prazo fixado; trabalhou-se num ritmo intenso, ergueram-se cerca de 9 mil metros cúbicos de betão, num curto espaço de tempo fez-se praticamente tudo o mais: acabamentos, decoração, montagem do equipamento..." 






Caixas
O hipermercado do Pão de Açucar (actual Jumbo) ocupa uma area de 15.500 metros quadrados no qual o sector de vendas detinha à epoca um total de 5500 metros quadrados. Neste projecto tudo foi estudado ao pormenor inclusive a sua estéctica "No caso de Cascais, com uma urbanização definida e esteticamente valorizada, houve, no entanto, que procurar uma aliança entre as soluções técnicas e os ideais estéticos, por forma a enquadrá-lo dignamente no conjunto. Pôs-se assim de parte a concepção tradicional, marcada da maior sobriedade, para levantar um edificio de linhas mais apuradas, em que a fachada, rica de pormenores, empresta logo um aspecto deveras agradável. Essa mesma determinante inspirou o garden-center, com uma estrutura de ferro e vidro, no qual se atendeu, acima de tudo, ao cosmopolitismo de Cascais e ao propósito de contribuir para o seu aspecto paisagístico." 





                                                                                                           





   
     




Programação e coordenação: Eng. César Palha (Direcção de Expansão dos Supermercados Pão de Açúcar - Lisboa) Arq. Carlos Novais (Construtora Pão de Açucar, S.A. - S. Paulo)
Projecto de Arquitectura: Arq. Eugénio Nascimento
Projecto de Engenharia: Profabril
Direcção da Obra: Eng. Basto Machado
Projecto de Frio: Eng. António Vilela
Decoração: Agostinho Rocha 
Equipamento: Joaquim Serralheiro



A sua inauguração foi um verdadeiro acontecimento para a época, centenas de pessoas aglomeraram-se desde muito cedo junto à entrada do estabelecimento. O Dr. João Flores (Administrador-Delegado da SUPA) recebeu á entrada do edificio o presidente e vice-presidente da Câmara de Cascais, respectivamente, engº Pinto Machado e comodoro Julio Vieira Lopes, o Dr. Jorge de Mello, Eng. Sousa Rego, Vistulo de Abreu, e Drs Abilio e Arnaldo dos Santos Diniz. Após o discurso inaugural prferido pelo Dr. João Flores o pároco de Cascais, Assis Cardoso deu a benção a todos os que empenharam o seu esforço e talento no notável empreendimento, seguidamente a senhora de Pinto Machado cortou a fita simbólica, iniciando-se a visita inaugural. 



          











Snack-Bar
Como é referido no Diário de Noticias de 15 de Setembro de 1973 "Além de todas as secções comuns a todas as lojas, o Pão de Açucar de Cascais apresenta um actualizado pronto-a-vestir, sapataria, balcões de óptica e cosmética, fotografia, e cinema, artigos de campismo e desporto, acessórios de automóveis, bicicletas, electrodomésticos, roupa de casa e mobiliario. Tem igualmente, um excelente snack-bar e uma moderna secção de padaria e de pratos cozinhados. Prevê-se ainda para breve, a abertura de um «garden-center». autêntica novidade nos estabelecimentos similares, e onde poderáo adquirir-se utensilios de jardinagem, sementes, plantas, adubos, vasos e terras, bem como, numa secção anexa, peixes e aves e plantas aquáticas.
Sublinhe-se também, que o Pão de Açucar de Cascais tem a maior rede de frio de todos os supermercados da Peninsula Ibérica e que para comodidade do público, dispõe de um parque para 300 automóveis" Á epoca este estabelecimento era sem sombra de duvida o mais moderno e mais bem equipado hipermercado do país. 



