
“É com profundo respeito que me curvo perante a figura veneranda de Vossa Excelência, a quem saúdo, em nome dos meus, e no meu próprio nome. A Vossa Excelência, Senhor Presidente peço mercê, para respeitosamente beijar a mão da excelsa Senhora que Deus a V. Ex.ª uniu, como testemunho cristão de Família Portuguesa.
Com profunda emoção, assistimos hoje, nós, a Família de Alfredo da Silva, à homenagem que lhe é prestada e que Vossa Excelência, Senhor Presidente da República, quis valorizar, com a sua prestigiosa presença. Que mais alta dignidade poderíamos nós desejar, em acto público, para nós tão comovente?!
Que melhor dia poderia ter sido escolhido, a identificar um Homem com a sua obra?!
A Vossas Excelências, também, Senhores Ministros, Senhores Secretários e Subsecretários de Estado, a todos quantos quiseram estar presentes, para que bem testemunhado fosse o preito de justiça que aqui se rende, nós envolvemos na mesma gratidão e no mesmo reconhecimento.
Ao Senhor Presidente da Câmara e ao Município do Barreiro que mandaram construir este monumento, em realização pela da ideia pela primeira vez surgida em 1952, a gratidão muito comovida da família de um homem que tanto amou o Barreiro.

Também assim pensava meu Avô, que Vossa Excelência conheceu de perto.
Por isso, e pela sua excepciona capacidade realizadora, foi-lhe possível materializar o pensamento nessa grande obra que é a nossa CUF e cujo centenário hoje comemoramos.
De Alfredo da Silva tem sido já traçada larga biografia. Foram feitas há momentos, perante a sua simbólica figura, afirmações que bem poderão ser de reconhecimento e gratidão, mas que são também de estímulo e de fé. Foi traçado já o perfil de um grande homem e nós podemos contemplar a vastidão da sua obra.
Mas… do meu Avô, como seu neto, mais alguma coisa se poderá acrescentar:
Em peço licença a Vossa Excelências para dizer como conheci meu Avô: conheci-o na intimidade; assim como um neto pode conhecer… de roupão e chinelos.
Em verdade foi um homem simples, e extremamente humano, que antes de mais conheci. O homem bom, que soube ser grande; que viveu com entusiasmo, mesmo nas ocasiões difíceis, o animo e a coragem dos fortes… dos muito fortes.

Muitos dos que estão presentes e que com o meu Avô colaboraram, dele me têm contado, em saudosa recordação, pequenos episódios do passado. E eu sinto, que ainda hoje, esta faceta humana de meu AVÔ, a todos enternece e torna mais bela a sua memória.
Gostaria de a Vossas Excelências transmitir alguns episódios ou pensamentos do meu Avô, que, por pouco conhecidos, quase pudessem passar por inéditos.
Lembrarei o seu exílio, pouco tempo depois da primeira guerra mundial. Forçado por um meio hostil, um dia se foi por Espanha e França, enriquecer com seus méritos, solos que não eram os seus. Bem cedo a vida lhe sorria, e ao espírito dinâmico e empreendedor, caminhos fáceis se abrem. Era humano que prosseguisse com a sua actividade nesses países onde tinha encontrado clima propício.
Mas não se resignou. Sentimental até à comoção, amava demais a sua terra para que a pudesse esquecer. Por isso, logo que sente voltar à sociedade portuguesa a confiança e a autoridade, abandona aqueles países e praticamente os interesses que neles havia já criado.
Volta a Portugal, roído pela saudade, mas animado pelo espírito. Esquece agravos facilmente, afoga por vezes num sorriso ou num dito espirituoso, um desgosto ou uma desilusão, e continua lutando pelo seu mundo; erguer aqui no Barreiro a unidade industrial que desse à sua CUF o valor económico capaz de rivalizar com as grandes organizações europeias e mundiais congéneres.
Por tanto lutou. Tanto conseguiu.
Mas, ao triunfo e à glória, paga o homem, não raras vezes, pesado tributo.
Dizia-me meu Avô:
«Só se deixa impressionar pela crítica mesquinha e maligna dos invejosos, quem na vida nada quer fazer. De vez em quando eu sinto bem perto de mim o desespero de ver como os homens interpretam de longe o meu trabalho.
O tempo tarda em dar razão a quem a tem, mas acaba por dá-la. Quando às vezes chega esse momento, magoa-me o comportamento dos caluniadores que não se mexem. Sou quase sempre eu a dizer-lhes que esqueçam as coisas passadas.»

Minhas Senhoras e Meus Senhores. A todas Vossas Excelências, com especial distinção para a Vila do Barreiro, o agradecimento muito comovido, muito sincero, da Família de Alfredo da Silva.
Que a sua imagem, que a pedra, e o bronze endureceram, resista através dos tempos, e que as gerações à luz do seu exemplo, saibam caminhar em frente e lutar pelos ideais que sempre animaram o seu espírito criador”
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