sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Palavras do Dr. Jorge de Mello, aquando da inaguraçao da Estátua de Alfredo da Silva no Barreiro a 30 de Junho de 1965

Neste post, pretendo mais uma vez homenagear a figura de Alfredo da Silva. Aproximando-se o dia da sua morte (22 de Agosto) achei que as belas palavras ditas pelo seu neto, no Barreiro, aquando da inauguração da respectiva estátua, são por si só uma bela forma de prestar homenagem a tão grande vulto nacional.

“É com profundo respeito que me curvo perante a figura veneranda de Vossa Excelência, a quem saúdo, em nome dos meus, e no meu próprio nome. A Vossa Excelência, Senhor Presidente peço mercê, para respeitosamente beijar a mão da excelsa Senhora que Deus a V. Ex.ª uniu, como testemunho cristão de Família Portuguesa.
Com profunda emoção, assistimos hoje, nós, a Família de Alfredo da Silva, à homenagem que lhe é prestada e que Vossa Excelência, Senhor Presidente da República, quis valorizar, com a sua prestigiosa presença. Que mais alta dignidade poderíamos nós desejar, em acto público, para nós tão comovente?!
Que melhor dia poderia ter sido escolhido, a identificar um Homem com a sua obra?!

A Vossas Excelências, também, Senhores Ministros, Senhores Secretários e Subsecretários de Estado, a todos quantos quiseram estar presentes, para que bem testemunhado fosse o preito de justiça que aqui se rende, nós envolvemos na mesma gratidão e no mesmo reconhecimento.
Ao Senhor Presidente da Câmara e ao Município do Barreiro que mandaram construir este monumento, em realização pela da ideia pela primeira vez surgida em 1952, a gratidão muito comovida da família de um homem que tanto amou o Barreiro.

Senhor Presidente da República, nós temos bem presente o apoio e carinho que a Vossa Excelência merecem as iniciativas industriais. Não temos dúvida de que essas iniciativas as toma Vossa Excelência pelo seu verdadeiro sentido: o da elevação do nível de vida dos portugueses.
Também assim pensava meu Avô, que Vossa Excelência conheceu de perto.
Por isso, e pela sua excepciona capacidade realizadora, foi-lhe possível materializar o pensamento nessa grande obra que é a nossa CUF e cujo centenário hoje comemoramos.
De Alfredo da Silva tem sido já traçada larga biografia. Foram feitas há momentos, perante a sua simbólica figura, afirmações que bem poderão ser de reconhecimento e gratidão, mas que são também de estímulo e de fé. Foi traçado já o perfil de um grande homem e nós podemos contemplar a vastidão da sua obra.

Mas… do meu Avô, como seu neto, mais alguma coisa se poderá acrescentar:
Em peço licença a Vossa Excelências para dizer como conheci meu Avô: conheci-o na intimidade; assim como um neto pode conhecer… de roupão e chinelos.
Em verdade foi um homem simples, e extremamente humano, que antes de mais conheci. O homem bom, que soube ser grande; que viveu com entusiasmo, mesmo nas ocasiões difíceis, o animo e a coragem dos fortes… dos muito fortes.

A sua Família, éramos só nós, nos primeiros passos da sua vida. Depois, éramos já todos nós, pois a Família CUF foi para o meu Avô tão familiar, como aquela a quem nas poucas horas de ócio se entregava, nos limites circunscritos do seu lar.
Muitos dos que estão presentes e que com o meu Avô colaboraram, dele me têm contado, em saudosa recordação, pequenos episódios do passado. E eu sinto, que ainda hoje, esta faceta humana de meu AVÔ, a todos enternece e torna mais bela a sua memória.
Gostaria de a Vossas Excelências transmitir alguns episódios ou pensamentos do meu Avô, que, por pouco conhecidos, quase pudessem passar por inéditos.

Lembrarei o seu exílio, pouco tempo depois da primeira guerra mundial. Forçado por um meio hostil, um dia se foi por Espanha e França, enriquecer com seus méritos, solos que não eram os seus. Bem cedo a vida lhe sorria, e ao espírito dinâmico e empreendedor, caminhos fáceis se abrem. Era humano que prosseguisse com a sua actividade nesses países onde tinha encontrado clima propício.
Mas não se resignou. Sentimental até à comoção, amava demais a sua terra para que a pudesse esquecer. Por isso, logo que sente voltar à sociedade portuguesa a confiança e a autoridade, abandona aqueles países e praticamente os interesses que neles havia já criado.
Volta a Portugal, roído pela saudade, mas animado pelo espírito. Esquece agravos facilmente, afoga por vezes num sorriso ou num dito espirituoso, um desgosto ou uma desilusão, e continua lutando pelo seu mundo; erguer aqui no Barreiro a unidade industrial que desse à sua CUF o valor económico capaz de rivalizar com as grandes organizações europeias e mundiais congéneres.

Por tanto lutou. Tanto conseguiu.
Mas, ao triunfo e à glória, paga o homem, não raras vezes, pesado tributo.
Dizia-me meu Avô:

«Só se deixa impressionar pela crítica mesquinha e maligna dos invejosos, quem na vida nada quer fazer. De vez em quando eu sinto bem perto de mim o desespero de ver como os homens interpretam de longe o meu trabalho.
O tempo tarda em dar razão a quem a tem, mas acaba por dá-la. Quando às vezes chega esse momento, magoa-me o comportamento dos caluniadores que não se mexem. Sou quase sempre eu a dizer-lhes que esqueçam as coisas passadas.»

Era assim o meu Avô! Um homem que soube ser simplesmente, e em todas as circunstâncias, igual a si próprio.
Minhas Senhoras e Meus Senhores. A todas Vossas Excelências, com especial distinção para a Vila do Barreiro, o agradecimento muito comovido, muito sincero, da Família de Alfredo da Silva.
Que a sua imagem, que a pedra, e o bronze endureceram, resista através dos tempos, e que as gerações à luz do seu exemplo, saibam caminhar em frente e lutar pelos ideais que sempre animaram o seu espírito criador”

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