Garden-Center
Pormenor do Interior do Garden-Center
Anuncio da Inauguração do Pão de Açucar de Cascais


Passados que são 44 anos, é natural que muito tenha mudado no actual Jumbo, que hoje tem um parqueamento muito maior devido á construção há mais de 20 anos do silo auto de 2 andares. O espaço do antigo Garden-center já não existe, dos cinemas já só resta uma leve lembrança etc. E é bem possivel que hajam novas alterações (desta vez alterações radicais) relacionadas com aquele espaço. Na edição online do Jornal Expresso de 12 de Março de 2017, é apresentado um novo projecto que pretende revolucionar a entrada de Cascais. O que uns chamam de revolução, chamo eu de pura especulação imobiliária que ira trazer dividendos fenomenais a alguns! Mas quem sou eu para julgar tais propósitos! Deixo o assunto á sensibilidade e visão de cada um. Para mim o mais divertido é ir à página do projecto, fazer o download do seu powerpoint e chegar à parte histórica e ver aquilo em branco. Vê-se de facto o valor dado à parte histórica neste país nos mais diversos sectores. Se calhar estavam á espera que um tipo como eu, lhes fizesse o trabalho de casa. Agora já podem vir aqui roubar e fazer "copy-paste" à vontade, como aconteceu já com tantas postagens deste blogue!



Abilio Diniz
Em jeito de remate coloco em destaque a figura de Abilio Diniz. Para muitos acredito que seja um nome totalmente desconhecido. Abilio dos Santos Diniz, é filho de Valentim dos Santos Diniz, originário de uma aldeia do distrito da Guarda, e que cedo imigrou para o Brasil, à procura de uma vida melhor. O que começou por ser uma modesta doçaria com o nome "Pão de Açucar" tornou-se anos depois na maior cadeia de super e hipermercados da América Latina. Abilio desde cedo se interessou pelo negócio, apostado em fazer crescer ainda mais a marca. Assim entre 1959 e 1963 estudou nos Estados Unidos da América, as mais modernas técnicas e métodos de distribuição a todos os níveis, uma espécie de formação "de como ter êxito na vida montando supermercados" terá ele dito a uma entrevista de uma revista. Abilio foi o grande responsavel pela rápida expansão da marca "Pão de Açucar" pela América Latina, tornando-se num empresário respeitado quer no Brasil quer no estrangeiro. Por isso não é de todo estranho que um homem dinâmico como ele, tenha aceite o desafio de se juntar ao Grupo CUF por forma a internacionalizar ainda mais a sua marca. A sua presença em Portugal oferecia-lhe não só o mercado interno e ultramarino (Jumbo de Luanda), mas ainda a possibilidade de fazer crescer o nome "Pão de Açucar" na Europa. E a verdade é que em meados de 1974 foi inaugurado no centro de Madrid o "Pan Azucar", havendo planos para estender a sua actividade a Londres, mas as mudanças politicas em Portugal e a consequente nacionalização do Grupo CUF deitaram por terra esse projecto. 

2 comentários:

Galvão Teles disse...

Parabéns pelo texto, muito verdadeiro e fazendo história.
Participei, no início da minha carreira profissional, em muitas das obras do Pão de Açúcar, que tinha uma equipa fantástica de profissionais. Permito-me referir alguns de que me lembro -- e peço desculpa aos outros que não menciono. O Joaquim Serralheiro e o Engº Bastos Machado eram os com quem mais contacto tinha; eram fantásticos. Lembro também o engº César Palha, o engº Antunes, o Engº Abreu Faro (irmão, julgo eu, de um notável professor do IST)... Que saudade da obra do Pão de Açúcar de Cascais. Mais tarde tive ainda uma intervenção neste edifício, como consultor, a seguir ao 25 de Abril, com o meu grande amigo e colega de curso, engº Jorge Mendonça. Fazia-se engenharia e faziam-se grandes obras.
José C. Galvão Teles

Ricardo Ferreira disse...

Sr Eng. Galvão Teles muito obrigado pelo seu interesse neste texto e pelo seu testemunho que muito enriquece esta publicação e este blogue. Infelizmente há ainda muita historia da engenharia e da indústria em Portugal por se fazer. Tenho muita pena que muitas vezes seja uma área relegada para um segundo plano, não se percebendo a sua importância para o País e para o seu progresso material. E nessa matéria o Grupo CUF através das suas diversas empresas desempenhou um papel primordial, atrevendo-me a dizer, como poucos o terão feito neste País.